ENSAIO TEOLÓGICO — I (1) Relativizando a Autoridade dos Textos Bíblicos
Por Claudeci Ferreira de Andrade
"Não tem jeito dos evangélicos melhorarem-se, enquanto eles piorarem o mundo para todos. Eles vão ser sempre os piores do mundo que eles pioram para os outros." — Caio Fábio.
Começo esta série de ensaios teológicos não com uma tese, mas com uma confissão. Há algo dentro de mim — talvez uma ferida, talvez um despertar, talvez ambos — que já não consegue conciliar plenamente o Deus que me ensinaram a temer com o Deus que, apesar de tudo, ainda procuro amar. É desse atrito, desse desconforto que não me larga, que nasce a pergunta que atravessará cada página desta série: que tipo de crente permanecerá de pé, íntegro e humano, quando os acontecimentos apocalípticos finalmente deixarem de ser metáfora e baterem à nossa porta?
Chamo esse personagem, provisoriamente, de vencedor. Mas, já adianto: não me refiro ao crente que mais levanta as mãos, que mais repete slogans religiosos ou que proclama sua fé aos quatro ventos. Penso naquele que encontra coragem para fazer uma pergunta muito mais difícil: em que, exatamente, eu creio? E, talvez mais importante ainda: por que eu creio?
Essa inquietação não surgiu no vácuo. Ela nasce da observação dos fariseus contemporâneos — aqueles que se veem como guardiões da verdade, fiscais da ortodoxia e sentinelas da tradição. São homens e mulheres convencidos de que defendem a Igreja, a doutrina correta, a liturgia adequada e os costumes herdados. Muitas vezes, sem perceber, desenvolvem a sensação de que ocupam uma posição privilegiada diante de Deus, como se a proximidade com o sagrado fosse um patrimônio privado a ser protegido, e não uma graça destinada a ser compartilhada.
Paradoxalmente, suspeito que sejam justamente esses os primeiros a tropeçar quando o fim chegar. Não por falta de fé, mas pelo excesso de certeza. Afinal, a dúvida costuma manter a alma desperta; a certeza absoluta, por sua vez, frequentemente a adormece. E é precisamente essa confiança inquestionada, essa autoridade revestida de caráter quase intocável, que desejo examinar aqui por meio de seu símbolo mais venerado: a Bíblia.
Para milhões de pessoas, a Escritura representa a revelação divina em sua forma mais pura. Segundo essa compreensão, Deus teria produzido, essencialmente sozinho, um livro perfeito, destinado a transmitir sua vontade soberana, seus mandamentos, suas promessas e seu plano de salvação acabado e definitivo. É uma ideia sedutora. Há nela uma simplicidade reconfortante. Contudo, justamente por ser tão confortável, talvez não seja suficiente para dar conta da complexidade da realidade.
Primeiro, porque Deus não foi o único autor da Bíblia. Ele participa dela, inspira-a, atravessa-a, mas divide espaço com uma multidão de vozes humanas. A própria Escritura reconhece isso sem constrangimento. Moisés, Davi, Isaías, Jeremias, Lucas, Paulo e tantos outros escreveram a partir de seus contextos, experiências, limitações e visões de mundo. A Bíblia não esconde suas impressões digitais humanas; ao contrário, elas estão espalhadas por todas as suas páginas.
Por isso, atribuir exclusivamente a Deus a autoria do texto bíblico é ignorar aquilo que o próprio texto revela sobre si mesmo. Como resumiu John Stott, a Bíblia não caiu do céu; ela nasceu na terra. E tudo o que nasce na terra carrega as marcas da história, da cultura, da política, da linguagem e do tempo. Longe de diminuir seu caráter sagrado, essa constatação apenas devolve a Escritura à sua condição original: a de uma obra em que o divino e o humano caminham lado a lado.
Segundo, porque o próprio Deus nunca se apresentou como um modelo de clareza absoluta. A experiência religiosa, desde as primeiras páginas da Bíblia, é atravessada por paradoxos. Deus permite o sofrimento que condena, tolera a violência que lamenta, silencia quando se espera resposta e, às vezes, responde de maneiras que levantam ainda mais perguntas.
Nas Escrituras, amor e ira frequentemente dividem o mesmo capítulo. Misericórdia e juízo respiram o mesmo ar. Presença e ausência se alternam como marés. Deus raramente explica seus caminhos; quase sempre convida seus seguidores a caminhar sem enxergar o horizonte completo. Talvez por isso sua revelação pareça menos um edifício concluído e mais um canteiro de obras permanente. Uma revelação viva, em movimento, ainda desdobrando significados diante de cada geração.
Terceiro, porque Deus jamais esteve ausente dos demais povos da antiguidade. Egípcios, babilônios, cananeus, persas, gregos e romanos também formularam perguntas profundas sobre o divino. Também buscaram sentido, transcendência, justiça e propósito. A própria Bíblia reconhece essa realidade, ora dialogando com essas culturas, ora confrontando-as, mas nunca fingindo que elas não existiam.
Transformar Deus no proprietário exclusivo de toda revelação é correr o risco de reproduzir a mesma arrogância espiritual que criticamos nos fariseus. Afinal, o apóstolo Paulo, ao falar aos habitantes de Listra, afirmou que Deus jamais deixou de testemunhar acerca de si mesmo, concedendo chuva, colheitas e sustento a todos os povos. A todos. Não apenas aos que carregavam um rótulo religioso considerado correto.
Chego, então, ao mesmo ponto de onde parti: não a uma conclusão definitiva, mas a um convite. A ideia de uma Bíblia ditada palavra por palavra, perfeita em todos os detalhes e autossuficiente para responder a qualquer questão humana, oferece uma segurança sedutora. Porém, talvez essa segurança custe caro demais. Ela simplifica o que é complexo, ignora os processos históricos que moldaram os textos e reduz a riqueza da revelação a uma fórmula pronta.
Ler a Bíblia com fé não deveria significar desligar o pensamento crítico. Reverência e reflexão não são inimigas; caminham melhor quando andam juntas. O vencedor que começo a desenhar nestes ensaios não é aquele que transforma a Escritura numa fortaleza para se esconder do mundo, mas aquele que a percorre como um peregrino atravessa um deserto: com respeito, com humildade, com perguntas sinceras e com disposição para continuar caminhando.
No fim das contas, sua confiança não repousa na rigidez de um sistema, mas em Cristo — a única revelação plenamente encarnada de um Deus que, apesar dos nossos dogmas, dos nossos medos e das nossas certezas excessivas, continua insistindo em se deixar encontrar.


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