ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (44): A Responsabilidade do Coração Generoso.
Ninguém precisa fazer vaquinha para ajudar ninguém. Talvez o texto devesse começar exatamente aqui. Sem rodeios. Sem introduções elaboradas. Apenas com essa frase simples, direta e um tanto desconfortável, capaz de dizer em poucas palavras o que muitas igrejas levam anos de campanhas, rifas e bingos tentando não admitir.
Porque, no fundo, a questão nunca foi falta de recursos. Quase sempre é falta de decisão. Lembro-me de uma família no bairro onde cresci. Eles passavam necessidade daquele tipo que todo mundo percebe, mas ninguém comenta em voz alta. O pai havia adoecido. A mãe fazia costuras para complementar a renda. Havia três filhos correndo pela casa e uma geladeira que, soube mais tarde, passava boa parte do mês mais vazia do que cheia.
A situação era conhecida. A urgência também. Na igreja, alguém sugeriu uma campanha para ajudá-los. A ideia foi bem recebida. Vieram os formulários, a arrecadação, a comissão responsável pela distribuição dos recursos, as reuniões para aprovação dos valores, os critérios de avaliação, os relatórios e toda a engrenagem administrativa que costuma surgir quando a solidariedade ganha um regulamento.
Enquanto tudo isso era organizado, aconteceu algo curioso. Uma vizinha — que não frequentava igreja alguma, não possuía cargo religioso, não fazia parte de nenhuma comissão e não ostentava qualquer credencial espiritual reconhecível — apareceu discretamente na casa da família com duas sacolas de mercado. Deixou-as na porta. E foi embora. Sem formulário. Sem prestação de contas. Sem reunião para deliberar se a ajuda era adequada. As sacolas chegaram numa terça-feira. A campanha da igreja foi oficialmente aprovada na reunião de quinta. Os recursos arrecadados, depois de todos os procedimentos necessários, chegaram quase três semanas depois.
Não estou dizendo que tesourarias sejam inúteis. Longe disso. Estruturas organizadas podem ser instrumentos valiosos quando funcionam com honestidade, responsabilidade e propósito. O problema surge quando a burocracia da solidariedade se torna mais rápida para registrar a necessidade do que para socorrê-la. E esse custo raramente aparece nos relatórios. Ele é medido em dias. Às vezes, em semanas. É contado em geladeiras vazias enquanto comissões deliberam, em contas vencendo enquanto atas são redigidas, em necessidades urgentes aguardando a próxima reunião ordinária.
A responsabilidade de cuidar do próximo é, em sua essência, intransferível. Não porque as estruturas sejam más. Muitas fazem um trabalho admirável. Mas, porque nenhuma instituição consegue substituir completamente o gesto pessoal. Há uma diferença profunda entre contribuir para um fundo que talvez alcance alguém e olhar diretamente para quem sofre e colocar algo em suas mãos. A primeira atitude tem seu valor. A segunda tem seu rosto. E isso muda tudo.
A terceirização da solidariedade assume muitas formas. Às vezes, recebe o nome de vaquinha. Outras vezes, bingo beneficente. Em certas ocasiões, campanha do agasalho. Em outras, arrecadações que começam em novembro para serem distribuídas em dezembro por uma comissão que ainda nem foi formada. Nada disso é necessariamente errado. O problema aparece quando o mecanismo substitui o encontro.
Quando alguém deposita sua contribuição numa urna, assina seu nome numa lista e retorna para casa com a sensação de dever cumprido, sem jamais ter visto o rosto da pessoa que precisava de ajuda. Nesse momento, a generosidade corre o risco de se transformar apenas em procedimento. E procedimentos, por mais úteis que sejam, não abraçam. Não escutam. Não visitam. Não enxugam lágrimas.
A verdadeira tesouraria nunca esteve guardada nos cofres da igreja. Ela está nas mãos de quem vê a necessidade e decide agir. Está nos pés de quem atravessa a rua. Está no coração de quem interrompe a própria rotina para carregar o peso de outra pessoa por alguns instantes.
Foi exatamente isso que a vizinha daquela família fez. Sem avisar. Sem convocação. Sem orçamento aprovado. Sem esperar autorização de ninguém. Ela simplesmente viu. E porque viu, agiu. Talvez tenha sido justamente aí que ela compreendeu algo que muitas estruturas religiosas ainda lutam para aprender: a generosidade não trabalha com calendário. Ela não exige inscrição prévia. Não depende de quórum. Não aguarda a próxima reunião. A generosidade enxerga. E quando enxerga, move-se. No mesmo dia. Com os recursos que possui. Da forma que consegue.
O restante é administração. Necessária, sem dúvida. Útil, muitas vezes. Mas, por melhor que seja, administração nenhuma jamais matou a fome de alguém numa terça-feira.


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