ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (65): A Religião como um Mistério que Transcende Definições.
Abri o Dicionário Houaiss numa noite sem grandes pretensões. Estava sentado à mesa, e o silêncio do lado de fora tinha aquela espessura própria das noites fechadas, quando até os ruídos parecem andar na ponta dos pés. Não havia pesquisa a concluir, tese a defender nem urgência alguma. Ainda assim, por uma razão que nem hoje sei explicar direito, fui parar na letra R.
Religião. Substantivo feminino. O verbete ocupava quatro linhas. Quatro linhas para algo em nome do qual guerras foram travadas, impérios se ergueram e desmoronaram, multidões marcharam e indivíduos abandonaram família, conforto e, às vezes, a própria vida. Quatro linhas alinhadas com a compostura dos ponto-e-vírgulas, como quem pretende descrever o oceano informando apenas o peso específico da água.
Li aquelas quatro linhas uma vez. Depois, outra. Então fechei o dicionário. O problema não era o Houaiss — afinal, dicionários fazem exatamente aquilo para o que nasceram: delimitam, organizam, classificam. Há certa nobreza nessa tentativa de colocar o mundo em ordem. O problema era eu, esperando que coubesse. Esperando que quatro linhas fossem suficientes.
Que ali coubesse Dona Eunice, rezando o terço há cinquenta anos sem jamais ter resolvido todas as suas dúvidas, mas rezando assim mesmo, porque algumas fidelidades sobrevivem justamente por não dependerem de certezas. Que coubesse o homem que atravessou a cidade de joelhos para cumprir uma promessa feita a si próprio numa madrugada sem testemunhas, quando só Deus — se estava ouvindo — conhecia o peso daquela barganha silenciosa. Que coubesse o adolescente que entrou numa igreja pela primeira vez porque a menina de quem gostava frequentava aquele lugar e que, três anos depois, saiu sem a menina, mas carregando dentro de si alguma coisa para a qual ainda não encontrou nome.
Percebi, naquela noite, que a religião talvez não seja aquilo que o verbete afirma. Talvez seja justamente aquilo que o verbete não consegue dizer e, ainda assim, tenta alcançar. Porque há experiências que desafiam definições. Elas escorrem pelas bordas das palavras, recusam molduras e se tornam maiores do que os conceitos que pretendem contê-las. A religião, quando reduzida a uma fórmula, perde justamente aquilo que a torna humana: o espanto, a contradição, o consolo, a busca. O território nebuloso onde convivem fé e dúvida, esperança e medo, silêncio e clamor.
Há quem diga — e não é uma posição nova, embora continue exigindo certa coragem intelectual — que o que Jesus propôs não era religião no sentido que o Houaiss descreve. Não se tratava de uma doutrina sistematizada nem de uma hierarquia regulando o acesso ao sagrado. Era outra coisa. Algo mais simples e, exatamente por isso, infinitamente mais difícil. Amar. Crer. Estar com. Palavras pequenas. Palavras que também cabem em quatro linhas. E que, ainda assim, transbordam.
Fechei o dicionário e permaneci olhando para a mesa por alguns minutos. Às vezes, a gente fecha um livro sem encerrá-lo de verdade. Ele continua aberto em algum lugar dentro da cabeça, reorganizando prateleiras, deslocando convicções, fazendo perguntas inconvenientes.
Lá fora, alguém havia ligado um rádio. O som vinha de longe. Não dava para distinguir a melodia nem reconhecer a letra; chegava apenas o ritmo, insistente e difuso, atravessando a noite sem pedir licença. E foi então que pensei que talvez seja exatamente isso. Talvez a religião seja esse ritmo distante. Algo que você não consegue nomear com precisão, nem reproduzir fielmente, mas reconhece quando escuta. Algo que faz você interromper o passo por um instante, erguer a cabeça e prestar atenção. Não porque entendeu tudo, mas porque, de algum modo misterioso, percebe que aquilo fala uma língua antiga que a razão sozinha não domina. O Houaiss não tem verbete para isso. A verdade é que ninguém tem.


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