ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (74): As Portas Abertas da Liberdade Divina.
O Marcus não era crente. Faço questão de dizer isso logo de saída, porque esse detalhe muda completamente a forma como esta história deve ser lida. Trabalhávamos no mesmo andar de um escritório que tinha cheiro permanente de carpete envelhecido e café de máquina. Ele chegava cedo, saía tarde e quase sempre almoçava diante do computador — o tipo de dedicação que muitas empresas chamam de compromisso, quando, na verdade, aprenderam apenas a transformar entrega em política corporativa. Nos poucos intervalos que se permitia, lia. Nunca livros de autoajuda nem literatura religiosa. Preferia romances, história, filosofia, poesia. Um dia o encontrei mergulhado em um volume de Manuel Bandeira. Noutra ocasião, carregava um ensaio sobre o Iluminismo debaixo do braço.
Marcus não era um homem de igreja. Era um homem de biblioteca. E, dependendo da lente com que se olha para a vida, talvez essas duas estradas conduzam, cada uma a seu modo, à mesma busca.
Nossas conversas eram daquelas que permanecem ecoando muito depois do último cumprimento. Ele fazia perguntas que continuavam me acompanhando por dias, obrigando-me a reorganizar certezas que eu imaginava sólidas. Eu também o provocava com algumas questões, e ele as recebia com a elegância de quem sabe discordar sem diminuir ninguém. Seu sorriso jamais transmitia desprezo; revelava apenas a serenidade de quem enxergava o mundo por outra perspectiva. Certa vez, depois de uma dessas conversas, ele disse algo que nunca mais saiu da minha memória: — "Eu não preciso de salvação. Preciso de sentido. São coisas parecidas, mas não são a mesma." Passei semanas ruminando essa distinção.
Quando se tem fé, existe uma tentação quase automática de olhar para alguém como Marcus e concluir que ele está perdido; de imaginá-lo vivendo na Babilônia, para usar a linguagem do Apocalipse, incapaz de enxergar o que existe para além de seus próprios horizontes. Eu conheço bem essa tentação porque já a senti. Mas, ela cobra um preço alto: exige que eu ignore aquilo que meus próprios olhos testemunharam. E o que vi foi um homem íntegro, respeitoso, generoso com as pessoas ao seu redor, alguém que buscava sentido para a existência com a mesma seriedade que eu esperaria de qualquer discípulo de Cristo.
João escreveu para que não amássemos o mundo. Entretanto, o mundo ao qual ele se referia não eram as pessoas, mas um sistema de valores capaz de corromper o coração humano. Essa diferença, que a boa teologia costuma preservar com cuidado, quase sempre desaparece quando o sermão tem pressa e a necessidade de classificar as pessoas fala mais alto do que a disposição para compreendê-las.
Hoje, prefiro dizer que Marcus não está perdido. Ele apenas caminha por um território que não conheço o suficiente para emitir julgamentos. Há estradas que só fazem sentido para quem as percorre. O que posso afirmar é que, toda vez que ele perguntava, eu era obrigado a pensar mais profundamente sobre a minha própria fé.
E, sinceramente, pensar mais fundo — onde quer que isso aconteça — nunca me pareceu obra da Babilônia. Ao contrário, talvez seja justamente uma das portas pelas quais a liberdade divina encontra espaço para entrar.
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