ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (72): A Igreja além dos Limites Terrenos.
O homem que me disse que a Igreja não tinha pecados chamava-se Hélio. Aos domingos, fazia questão de vestir terno, mesmo no calor sufocante do verão. Era o tipo de pessoa que confundia a instituição com o Fundador — um equívoco compreensível, até certo ponto, mas que costuma custar caro quando a realidade insiste em contrariar a teoria.
Nossa conversa aconteceu numa quinta-feira, depois de um estudo bíblico que havia começado tratando de um assunto qualquer e, como tantas vezes acontece, acabou desembocando em questões bem mais pessoais. Hélio falava com a convicção serena de quem jamais fora decepcionado por aquilo que amava. Eu, por outro lado, falava com a cautela de quem já conhecia as rachaduras escondidas sob a pintura.
Naquela tarde, ninguém convenceu ninguém. Fui embora sem uma resposta definitiva, mas com uma lembrança que insistia em me acompanhar durante o caminho de volta. Pensei numa mulher que conheci muitos anos antes. Vou chamá-la de Dona Zélia. Não era esse o seu nome, mas era o nome que, de algum modo, parecia lhe pertencer.
Dona Zélia perdeu o marido num acidente inesperado. De um dia para o outro, viu-se sozinha, com três filhos pequenos, o aluguel vencendo e uma geladeira que quase sempre tinha mais espaço vazio do que comida. A igreja do bairro — uma congregação simples, com infiltrações no teto, paredes já marcadas pelo tempo e cadeiras que rangiam a cada movimento — fez o que estava ao seu alcance. Organizou uma corrente de ajuda que atravessou meses: cestas básicas, irmãos que se revezavam para buscar as crianças na escola, uma vaquinha discreta para manter o aluguel em dia. Nada extraordinário. Nada que estampasse relatórios anuais ou rendesse testemunhos emocionados diante da congregação. Apenas o bem sendo feito, quase sempre longe dos holofotes.
Mas, foi essa mesma igreja que, cerca de dois anos depois, expulsou um rapaz por motivos que não vêm ao caso detalhar. Bastaria dizer que as razões pareciam nascer muito mais do desconforto coletivo do que de qualquer princípio genuinamente evangélico. Naquele domingo à noite, ele saiu pela porta dos fundos em silêncio. Pelo que soube depois, nunca mais entrou em outra igreja.
Era a mesma instituição. O mesmo teto marcado pela infiltração. As mesmas cadeiras rangendo durante os cultos. A mesma lista de membros. Era justamente isso que Hélio não conseguia sustentar ao mesmo tempo dentro da própria compreensão: a Igreja pode alimentar uma viúva numa semana e constranger um jovem na seguinte. Não necessariamente por malícia deliberada ou hipocrisia cuidadosamente planejada, mas porque é formada por gente. E gente, por mais sincera que seja, alterna acertos e erros com a mesma naturalidade com que respira.
Paulo parecia compreender essa realidade melhor do que muitos de nós. Afinal, suas cartas não foram escritas para comunidades perfeitas, mas para igrejas marcadas por conflitos, divisões, vaidades e imaturidades. Boa parte delas soa como a exortação paciente de um pai que conhece cada pessoa pelo nome, enxerga seus defeitos com lucidez e, ainda assim, se recusa a desistir delas.
Talvez seja justamente por isso que nunca consegui enxergar a Igreja como um museu de santos. A Igreja é uma enfermaria. E enfermarias, por definição, não são lugares onde as pessoas chegam porque já estão curadas. São lugares onde homens e mulheres feridos encontram espaço para começar, pouco a pouco, o processo de restauração.
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