"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

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MINHAS PÉROLAS

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

SOU UM VULCÃO (OU O QUE RESTA DO FOGO) "Porque metade de mim é o que eu penso... e a outra metade é vulcão..." — Oswaldo Montenegro

 


SOU UM VULCÃO (OU O QUE RESTA DO FOGO) "Porque metade de mim é o que eu penso... e a outra metade é vulcão..." — Oswaldo Montenegro

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Durante muito tempo, acreditei que ser professor de Língua Portuguesa era dominar uma língua de fogo: incendiar salas, estremecer certezas, transformar a palavra em erupção. Eu não apenas tinha o que dizer — tinha pressa de dizer. Confundi intensidade com grandeza e, embriagado pela própria lava, passei a crer que quem não suportava o calor era frágil demais para a montanha que eu imaginava ser.

Cheguei a chamar de inferno o ato de lançar pérolas aos porcos. Hoje, porém, pergunto-me: quem era, afinal, o animal dessa parábola? Se alguns alunos “definhavam” sob minha fala, faltava-lhes substância — ou eu confundia ensino com combustão? O professor que se orgulha das cinzas ao redor talvez não seja vulcão, mas incêndio desgovernado. E incêndios não iluminam: devastam.

Eu dizia que explodia por dentro enquanto eles se consumiam por fora. Com solenidade, repetia que cada um deveria examinar-se para não participar indignamente da ceia do conhecimento. No entanto, erguia um altar onde só permaneciam os que resistiam à queimadura. Fiz da sala um coliseu silencioso: alguns saíam aplaudidos, outros saíam calados — e a esse filtro cruel dei o nome de mérito.

Aprendi, tarde, que pedagogia não se mede pelos que suportam o calor, mas pelos que conseguem acender a própria chama sem se reduzir a carvão. O conhecimento não precisa ferir para ser profundo. A dor pode acompanhar a descoberta; quando se torna método, porém, costuma revelar menos rigor do que insegurança travestida de força.

É verdade: pedras vulcânicas são belas e férteis. Ainda assim, ao recolher-me satisfeito, percebia que havia petrificado o entorno. Silêncio não é sinônimo de respeito; muitas vezes é retração. E retração não educa — apenas se defende.

"Sou apenas vulcão, com gotas de erudição" — Natasha Treuffar

Hoje desconfio da sedução dessa imagem. Talvez não seja preciso ser vulcão para ensinar. Talvez baste ser farol — fogo que orienta, não que consome. Se algo em mim ainda entra em erupção, que seja a paixão pela linguagem, não a vaidade de reduzir o outro a cinzas.

E, se o que sai de mim por vezes parece bruto, que já não seja o vômito orgulhoso de quem acredita alimentar à força, mas o pão repartido de quem compreende que educar é oferecer, não impor — aquecer, sem queimar.


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Como um professor de sociologia, toquei em pontos fundamentais da nossa disciplina: as relações de poder no ambiente escolar, o conceito de meritocracia e a função social da educação. Aqui estão 5 questões discursivas, elaboradas para estimular a reflexão crítica dos alunos do Ensino Médio sobre os temas sociais e pedagógicos presentes no seu relato:


1. A Construção da Autoridade e o Poder em Sala de Aula: No texto, o autor afirma: "erguia um altar onde só permaneciam os que resistiam à queimadura". Do ponto de vista sociológico, como a postura de um professor pode reforçar uma estrutura de poder autoritária em vez de democrática? Relacione sua resposta com o conceito de "silêncio como retração" mencionado no texto.

2. A Crítica à Meritocracia: O autor admite que deu o nome de "mérito" a um filtro cruel que privilegiava apenas os que suportavam seu método agressivo. Explique como a ideia de meritocracia, quando aplicada sem considerar as diferenças individuais e as condições de aprendizado dos alunos, pode gerar desigualdade e exclusão social dentro da escola.

3. Educação como Processo de Socialização: O texto sugere uma mudança de visão: de um "vulcão que consome" para um "farol que orienta". Segundo os pensadores da sociologia da educação (como Durkheim ou Paulo Freire), qual deve ser o papel do educador na formação de um indivíduo para a vida em sociedade? É possível educar para a cidadania através do medo ou da "combustão"?

4. O Estigma e a Identidade do Aluno: Ao usar a expressão "lançar pérolas aos porcos", o autor reflete sobre como rotulava seus alunos. Discuta como a rotulação e o preconceito por parte dos agentes escolares (professores e gestores) podem afetar a construção da identidade do jovem e sua trajetória escolar.

5. Função Social do Conhecimento: Imposição vs. Diálogo. A conclusão do texto fala sobre educar como o "pão repartido", e não como algo imposto à força. Como a democratização do conhecimento e o diálogo em sala de aula contribuem para uma sociedade menos petrificada e mais participativa?

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