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MINHAS PÉROLAS

sábado, 14 de janeiro de 2023

O Ofício do Pensar: Entre Pautas, Feridas e Verdades ("Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas." — Friedrich Nietzsche)

 


O Ofício do Pensar: Entre Pautas, Feridas e Verdades ("Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas." — Friedrich Nietzsche)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Pensar sempre foi o meu prazer — talvez o único que não me exige desculpas. Uso a palavra como ferramenta e o silêncio como método. Trago vivências guardadas a sete chaves e carrego, confesso, um desajuste antigo: confiar demais nos outros. Não raro, foi desse excesso que nasceram minhas desilusões. Aos que me detestam, não ofereço conciliação fácil; a antipatia, quando recíproca, poupa tempo e ilusões. Aos que me acompanham, deixo um aviso simples: o papel em branco aceita tudo, inclusive o traço de quem nunca aprendeu a desenhar.

Prefiro as folhas pautadas. Não por apego à rigidez, mas porque a linha impõe responsabilidade ao gesto. A forma não salva o conteúdo, mas o constrange a se explicar. Tragam-me limites: escrevo melhor quando sou desafiado. Talvez por isso nada que me seja dado de graça permaneça — o valor nasce do atrito, não da concessão.

Escrevo para consciências, não para aplausos. Ainda assim, aprendi — a duras penas — que chamar alguém de tolo é mais fácil do que admitir quando fui eu quem não soube escutar. A antiga sentença bíblica — “O açoite é para o cavalo, o freio para o jumento, e a vara para as costas dos tolos” — fala menos de punição e mais da tragédia humana de resistir ao aprendizado. A verdade, quando manipulada, não se transforma em sabedoria: converte-se em ruído. No início, fere; depois, anestesia. Repetida sem reflexão, vira conforto — e o conforto excessivo costuma ser o berço da mentira.

A verdade, quando viva, é exigente e solitária. Não busca popularidade. Tampouco se degrada por si mesma: o que se corrompe é o olhar que a reduz a slogan ou arma. Quando isso ocorre, não é a verdade que morre, mas a responsabilidade de quem a invocou.

Desconfio da multidão não por desprezo, mas por experiência histórica. O consenso pode errar com impressionante eficiência. Ainda assim, aprendi que a desconfiança absoluta também adoece. Metáforas salvam ou matam ideias: quando mal escolhidas, espalham mais confusão do que crítica. Nem toda solução coletiva é veneno, nem toda discordância é lucidez.

Talvez seja isso que me canse — não o mundo, mas a tentação de simplificá-lo. Pensar dói porque expõe limites, inclusive os meus. E se persisto, não é por arrogância, mas porque desistir da complexidade seria a forma mais elegante de mentir para mim mesmo.


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Olá! Que prazer ver um texto com tanta densidade reflexiva. Como seu professor de Sociologia, fico entusiasmado com a oportunidade de usar essas provocações para estimular o pensamento crítico. O texto toca em temas centrais da disciplina: identidade, o papel das instituições (as pautas), a construção social da verdade e a tensão entre o indivíduo e a massa (senso comum). Aqui estão 5 questões discursivas, elaboradas para que meus alunos possam mergulhar nessas águas profundas:


1. O Indivíduo e a Alteridade. No início do texto, o autor menciona que seu "desajuste" é "confiar demais nos outros". Do ponto de vista sociológico, como a quebra de expectativa nas interações sociais (as desilusões) contribui para a formação da identidade individual e para a mudança no comportamento coletivo?

2. Instituições e Liberdade. O autor afirma preferir "folhas pautadas" porque "a linha impõe responsabilidade ao gesto". Faça uma analogia entre essa frase e o papel das leis e normas na sociedade. Os limites impostos pelas instituições sociais impedem a criatividade ou servem para dar sentido e "estética" à convivência humana?

3. Senso Comum vs. Pensamento Crítico. O texto utiliza a metáfora da "vara para as costas dos tolos" para falar sobre a resistência ao aprendizado. Relacione essa passagem ao conceito de Senso Comum. Por que, muitas vezes, é mais confortável para um grupo social manter uma "verdade manipulada" do que aceitar o desconforto de uma nova descoberta?

4. A Tirania da Maioria. Ao dizer que "o consenso pode errar com impressionante eficiência", o autor dialoga com pensadores que desconfiam da massa. Explique, com suas palavras, por que a vontade da maioria nem sempre é sinônimo de verdade ética ou justiça social, citando um exemplo (histórico ou atual).

5. A Ética da Complexidade. O autor finaliza dizendo que "desistir da complexidade seria a forma mais elegante de mentir para mim mesmo". Na era das redes sociais e das notícias rápidas, por que a simplificação excessiva dos problemas sociais (como o crime, a pobreza ou a política) pode ser considerada uma ameaça à democracia?

Dica do Prof: Para responder a essas questões, não busque apenas o "o que" o autor disse, mas o "porquê" ele escolheu essas metáforas. A sociologia não é sobre decorar frases, é sobre entender as engrenagens que movem essas ideias.

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