ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (61): A Jornada do Autoproclamado Pastor: O Pastor por Correspondência
Era uma manhã cinzenta, dessas em que o dia parece pedir licença para nascer. O café esfriava devagar sobre a mesa enquanto eu folheava o jornal sem grande expectativa. Política. Futebol. Classificados. O preço da carne. As tragédias de sempre, servidas em colunas estreitas entre anúncios de liquidação e vagas de emprego. Até que um anúncio me fisgou. Em letras garrafais, ocupando um espaço respeitável da página, ele prometia: "Torne-se um pastor em apenas 20 meses!"
Parei de folhear. Voltei a página. Li outra vez. Depois uma terceira. Havia algo profundamente perturbador naquela objetividade comercial. Nada de mistério. Nada de solenidade. Nenhuma história de vocação amadurecida no silêncio, nenhuma referência a anos de aprendizado, dúvida ou serviço. Era uma oferta. Clara, direta, quase festiva em sua simplicidade. Como quem anuncia um curso de digitação, corte e costura ou técnicas de vendas.
Segundo o anúncio, qualquer pessoa poderia tornar-se pastor por meio de um curso por correspondência. Não se exigiam anos de estudo, acompanhamento comunitário ou reconhecimento de uma trajetória espiritual. Bastava preencher a inscrição, pagar R$ 8,00 por mês durante vinte meses, e as apostilas chegariam pelos Correios.
Fiz as contas por curiosidade. Cento e sessenta reais. Era esse o preço anunciado para a formação de um líder espiritual. O número dispensava comentários. Não precisava de ironia, embora a ironia estivesse toda ali. Não exigia indignação teatral. Bastava existir. Impresso em tinta barata sobre papel-jornal, ele sugeria que, por menos do que muitas famílias gastavam numa feira de mês, alguém poderia receber o material necessário para assumir um púlpito, alugar uma sala comercial na esquina e inaugurar uma igreja com direito a faixa de lona e microfone emprestado.
Mas, o que havia dentro daquelas apostilas? Foi essa pergunta que não me largou. Imaginei os fascículos chegando mês após mês. Talvez o primeiro ensinasse a preparar sermões: introdução, desenvolvimento e apelo final. Outro poderia explicar como conduzir um culto sem deixar espaços constrangedores de silêncio. Haveria, quem sabe, orientações sobre batismos, casamentos e funerais. Talvez um módulo ensinasse a organizar a tesouraria, registrar ofertas e administrar despesas. Quem sabe até algumas páginas dedicadas ao aconselhamento pastoral: o que dizer à viúva recém-enlutada, como lidar com conflitos familiares, de que forma orientar alguém consumido pela culpa ou pela ansiedade.
E foi justamente aí que senti o peso escondido naquela caixa de papelão. Porque ensinar alguém a preencher um relatório financeiro é uma coisa. Ensinar alguém a sentar-se diante de uma mãe que perdeu um filho é outra completamente diferente. Orientar a liturgia de um culto é uma habilidade. Acompanhar o desespero de quem pensa em desistir da vida é uma responsabilidade de outra natureza. Apostilas transmitem informação. Mas, conseguem formar discernimento? Conseguem cultivar humildade? Conseguem ensinar alguém a reconhecer os próprios limites antes de invadir, com respostas prontas, o território sagrado da dor alheia?
A questão nunca foi desprezar o estudo informal. Esta série inteira defendeu homens e mulheres sem diploma, mas cheios de responsabilidade; gente como Gilberto, Benedito e tantos outros que aprenderam servindo, ouvindo mais do que falando, amadurecendo no convívio com a comunidade antes de ocupar qualquer lugar de destaque. O problema é outro. É transformar formação em produto e autoridade em certificado de conclusão. É sugerir que o mistério da condução espiritual pode ser reduzido a parcelas fixas e exercícios enviados pelo correio.
A jornada pastoral, que deveria envolver caráter provado, disposição para aprender, capacidade de prestar contas e consciência do peso das próprias palavras, passava a caber num cronograma de vinte meses e numa mensalidade de R$ 8,00. E talvez seja justamente aí que mora o escândalo. Não porque o sagrado devesse permanecer reservado a uma elite iluminada. O Evangelho nunca pertenceu aos especialistas. O pescador da Galileia sabia disso melhor do que ninguém. Mas, há uma diferença imensa entre democratizar o acesso e banalizar a responsabilidade.
Nem todo aquele que ensina precisa acumular títulos. Mas, todo aquele que ensina deveria compreender a gravidade do que faz. Afinal, líderes religiosos não distribuem apenas informações. Distribuem interpretações. Influenciam decisões. Interferem em casamentos. Aconselham viúvas. Consolam pais. Às vezes, suas palavras sustentam alguém à beira do abismo; outras vezes, empurram sem perceber. Falam em nome de Deus diante de pessoas que, muitas vezes, chegam fragilizadas demais para questionar.
Quantas Donas Eunices confiaram porque acreditaram que havia preparo por trás do púlpito? Quantas Donas Ritas entregaram suas economias supondo que autoridade e competência caminhavam juntas? Quantos Severinos engoliram perguntas porque imaginaram que a ausência de resposta era profundidade, quando talvez fosse apenas improviso revestido de linguagem religiosa?
Enquanto o mundo seguia correndo lá fora, eu permanecia sentado diante daquele anúncio, o jornal aberto sobre a mesa e o café já frio. Minha inquietação já não nascia apenas da possibilidade de alguém tornar-se pastor pagando prestações modestas. Ela brotava da facilidade com que confundimos acesso com aptidão, entusiasmo com maturidade, desenvoltura com sabedoria e carisma com preparo.
A fé, em seu melhor sentido, sempre foi uma busca sincera por verdade e significado. Um exercício de humildade diante do mistério. Um caminho de transformação que exige escuta, revisão de si mesmo e disposição permanente para aprender. Ela não cabe inteira numa apostila.
Ao dobrar o jornal, senti aquele misto incômodo de tristeza e indignação que às vezes acompanha certas descobertas. Talvez o verdadeiro problema não fosse a existência daquele curso. Talvez o problema fosse uma cultura religiosa que passou a desconfiar do aprofundamento, a tratar o preparo como burocracia e a celebrar atalhos como se fossem evidências de unção. Porque atalhos funcionam muito bem quando o objetivo é entregar mercadorias. Mas, a formação de consciências humanas nunca deveria ser tratada como entrega expressa.
E talvez seja por isso que discernimento continue sendo uma das formas mais altas de cuidado. Nem todo anúncio vende apenas um curso. Alguns vendem a sedutora ilusão de que existem caminhos curtos para carregar responsabilidades que, na verdade, exigem uma vida inteira de aprendizado, prudência e humildade.


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