ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (34): A Compra da Salvação: O Papel do Dízimo na Igreja.
Há uma frase num manual eclesiástico que não me sai da cabeça. Não vou guardá-la para o final. Algumas frases perdem força quando são transformadas em suspense. Esta merece aparecer logo de início, sob a luz do dia, para ser lida sem pressa e sem a influência de qualquer argumento que venha depois. Ela está nas páginas 200 e 201 do manual da Igreja Adventista do Sétimo Dia — instituição que conheço por dentro, da qual fiz parte durante anos e da qual me afastei justamente porque aprendi a ler com mais atenção: "Nenhum membro deve ser excluído do rol da igreja por incapacidade de contribuir financeiramente para qualquer uma das causas da igreja, ou por deixar de fazê-lo."
Leia outra vez. Devagar. O texto garante que ninguém será excluído por deixar de pagar o dízimo. À primeira vista, parece uma declaração generosa, quase irretocável. O problema está no que ela não diz naquele momento, embora o próprio manual diga em outras páginas, com a mesma naturalidade burocrática: qualquer pessoa que ocupe um cargo de liderança e não esteja em conformidade com a prática do dízimo deve ser removida da função. Não excluída. Apenas destituída.
A distinção é elegante. Formalmente impecável. E talvez seja justamente esse o problema. Porque certas contradições sobrevivem não pela força dos argumentos, mas pela sofisticação da linguagem que as encobre.
Sempre que penso nisso, lembro-me do jovem rico dos Evangelhos. Era o tipo de homem que qualquer sistema religioso gostaria de exibir como exemplo. Cumpria os mandamentos, respeitava as normas, observava os rituais. Aos olhos de qualquer comissão eclesiástica moderna, provavelmente seria considerado um membro exemplar, um colaborador confiável, talvez até um líder promissor.
Mas, Jesus olhou para ele e enxergou algo que nenhum relatório conseguiria registrar. Viu o verdadeiro centro de sua devoção. Com precisão cirúrgica, identificou o problema: aquele jovem já possuía um salvador. E não era Deus. Eram suas riquezas. Quem já encontrou um salvador substituto não busca redenção; busca apenas confirmação. Quer uma religião que abençoe seus apegos, não uma fé que os confronte. Por isso a proposta de Cristo foi tão radical: — "venda tudo, distribua aos pobres, e me siga."
Repare no destino dos recursos. Jesus não disse: deposite no fundo da associação. Não disse: fortaleça os cofres da instituição. Não disse: entregue à administração religiosa para que ela redistribua. Disse simplesmente: distribua. Diretamente. Sem intermediários. Sem tesouraria. Sem recibos. Sem estatísticas de arrecadação.
Há algo profundamente revelador nisso. Se o sistema religioso da época fosse o instrumento adequado para concretizar a justiça que Deus desejava, seria natural que Cristo o fortalecesse. Mas, Ele não o fortaleceu. Pelo contrário. Apontou para as pessoas necessitadas e encurtou o caminho entre quem tinha e quem precisava. Era um atalho para a compaixão. E talvez continue sendo.
Enquanto isso, dois mil anos depois, muitos sistemas religiosos seguem ampliando estruturas cada vez mais impressionantes, enquanto a pobreza aprende a morar confortavelmente à sombra dos seus muros. Existe uma lógica silenciosa por trás da transformação do dinheiro no principal símbolo da espiritualidade. Dinheiro pode ser contado. Pode ser registrado. Pode ser auditado. Pode ser transformado em gráficos, percentuais, metas e relatórios. O amor não. A misericórdia não. A justiça não.
Ninguém consegue produzir um comprovante de compaixão ou apresentar um extrato bancário de bondade. Talvez seja justamente por isso que o dízimo atravessou séculos praticamente intacto. Sobreviveu à Reforma, ao Iluminismo, às críticas acadêmicas e às mudanças culturais. Não necessariamente porque resolve o problema da fé, mas porque resolve um problema institucional: ele é mensurável. E tudo o que pode ser medido pode ser controlado.
A fé genuína, porém, resiste ao controle. Ela escapa das planilhas. Não cabe nos relatórios. Não se deixa reduzir a porcentagens. O jovem rico foi embora triste. O texto bíblico não explica em detalhes o motivo daquela tristeza. Mas, suspeito que ela tenha nascido do encontro com alguém que se recusou a validar seu salvador alternativo. Porque perder um ídolo dói. Mesmo quando o ídolo é feito de ouro. Talvez principalmente quando é feito de ouro.
Saí de uma denominação. Mas, não saí da fé. Na verdade, foi justamente por continuar levando a fé a sério que precisei reavaliar certas estruturas. Percebi, com o tempo, que o sistema havia desenvolvido uma gramática própria, sofisticada e cuidadosamente construída. Nela, expressões como não excluímos por inadimplência e removemos da liderança por inadimplência conseguem coexistir harmoniosamente no mesmo documento sem provocar desconforto aparente. A linguagem suaviza o impacto.
Os termos mudam. As consequências permanecem. Essa gramática não é nova. Tem um nome antigo. Jesus a conhecia muito bem. Chamava-a de hipocrisia. E a denunciava sem rodeios, sem notas de rodapé e sem pedidos de desculpas. Eu também utilizo essa palavra. Consciente do custo que ela traz. E consciente, igualmente, da convicção que a exige. Porque, se a entrada no céu depende da mediação de uma instituição, então a salvação deixa de ser graça. E, se a permanência espiritual pode ser medida pela contribuição financeira, o dízimo deixa de ser oferta. Torna-se moeda de acesso. E uma salvação que pode ser comprada já não é salvação. É comércio.


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