ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (20): Além da Lógica.
Sempre tive apego aos livros, à firmeza dos argumentos bem construídos e à sensação de segurança que a lógica oferece quando o mundo parece ameaçar desabar sobre a cabeça da gente. Durante mais de trinta anos, usei o intelecto como uma espécie de armadura. Acreditei que a verdade era um enigma matemático, daqueles que se rendem apenas à persistência da mente e ao rigor da análise. Ao meu redor, enxergava os riscos da renúncia à razão: multidões conduzidas por discursos cuidadosamente ensaiados, a fé transformada em cabresto e a submissão cega produzindo seus convenientes milagres de ocasião. Eu me refugiava na lucidez. Com a ponta do lápis, desmontava argumentos frágeis e desfazia, um a um, os ecos do engano.
Mas, a lógica, descobri com o passar do tempo, tem o teto mais baixo do que imaginamos. Ela organiza os cômodos da alma, coloca os móveis no lugar, abre as janelas para a ventilação do pensamento. Porém, há incêndios que nenhuma explicação consegue apagar. Há dores que não se curvam diante dos silogismos. Há perguntas que sobrevivem mesmo depois que todas as respostas parecem ter sido dadas.
Lembro-me do instante exato em que essa armadura começou a pesar mais do que proteger. Era uma terça-feira comum. Dessas que passam despercebidas na agenda, mas permanecem gravadas na memória. O fim da tarde trazia um vento frio que batia na janela da cozinha, espalhando um silêncio estranho pela casa. Eu estava sentado à mesa, diante de uma xícara de café já esquecida pelo tempo e de um caderno aberto, repleto de anotações que tentavam explicar aquilo que, no fundo, eu não conseguia traduzir. Eram páginas e mais páginas de raciocínios, argumentos e reflexões que buscavam justificar meus vazios interiores.
O corpo carregava o cansaço acumulado de quem procura respostas dentro das próprias certezas. E foi então que parei. Desviei os olhos das páginas e observei minhas mãos repousadas sobre a madeira da mesa. Mãos ásperas do giz, marcadas pelos anos de ensino, de escrita, de busca. Pela primeira vez em muito tempo, não procurei uma conclusão. Apenas permaneci ali, em silêncio.
Foi naquele instante simples, quase invisível, que compreendi algo que os livros nunca haviam conseguido me ensinar por completo. O cristianismo original — aquele que transforma sem violentar, que restaura sem escravizar e devolve ao homem a dignidade perdida — não nasce em tribunais acadêmicos nem nos debates inflamados de quem está mais interessado em vencer do que em compreender. Houve dentro de mim uma espécie de estalo silencioso, um esvaziamento das pretensões intelectuais. Não era uma rejeição ao pensamento crítico. Muito pelo contrário. Ele continua sendo meu farol contra os mercadores da fé, os vendedores de certezas prontas e os fabricantes de dependência espiritual.
O que mudou foi outra coisa. Percebi que existe um limite além do qual a linguagem humana perde o fôlego. Um ponto em que os conceitos já não alcançam aquilo que a alma experimenta. Como um viajante que chega ao fim da estrada pavimentada e, dali em diante, precisa continuar por uma trilha que não pode ser cartografada.
A verdadeira transformação não é submissão ao dogma. Na verdade, é justamente o contrário. Ela acontece quando a mente deixa de lutar para controlar tudo e encontra descanso suficiente para ouvir o que o coração tenta dizer há muito tempo. Não é a derrota da razão, mas sua maturidade. É quando ela reconhece que nem toda verdade cabe dentro de uma definição e que nem todo mistério precisa ser desmontado para ser vivido.
Recolhi as folhas espalhadas sobre a mesa e fechei o caderno. Pela janela, os últimos raios de sol douravam as folhas da imburana no quintal. O vento continuava soprando, mas já não parecia frio. Havia uma serenidade nova naquele entardecer, como se o mundo permanecesse exatamente o mesmo e, ainda assim, tudo tivesse mudado.
Então compreendi que a razão havia cumprido seu papel. Ela me trouxe até a margem do rio. Mas o passo seguinte — aquele que nos humaniza, nos transcende e nos aproxima do sagrado — exigia outra espécie de coragem: a coragem de quem contempla a imensidão das águas e, sem abandonar a lucidez, aceita que nem tudo pode ser medido antes de atravessar.
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