ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (71): A Comunhão Espontânea - Além das Estruturas Institucionais.
Há uma expressão que me ocorreu numa manhã qualquer e, desde então, nunca mais saiu da minha cabeça: igreja empresa. Não digo que ela seja propriamente minha, porque a realidade que descreve já existia muito antes das palavras. Mas, quando enfim a formulei, tudo fez sentido. Foi aquele estalo raro de quem finalmente consegue dar nome a um incômodo antigo. Igreja empresa: uma organização com CNPJ, fluxo de caixa, organograma, metas de crescimento, indicadores de desempenho e planejamento estratégico. E, em algum ponto da lista de atividades, Deus.
Sempre que penso nisso, lembro do Seu Armindo. Ele morava num bairro que parecia ter sido esquecido pela cidade. A rua nem nome oficial tinha. A casa, de alvenaria crua, permanecia inacabada, como tantas outras erguidas aos poucos, conforme o dinheiro permitia. Na soleira, um cachorro velho dormia quase o dia inteiro, indiferente ao movimento da rua.
Seu Armindo nunca foi membro de igreja nenhuma. Não possuía carteirinha, seu nome nunca apareceu em ata, jamais participou de eleição para diretoria ou ocupou qualquer cargo eclesiástico. Se alguém perguntasse aos responsáveis por qualquer denominação da cidade, dificilmente encontraria seu nome em algum cadastro. Para os registros institucionais do Reino, ele simplesmente não existia.
No entanto, todas as manhãs, antes mesmo de o sol firmar presença no céu, ele caminhava até o pequeno terreno nos fundos da casa e permanecia ali por um bom tempo. Nunca soube quanto. Nunca senti necessidade de medir. Era apenas silêncio.
Os vizinhos conheciam aquele hábito. Alguns o achavam excêntrico. Outros, porém, pouco a pouco começaram a aparecer com suas dores, suas dúvidas, seus medos e perguntas que não encontravam resposta em lugar nenhum. Sentavam-se ao lado dele e, curiosamente, iam embora sem receber versículos decorados, sermões prontos ou convite para participar de um culto. Saíam apenas... mais leves. E, às vezes, é justamente isso que uma alma precisa.
Nenhuma instituição, muito provavelmente, teria encontrado um cargo capaz de descrever aquilo que Seu Armindo fazia. É aí que mora a tensão que não me abandona. A "igreja empresa" precisa de membros cadastrados, dízimos registrados, relatórios de frequência, departamentos organizados e resultados que possam ser apresentados. E não há mal algum em reconhecer que estruturas assim têm sua utilidade. Elas organizam, coordenam, preservam, ensinam e oferecem estabilidade. Seria ingenuidade negar isso.
Ainda assim, existe uma dimensão da vida espiritual que simplesmente escapa às planilhas, aos formulários e aos sistemas de controle. Há coisas que não cabem em relatórios. Há pessoas cuja relevância jamais será percebida por qualquer organograma. E o Seu Armindo era a demonstração viva dessa verdade.
Às vezes, imagino o dia de que falam as Escrituras, quando a lista definitiva será revelada. Confesso que imagino também o espanto de muitos administradores eclesiásticos ao encontrarem nomes que jamais passaram por suas atas, nunca apareceram em seus relatórios nem figuraram em suas estatísticas.
Serão pessoas anônimas. Gente sem título, sem cargo, sem distintivo. Homens e mulheres como o Seu Armindo, espalhados pelos lugares mais improváveis do mundo, reconhecidos por uma autoridade que nenhuma instituição humana possui. Porque há reconhecimentos que organização alguma pode conceder. E, da mesma forma, há reconhecimentos que ela jamais será capaz de negar. A "igreja empresa" mantém os seus registros. O Espírito, ao que tudo indica, continua escrevendo os seus.


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