ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (37): A Dualidade do Trabalho Religioso.
Havia dois pastores na cidade onde cresci. Moravam a menos de dez quarteirões um do outro. Se alguém observasse apenas o mapa, diria que eram vizinhos. Mas, a verdade é que habitavam universos completamente diferentes. O primeiro — vou chamá-lo de Pastor Renato — liderava uma congregação de porte médio numa das ruas mais movimentadas da cidade. Era um homem educado, bem-apessoado, sempre impecável. Chegava de carro novo, saía de carro novo, e entre uma coisa e outra administrava uma engrenagem que, na adolescência, eu ainda não sabia nomear, mas já conseguia perceber.
Era uma pressão constante. Quase invisível. Daquelas que não aparecem nos sermões, mas circulam pelos corredores. Ninguém dizia abertamente que o dízimo era obrigatório para o pertencimento. Ninguém precisava dizer. Certas mensagens aprendem a caminhar sozinhas. Quem contribuía era visto. Quem não contribuía também. As portas continuavam abertas para todos, é verdade. Mas, aos poucos, alguns percebiam que a distância entre a entrada e as cadeiras da frente parecia maior para determinados membros do que para outros.
Nada explícito. Nada registrável em ata. Apenas aquele tipo de clima que se instala quando uma prática deixa de ser espontânea e passa a ser esperada. O segundo pastor era diferente. Vou chamá-lo de Pastor Nério. De segunda a sexta-feira, trabalhava como técnico em manutenção elétrica. Subia escadas, trocava fiações, resolvia problemas que ninguém percebe até a energia acabar. Aos fins de semana, reunia um pequeno grupo numa sala simples nos fundos da própria casa. Não havia placas. Não havia secretaria. Não havia cofre. Não havia envelopes numerados. O café era servido na mesma mesa onde a Bíblia era aberta.
E, quando alguém insistia em contribuir com alguma coisa, Nério raramente aceitava para si ou para o grupo. Normalmente perguntava quem estava precisando de ajuda naquele momento e direcionava a oferta para uma família do bairro. Sempre mencionava o nome da família. Nunca o nome da igreja. Lembro-me de ter perguntado, certa vez, por que ele não vivia do ministério como tantos outros pastores. A resposta veio sem hesitação: — "Porque quem paga meu salário decide o que eu posso dizer." Na época, achei a frase dura. Hoje acho que ela era apenas honesta. Ela me acompanha há décadas.
Volta e meia reaparece na memória, especialmente quando surge aquela pergunta que quase ninguém gosta de fazer em voz alta dentro dos ambientes religiosos: Receber dízimos para sustentar o trabalho ministerial seria, em si, um método desonesto? A resposta, para mim, continua sendo não. Mas, a pergunta certa talvez seja outra. O problema não está necessariamente no sustento. Está na dependência.
Existe uma diferença profunda entre vocação e profissão, embora as duas frequentemente usem a mesma linguagem. A vocação nasce de um chamado. A profissão nasce de uma necessidade de subsistência. Uma pode existir ao lado da outra, sem dúvida. O problema surge quando deixam de ser distinguidas. Profissões possuem contratos, metas, avaliações e expectativas. Quem exerce uma profissão aprende rapidamente que determinadas falas têm consequências financeiras.
A vocação, por sua vez, responde a outro tipo de autoridade. Ela precisa ser livre para dizer o que precisa ser dito, mesmo quando isso desagrada quem escuta. Quando uma atividade religiosa assume toda a estrutura de uma profissão, mas continua se apresentando apenas como vocação, algo começa a se deslocar silenciosamente. E, muitas vezes, é justamente aí que nasce a tensão.
Com o passar dos anos, percebi que o problema nunca foi o pastor sustentado pela comunidade. Comunidades saudáveis sustentam professores, missionários, cuidadores, líderes e toda sorte de pessoas dedicadas ao serviço coletivo. Não há nada de errado nisso. O problema surge quando o sustento se transforma em mecanismo de controle. Quando a liberdade da mensagem passa a depender da aprovação de quem financia a estrutura.
Quando o pregador começa a calcular não apenas o que é verdadeiro, mas também o impacto que determinada verdade terá sobre a arrecadação do próximo mês. Talvez fosse isso que acontecia com Pastor Renato. Não o considero um homem mau. Pelo contrário. Sempre me pareceu um homem sinceramente comprometido com aquilo que fazia. Mas, também me parecia preso. Preso ao cargo. Preso às expectativas. Preso ao padrão de vida que a própria estrutura ajudava a sustentar. E toda prisão, por mais confortável que seja, cobra um preço.
Pastor Nério era diferente. Não porque fosse mais santo. Não porque possuísse uma espiritualidade superior. Mas, porque era livre. Se alguém se ofendesse com suas palavras, ele continuaria consertando painéis elétricos na segunda-feira. Se metade do grupo desaparecesse, sua subsistência permaneceria intacta. Sua sobrevivência não dependia da aprovação dos ouvintes. E talvez seja justamente por isso que suas palavras pareciam tão confiáveis. Elas não precisavam agradar para sobreviver. A vocação genuína sempre custou alguma coisa a quem a exerceu.
Paulo costurava tendas. Nério consertava fios. O eletricista da garagem comprava café e pão com o dinheiro que tentavam lhe entregar. Nenhum deles (Paulo e Nério) parecia interessado em construir uma teologia elaborada para justificar a própria conduta. Tinham algo mais simples. E infinitamente mais raro. Tinham independência. A liberdade silenciosa de quem não precisa negociar a própria consciência. A liberdade de quem não deve o próximo sermão a ninguém.
E talvez seja exatamente essa liberdade — não a pobreza em si, nem a renúncia transformada em espetáculo, mas a independência moral que ela pode produzir — que transforma uma atividade religiosa em vocação verdadeira. O resto? O resto é emprego com versículo.
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