ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (58): A Fabricação de uma Igreja.
Em 13 de janeiro de 2002, o Diário da Manhã publicou uma reportagem que nunca consegui esquecer. O título era direto ao ponto: "Como se Fabrica uma Igreja", assinada por Edmundo Morais Neto. E o que aquele texto descrevia não era a investigação de um escândalo nem a denúncia de um desvio específico. Era, antes, quase um manual de instruções. Com a neutralidade clínica do jornalismo que observa sem emitir sentença, a reportagem registrava, em detalhes, como funcionava o mercado religioso evangélico na nossa capital naquele período.
Os requisitos para tornar-se pastor, segundo o jornal, eram surpreendentemente acessíveis: disposição, alguma desenvoltura diante do público e um espaço disponível — fosse um cômodo alugado, a sala de casa ou, nos casos mais modestos, um barraco com cadeiras emprestadas. Não havia exame de teologia. Não havia período de formação. Não havia conselho de ordenação. Havia demanda. E, onde há demanda, a oferta logo encontra um jeito de aparecer.
A reportagem registrava ainda que aqueles que não conseguiam abrir filiais das denominações já estabelecidas — com suas hierarquias, seus processos seletivos e seus próprios critérios para distribuir o poder de pregar — simplesmente fundavam as suas. Era a lógica do franchising aplicada ao sagrado: se a franqueadora não abre as portas para você, cria-se a própria marca e pendura-se uma nova placa na fachada.
Depois de ler aquela matéria, passei a percorrer as ruas com outros olhos. As igrejas brotavam como cogumelos depois da chuva. E uso essa imagem não por desprezo, mas pela precisão que ela carrega: cogumelos crescem depressa, surgem onde encontram condições mínimas e, nem sempre, aquilo que cresce rápido cria raízes profundas. Nas paredes de pequenos cômodos, em letras pintadas à mão ou estampadas em faixas de lona, multiplicavam-se nomes que buscavam conciliar grandiosidade e urgência: Ministério da Fé Renovada, Tabernáculo da Graça Suprema, Centro de Avivamento e Restauração.
Quatro, cinco, seis pessoas reunidas num apartamento. À frente delas, um homem com uma Bíblia nas mãos e a convicção — ou a ambição, ou talvez as duas coisas misturadas — de que havia sido chamado. Não estou dizendo que esses homens fossem, necessariamente, desonestos. Seria injusto afirmar isso. O que digo é outra coisa: o sistema que os produziu era, em essência, o mesmo que eles criticavam nas grandes denominações. Apenas funcionava em escala reduzida, com menos recursos e muito mais improviso.
E é justamente aqui que reside o problema mais profundo, aquele que a reportagem de 2002 documentou sem talvez perceber: o modelo nunca foi questionado. Foi reproduzido. Quem não encontra espaço na instituição raramente cria uma alternativa ao modelo institucional. O mais comum é que erga uma instituição menor, carregando consigo os mesmos vícios em doses reduzidas: a centralização do poder na figura pastoral, a opacidade financeira, a lógica segundo a qual o pastor lidera e os irmãos contribuem, a ausência de prestação de contas que esta série inteira passou cinquenta e oito crônicas denunciando.
O barraco com cadeiras emprestadas não é, por definição, mais honesto do que o centro administrativo de fachada envidraçada. Às vezes, é apenas menor. A pergunta que a reportagem de Edmundo Morais Neto levantou — sem formulá-la diretamente, porque o bom jornalismo confia na inteligência do leitor e deixa que ele complete o raciocínio — continua ecoando: se qualquer pessoa com disposição e um cômodo disponível pode fabricar uma igreja, o que exatamente estamos fabricando?
Não faço essa pergunta movido pela nostalgia de uma pureza perdida, talvez até imaginária. Não idealizo um passado sem rachaduras. O que afirmo é que a multiplicação desordenada de estruturas que reproduzem os mesmos problemas, apenas em escalas diferentes, não pode ser confundida com pluralidade religiosa saudável. É o mercado funcionando. O sagrado transformado em produto. A congregação reduzida à base de clientes. E o pastor convertido em empreendedor que descobriu um nicho promissor.
A Sociedade Espiritual de Cristo que esta série descreve não tem CNPJ. Não tem nome registrado em cartório. Não exige requisitos de franchising. Tem apenas a promessa de que, onde dois ou três se reúnem por causa dele, ele estará ali. E esse ali não precisa de faixa de lona estampando um nome grandioso. Precisa apenas de pessoas reunidas pelo motivo certo. Pessoas que não confundam o motivo com o modelo. Porque, no fim das contas, talvez a pergunta decisiva nunca tenha sido quantas igrejas somos capazes de construir, mas quanta igreja ainda somos capazes de ser.
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