ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (47): O Cuidado que Transcende o Dinheiro.
Rapaz, tem coisas que a gente guarda no fundo do baú da memória e que pesam mais do que deveriam. Preciso abrir o coração e contar algo que nunca botei no papel antes. Na minha antiga congregação, tinha uma senhora — vamos chamá-la de Dona Rita — que morava num "puxadinho" de um cômodo só, a míseros três quarteirões da igreja. Já tinha batido a casa dos setenta, carregava uma perna teimosa que não dobrava por nada e ostentava aquela independência orgulhosa, típica de quem aprendeu a nunca pedir arrego porque, em algum momento da vida que ela não revelava a ninguém, pedir ajuda custou caro demais.
Pois bem, eu vinha sacando que o caldo estava entornando para o lado dela. Não era nada espalhafatoso, era daquele jeito bem silencioso — que, vamos combinar, é o pior tipo de sofrimento. As roupas dela começaram a dançar no corpo, o passo ficou arrastado, quase parando. Nas semanas que antecederam o que seria o seu último culto com saúde, ela chegava antes de todo mundo. Sentava lá no primeiro banco com uma imobilidade de estátua, como quem precisa economizar cada gota de energia para conseguir ficar de pé.
Eu vi. Sei perfeitamente que vi. E me lembro, com uma nitidez que o tempo não consegue desbotar, de ter pensado comigo mesmo: preciso passar na casa dela essa semana. Mas cadê que eu fui? Não passei. Sabe como é, primeiro surgiu uma reunião de última hora. Depois, outra burocracia para resolver. Aí chegou o fim de semana e, num piscar de olhos, a semana seguinte já tinha engolido tudo. A vida cotidiana tem esse superpoder maldito de preencher com vento os espaços onde os gestos reais deveriam caber.
O resultado? Dona Rita foi internada numa quinta-feira. Só fiquei sabendo quando o nome dela apareceu na lista de oração do culto de sábado. Fui visitá-la no hospital no dia seguinte. Tarde, né? Cheguei como quem aparece depois que o incêndio já acabou, só para revirar as cinzas. Ela estava totalmente lúcida. Me reconheceu na hora e abriu aquele sorriso generoso, bem próprio de quem nunca cobra o que o mundo lhe deve. Não deu um pio sobre o meu sumiço nas semanas anteriores. E eu, engolindo seco, também não toquei no assunto.
Mas, ó, entre nós dois, naquele quarto de hospital com cheiro de desinfetante, estendeu-se o silêncio pesado e cirúrgico das coisas que deveriam ter sido feitas no tempo certo e não foram. O teólogo Edward Heppenstall escreveu uma frase que virou uma espécie de sombra na minha mente desde o dia em que bati o olho nela: "Dar dinheiro à igreja como substituto do cuidado pelo povo é negação daquilo que significa ser cristão." Forte, né? E veja bem, não é um ataque ao dízimo ou às ofertas. É uma crítica à nossa mania de terceirizar o amor. É o puxão de orelha naquele gesto financeiro que a gente faz para limpar a barra com a consciência, saindo com a falsa sensação de "missão cumprida" quando, na verdade, não movemos um dedo pelo outro.
Olhando para trás, eu estava com o meu envelope de assistência social da congregação rigorosamente em dia naquele mês. Enquanto isso, a Dona Rita enfrentava a solidão e a doença a três quarteirões de distância de onde eu passava apressado, olhando para o próprio umbigo.
O apóstolo Tiago é curto e grosso sobre isso — sem firulas, sem passar pano: "Saber o que deve ser feito e não fazer é pecado." Essa frase não é um sermão para o vizinho; é um espelho retrovisor apontado direto para a nossa cara. E o espelho, quando não usa filtro, joga na nossa cara o rosto real que temos, e não a caricatura de santo que gostaríamos de ostentar.
Olha, não entenda esta crônica como um sermão de púlpito ou um convite para você ser voluntário em algum lugar. Isso aqui é um desabafo, é confissão pura. A verdade nua e crua é que eu fechei os olhos para a Dona Rita. Eu vi o sinal de alerta e escolhi mudar de canal — com aquela cumplicidade covarde de quem tem "mais o que fazer" e estabelece uma linha limite bem conveniente para não se arrastar para dentro dos problemas alheios.
Essa nossa linha de corte é humana, eu sei. É supercompreensível na correria do dia a dia. Mas, é exatamente nessa brecha, nessa margem de segurança que a gente cria, que o pecado de omissão faz o seu ninho. O cuidado que vai além do bolso não tem nada de heroico. Não exige que ninguém vire mártir ou faça sacrifícios de outro mundo. Ele só pede uma coisa simples: que quando a gente enxergar a dor do outro, não finja que está olhando para a paisagem. Pede que, quando a gente souber que alguém precisa de nós, não crie uma agenda ou um comitê para resolver o que grita para ser feito agora.
Dona Rita venceu aquela batalha e recebeu alta depois de duas semanas. Voltou para o seu quartinho solitário. A partir dali, passei a bater na porta dela toda quinta-feira. Foi tarde? Foi, não nego. Mas, eu fui. E foi tomando aquele cafezinho passado com ela que eu aprendi, de uma vez por todas, que o sagrado não mora dentro de envelopes de contribuição. O divino mora mesmo é nos três quarteirões que você escolhe caminhar — ou decide ignorar — numa terça-feira qualquer.


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