ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (41): Comete Pecado Quem não Paga Dízimos?
Havia um homem na minha congregação a quem vou chamar de Irmão Tobias. Toda semana, sem exceção, ele se levantava durante o momento da coleta com uma pontualidade quase litúrgica. Caminhava até a frente com passos calculados, depositava o envelope com uma solenidade que transformava um gesto simples em espetáculo e retornava ao banco exibindo aquela expressão discreta — mas perfeitamente visível — de quem acabara de cumprir um dever sagrado.
Tobias nunca deixava o dízimo atrasar. Por outro lado, jamais visitava os enfermos. Nunca permanecia após o culto para ajudar a guardar as cadeiras. Nunca oferecia carona a quem precisava, nem levava alimento a quem passava necessidade. Palavras de consolo até existiam, mas quase sempre quando havia plateia para ouvi-las.
Ainda assim, o envelope estava sempre em dia. Durante muito tempo me perguntei — sem coragem de verbalizar a questão — se Tobias era fiel a Deus ou apenas a uma imagem de si mesmo que dependia constantemente do olhar alheio para continuar existindo.
A pergunta do título está entre as mais honestas que alguém pode fazer dentro de uma igreja. Talvez justamente por isso seja uma das menos formuladas. Afinal, respostas sinceras costumam balançar estruturas que preferem permanecer intocadas.
Paulo respondeu a essa questão não apenas com palavras, mas com a própria vida. Em I Coríntios 9:12, ele escreve com uma clareza que continua desconfortável séculos depois: "Mas nós não usamos deste direito; antes suportamos tudo, para não pormos impedimento algum ao evangelho de Cristo."
Existe nesse versículo um detalhe filologicamente revelador que passa despercebido para muita gente. Os verbos aparecem na primeira pessoa do plural: usamos, suportamos. Paulo não está relatando uma decisão individual; está falando em nome dos apóstolos como grupo. A renúncia não foi isolada. Era uma compreensão compartilhada. Coletivamente, eles entenderam que reivindicar determinados direitos materiais poderia criar barreiras desnecessárias à mensagem que anunciavam.
Se deixar de pagar o dízimo fosse pecado, seria razoável esperar que Paulo o exigisse. Não por interesse financeiro, mas por responsabilidade pastoral. Afinal, um líder que permite que seus liderados permaneçam em pecado sem advertência não estaria sendo misericordioso, mas negligente.
Entretanto, Paulo não exigiu. Em vez disso, costurou tendas. Essa simples imagem fala mais alto que muitos sermões. Imagine, por um instante, um cristão do primeiro século. Vou chamá-lo de Simão. Numa manhã qualquer, ele acorda cedo, separa cuidadosamente a décima parte do que ganhou naquela semana, embrulha as moedas num pano e segue até o lugar onde Paulo está ensinando. Quando chega, estende o pano em direção ao apóstolo.
Paulo observa as moedas. Depois olha para Simão. Talvez sorria com aquela gentileza que os textos sugerem, embora nunca descrevam diretamente. — Guarda isso — diz. — Dá para quem precisar no caminho de volta. Simão permanece imóvel por alguns segundos. Não entende. Espera uma explicação. Talvez uma doutrina. Talvez uma orientação detalhada sobre quando dar, quanto dar e a quem dar.
Mas, Paulo já voltou ao trabalho. Então Simão regressa para casa com as moedas ainda no pano e uma pergunta martelando a consciência: Fui embora pecador? A resposta que emerge de I Coríntios é não. Mas, essa é uma resposta cara para quem a pronuncia com honestidade. Porque, quando levada às últimas consequências, ela dissolve a culpa que frequentemente sustenta determinados sistemas religiosos.
No fundo, o problema de Tobias nunca foi financeiro. Era motivacional. O que o movia não era a fé, mas a audiência. E a audiência, como qualquer observador sincero da natureza humana reconhece, é uma das necessidades mais facilmente alimentadas pela religião organizada — e também uma das mais perigosas quando passa a ser confundida com devoção.
Por isso, a discussão sobre o dízimo talvez não seja, em primeiro lugar, uma questão moral, mas uma questão de motivação. A pergunta decisiva não é: você pagou? A pergunta decisiva é: por que você paga? E responder a isso exige uma coragem rara, porque obriga a abrir não apenas o envelope, mas também o coração. Existem atos de generosidade que nascem do amor. Existem outros que nascem da necessidade de serem vistos. Na fila da coleta, ambos parecem exatamente iguais.
Mas, aparência e essência raramente caminham de mãos dadas. Só Deus — e talvez o próprio doador em seus momentos de maior honestidade — conhece a diferença.
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