ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (2): A Busca pela Verdade e a Liberdade Espiritual.
Eu tinha dezesseis anos quando, pela primeira vez, tentaram me convencer de que pensar era perigoso. Claro, ninguém disse isso de maneira tão direta. Religiões que aprisionam quase nunca são honestas a esse ponto. Foi durante uma reunião de jovens, numa sala de paredes amarelas já desbotadas pelo tempo e um ventilador barulhento que parecia lutar sozinho contra o calor. Lembro do suor escorrendo nas costas, das cadeiras desconfortáveis e da sensação estranha de que todo mundo ali aprendia mais a obedecer do que a compreender.
Então levantei a mão. Perguntei por que certos livros eram proibidos para nós. O líder me olhou daquele jeito difícil de esquecer — um olhar que misturava pena, reprovação e uma ameaça silenciosa. Depois abriu um sorriso desses treinados, sem alma nenhuma, e respondeu: — "Quem busca fora do rebanho já está perdido." Abaixei a mão. Mas, cá entre nós, alguma coisa dentro de mim se recusou a abaixar junto.
Demorei anos para entender o peso daquele instante. Hoje percebo: era o som invisível das correntes. Correntes que não prendiam os pés, mas a consciência. E talvez fossem ainda mais perigosas por isso. Eram tão reais quanto o ventilador girando no teto, quanto o calor sufocante daquela sala, quanto o silêncio dos outros jovens que, sem dizer palavra, pareciam já saber a lição principal dali: questionar era pecado.
E o mais assustador é que ninguém precisava gritar. O medo fazia o trabalho sozinho. Mas, a vida tem dessas ironias bonitas. A resposta que mudou tudo não veio num congresso lotado, nem num culto iluminado por telões e fumaça de palco. Não veio da boca de nenhum pregador famoso. Veio do silêncio.
Sozinho, diante de uma Bíblia de capa surrada, encontrei Jesus dizendo exatamente o contrário daquilo que tinham me ensinado a aceitar sem pensar: "Conhecerão a verdade, e a verdade libertará vocês" (Jo 8:31-32). Li de novo. Depois uma terceira vez. Confesso que procurei a armadilha escondida nas palavras. Achei que em algum ponto viria a cobrança, a ameaça ou o medo. Mas não havia nada disso.
A verdade liberta. Não aprisiona. Não sufoca. Não manda calar quem pergunta. Foi aí que comecei a perceber que a ausência de liberdade de consciência talvez seja um dos traços mais evidentes das religiões falsas — e, ao mesmo tempo, o mais difícil de enxergar quando se está lá dentro. Porque uma gaiola bem decorada ainda parece lar para quem nasceu nela.
Conheci pessoas que deixaram essas estruturas carregando culpa nos ossos, como se tivessem abandonado Deus, quando na verdade apenas decidiram parar de obedecer cegamente aos homens. Conheço outras que permaneceram. Não por fé. Por medo. Medo do lado de fora. Medo de pensar sozinho. Medo de descobrir que a própria consciência também pode ser um território sagrado. E, sinceramente? Esse medo talvez seja a teologia mais eficiente já criada. Não precisa convencer pela verdade — basta convencer de que sair é pior.
Não escrevo estas palavras para convocar rebeliões nem colecionar seguidores. Escrevo porque naquela sala de paredes amarelas existiam outros jovens além de mim. Alguns abaixaram a mão junto comigo naquele dia. E talvez, quem sabe, ainda estejam esperando autorização para levantá-la de novo. Mas, a verdade nunca precisou de permissão. Ela só precisa de coragem. E coragem... ah, essa ninguém consegue cobrar no dízimo.
(CiFA)
— Claudeci Ferreira de Andrade
"Cidade de repouso para quem cansou de fingir que não pensa."


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