ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (15): Dízimos para quem?
Ele ficou parado diante da caixinha de ofertas, segurando o envelope com uma expressão que, naquele instante, eu não soube decifrar. Havia quase quarenta anos condensados naquele gesto. Todo sábado, sem falhar, sem reclamar, sem sequer cogitar outra possibilidade. Era um hábito tão antigo quanto a própria fé. Mas, naquela manhã, alguma coisa tinha mudado. Não era revolta. Não era amargura. Era apenas uma pergunta que crescera devagar, em silêncio, até ficar grande demais para continuar presa dentro de um envelope.
Depois do culto, ele me chamou de lado e perguntou, com a voz tímida de quem quase pede desculpas por pensar: — "Para quem vai esse dinheiro, afinal?" Não era uma pergunta simples. Era daquelas perguntas que puxam outras atrás de si, como um fio solto no novelo. Você puxa um pouquinho e, quando percebe, está desmanchando o suéter inteiro.
Resolvi responder do único lugar que considero seguro quando o assunto é fé: a história. O dízimo surgiu para sustentar uma estrutura muito específica. Sacerdotes, levitas, servidores do templo, manutenção do culto, assistência aos necessitados e toda a engrenagem que girava em torno da Tenda da Reunião e, posteriormente, do templo. Havia destinatários definidos, funções estabelecidas e um contexto que não pode ser ignorado. Em Israel, religião e governo caminhavam juntos. Por isso, o dízimo funcionava, ao mesmo tempo, como oferta religiosa e tributo nacional. Era entregue a pessoas reais, ocupantes de cargos igualmente reais, dentro de um sistema claramente identificado.
Então Jesus entrou em cena. E aqui encontramos um daqueles silêncios que raramente aparecem nos sermões ou nos telões das igrejas: não existe um único registro de Jesus pagando dízimo. Nenhum. O mesmo Jesus que redefiniu o significado do templo, expulsou cambistas, confrontou líderes religiosos e anunciou uma nova aliança não deixou qualquer relato de contribuição ao sistema sacerdotal por meio do dízimo. O que ele deixou foram perguntas. E perguntas, às vezes, incomodam mais do que respostas.
Quando tentaram cobrar dele a didracma — a taxa destinada ao templo — sua resposta foi curiosa, quase como a de alguém que cede por prudência circunstancial, não por obrigação moral. Já diante da prática do "Corbã", o mecanismo que permitia dedicar bens a Deus para escapar da responsabilidade de cuidar dos próprios pais, sua reação foi completamente diferente. Sem rodeios, chamou aquilo de hipocrisia. Citou Isaías. Expôs a incoerência religiosa com a precisão de um bisturi. A lição era clara: uma oferta que sacrifica o dever para com a família não é devoção. É apenas uma desculpa revestida de linguagem sagrada.
Anos depois, o autor de Hebreus levou essa discussão às últimas consequências. O antigo sacerdócio não estava passando por uma atualização nem por uma reforma administrativa. Seu papel havia chegado ao fim. Cristo tornara-se, de uma vez por todas, o único sumo sacerdote necessário. Sem sucessores. Sem uma nova linhagem sacerdotal. Sem uma estrutura que exigisse sustentação por meio de tributos religiosos.
Então veio o ano 70 d.C. Com a destruição de Jerusalém pelos romanos, o templo desapareceu. Os sacerdotes perderam sua função. Os levitas perderam seu serviço. E o dízimo perdeu seu destinatário original. Esse detalhe costuma passar despercebido, mas é difícil ignorá-lo: nenhuma denominação cristã possui levitas. Nenhuma possui o tabernáculo. Nenhuma possui o sistema sacerdotal descrito na Lei de Moisés. Tampouco existe um reino teocrático israelita aguardando a décima parte das colheitas para manter sua estrutura funcionando.
Em outras palavras, o sistema para o qual o dízimo foi instituído simplesmente não existe mais. O homem do envelope ouviu tudo em silêncio. Quando terminei, ele olhou para o papel que ainda segurava. Aquele envelope branco, discreto, com o valor anotado a lápis num dos cantos. Ficou observando-o por alguns segundos, como quem vê um objeto antigo pela primeira vez.
Não sei o que ele decidiu fazer. Foi embora sem explicar nada. Mas, a pergunta permaneceu ali, suspensa entre nós, sem pressa, sem respostas prontas e sem a necessidade de ser abafada:
Dízimos para quem?
CiFA
— Claudeci Ferreira de Andrade, da cidade onde as perguntas finalmente encontram coragem para sair do envelope.
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