ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (39) O Peso das Malas: Além das Sacolas e Bordões.
Era uma tarde tranquila, dessas em que o sol parece ficar indeciso entre aparecer e se esconder atrás das nuvens. Eu caminhava sem pressa pelas ruas da cidade, mais para organizar os pensamentos do que para chegar a algum destino. Há dias assim: os pés seguem pela calçada, mas quem realmente está em movimento é a mente.
Foi numa dessas esquinas aparentemente comuns que vi a placa. Ela estava afixada na fachada de um prédio recém-reformado, ao lado de um estacionamento quase vazio. Letras douradas anunciavam um novo centro ministerial. O nome era imponente. O edifício também. Vidros espelhados, recepção climatizada, salas administrativas distribuídas em dois andares e uma arquitetura pensada para impressionar antes mesmo de acolher.
Enquanto observava a construção, um senhor que varria a calçada percebeu meu interesse e comentou, sem que eu dissesse uma palavra: — Isso aí começou pequeno. Hoje emprega mais gente do que muita empresa daqui. Falou com a naturalidade de quem apenas descreve o tempo ou o trânsito. Depois voltou ao seu trabalho, empurrando a vassoura de um lado para o outro como se nada tivesse dito.
Mas, tinha dito. E a frase ficou comigo. Emprega mais gente do que muita empresa daqui. Continuei andando, mas ela seguiu ao meu lado. E foi então que me lembrei das instruções de Jesus aos discípulos. Quanto mais eu pensava naquelas palavras, mais o contraste ganhava contornos nítidos. Jesus enviou os doze. Depois enviou os setenta. E, em ambos os casos, apontou para a mesma direção. Sem excessos. Sem acúmulos. Sem garantias materiais. Sem dinheiro para impressionar. Sem bagagens desnecessárias. Sem a preocupação de transformar a missão numa estrutura pesada demais para ser carregada.
Era como se o Mestre retirasse, um a um, todos os acessórios que pudessem competir com a essência da mensagem. Não levem sacolas. Não carreguem roupas extras. Não acumulem o que não será necessário. Confiem no caminho. Confiem em Deus. Confiem nas pessoas que encontrarem pelo percurso. Há algo de profundamente belo — e também profundamente desconfortável — nessa simplicidade. Porque ela nos obriga a admitir que Jesus não estava formando administradores de patrimônio religioso. Estava formando mensageiros.
A missão não consistia em construir impérios. Consistia em encontrar pessoas. Talvez seja justamente aí que, em algum ponto da história, tenhamos nos distraído. Jesus falava sobre casas. Nós passamos a sonhar com complexos. Jesus falava sobre mesas compartilhadas. Nós aprendemos a admirar estruturas. Jesus enviava homens para criar vínculos. Nós nos especializamos em criar departamentos.
Quanto mais releio os Evangelhos, mais me impressiona o fato de que a expansão inicial do cristianismo aconteceu ao redor de lares, refeições e relacionamentos. A fé crescia de porta em porta, de família em família, de coração em coração. Não havia placas douradas. Não havia centros administrativos. Não havia campanhas de expansão patrimonial. Havia gente. Gente acolhendo gente. E isso bastava. Ninguém parecia preocupado em construir monumentos para perpetuar o próprio nome. A urgência era outra: levar esperança antes que a noite chegasse.
Foi então que a imagem da placa voltou à minha memória. E, junto com ela, a frase do homem da vassoura. Emprega mais gente do que muita empresa daqui. Não me entenda mal. Não há nada de errado em organizar atividades, administrar recursos ou sustentar pessoas dedicadas ao serviço religioso. Toda comunidade precisa de alguma estrutura para funcionar. O problema começa quando a estrutura deixa de servir à missão e passa a exigir que a missão sirva a ela.
Quando a obra de Deus se transforma num cabide de empregos. Essa imagem me acompanha porque é simples e devastadora. Um cabide existe para sustentar aquilo que foi pendurado nele. Mas, o Evangelho nunca foi chamado para pendurar pessoas. Foi chamado para libertá-las. Quando uma instituição passa a depender da própria expansão para manter cargos, salários, departamentos e interesses internos, nasce uma tentação silenciosa: proteger a estrutura acima da mensagem.
E essa tentação quase nunca chega com cara de perigo. Chega vestida de prudência. De planejamento. De crescimento. De visão estratégica. De metas. De relatórios. De números que precisam continuar subindo. E, quando nos damos conta, já não estamos carregando apenas a mensagem. Estamos carregando malas. Malas cheias de responsabilidades que o Evangelho nunca pediu. Malas cheias de preocupações que Jesus mandou deixar pelo caminho. Malas tão pesadas que, aos poucos, fazem a missão perder o passo.
Talvez seja por isso que Jesus insistiu tanto na leveza. Os discípulos não deveriam levar dinheiro. Nem sacolas. Nem calçados extras. Não porque a pobreza possuísse alguma virtude mística, como se a escassez fosse santa por si só. Mas, porque toda bagagem desnecessária cobra seu preço. Quanto mais pesada a carga, mais lenta a caminhada. Quanto mais coisas precisamos proteger, menos liberdade temos para obedecer. Quanto maior a estrutura, maior a tentação de servi-la. A simplicidade, afinal, não era apenas um detalhe do método. Era parte da própria mensagem.
Quando terminei minha caminhada naquela tarde, a placa dourada já havia ficado para trás. Mas, a pergunta continuou comigo. E continua até hoje. O que estamos construindo? Lares ou estruturas? Discípulos ou dependências? Pontes ou patrimônios? Jesus enviou homens sem dinheiro, sem sacolas e sem calçados extras. Nós, muitas vezes, parecemos convencidos de que precisamos exatamente dessas coisas para realizar a mesma obra.
Talvez esteja aí a ironia. Passamos tanto tempo acumulando recursos para cumprir a missão que corremos o risco de esquecer a missão por causa dos recursos. Por isso, de vez em quando, vale a pena voltar ao caminho. Voltar à poeira da estrada. Voltar às casas. Voltar às mesas. Voltar às pessoas. Porque o Evangelho nasceu viajando leve. E toda vez que suas malas ficam pesadas demais, ele corre o risco de esquecer para onde estava indo.


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