ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (63): O Despertar da Fé: Uma Jornada Perigosa.
Era uma manhã de domingo, daquelas em que o sol parece ter acordado cedo demais e a cidade ainda boceja, tentando juntar os pedaços da própria sonolência. A brisa carregava o cheiro familiar do café recém-passado misturado ao asfalto já aquecido, e eu caminhava sem pressa por uma rua que, naquele curto trecho de talvez trezentos metros, reunia cinco igrejas evangélicas. Cinco. Cada uma ostentando sua fachada colorida, seus banners de promessas estampadas em letras garrafais e suas caixas de som posicionadas com a urgência de quem acredita que não há tempo a perder.
Entrei na primeira. Cadeiras de plástico branco alinhadas em fileiras perfeitas, como num velório sem morto. Um telão projetava a letra dos cânticos numa fonte tão exagerada que não consigo chamá-la de outra coisa senão gritante. O pastor — terno escuro, camisa sem gravata e um microfone sem fio preso à orelha como se fosse um executivo de telemarketing do Espírito Santo — falava sobre bênçãos financeiras com a desenvoltura de quem parecia conhecer o assunto menos pela teologia do que pela prática. A congregação respondia com palmas nos momentos exatos, obedecendo a uma cadência quase automática. Como uma plateia ensaiada. Talvez estivesse.
Na segunda igreja, uma mulher de olhos fechados balançava a cabeça devagar, muito devagar, como quem escuta uma música que só ela é capaz de ouvir. Na terceira, um rapaz de uns dezoito anos distribuía folhetos na porta com o sorriso aberto e desarmado de quem acredita de verdade — e, por alguma razão difícil de explicar, esse era o detalhe mais perturbador de todos. Na quarta, a porta permanecia fechada, mas o som escapava pelas frestas com a intimidade das coisas que desconhecem fronteiras.
Na quinta, sentei. Fiquei até o final. Ouvi o sermão. Ouvi o apelo. Ouvi o silêncio constrangido daqueles que permaneceram imóveis quando o pastor pediu que se levantassem "os que ainda não entregaram o coração". E, enquanto observava aquela cena, pensei nas dissidências filosóficas do século XVI. Pensei em Lutero, Calvino, nos Anabatistas — homens que raciocinaram até sangrar antes de ousar pregar uma única palavra. Homens que enfrentaram impérios, desafiaram tradições e pagaram caro pelas próprias convicções. Então, inevitavelmente, pensei também no curso por correspondência a oitenta reais.
Depois disso, por razões que ainda tento organizar dentro de mim, fui parar na IASD. Permaneci ali por um tempo. Saí com mais perguntas do que havia levado — e talvez essa seja a única consequência realmente honesta que uma experiência religiosa possa produzir. Afinal, respostas definitivas costumam tranquilizar; perguntas sinceras, por outro lado, obrigam a pensar.
Não sei o que seja a fé verdadeira. Talvez ninguém saiba com absoluta certeza. Mas, sei o que vi naquela rua de domingo: cinco portas abertas, muita pressa e muito entusiasmo. E, no meio de tudo isso, pouca coisa que não pudesse ser explicada por uma boa análise de mercado.
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