ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (42): Como Valorizar o Ministério Individual?
Houve uma tarde em que fui mordomo sem sequer perceber. Não planejei aquilo. Na verdade, estava saindo de uma padaria com um café na mão quando avistei um homem parado na calçada. Havia nele uma imobilidade muito particular — aquela que não nasce da falta de direção, mas do excesso de peso. Não parecia alguém perdido na cidade; parecia alguém perdido dentro de si mesmo. Devia ter uns cinquenta anos. Vestia roupa de trabalho. Os olhos vermelhos denunciavam uma dor que o cansaço sozinho não explicaria.
Parei. Até hoje não sei exatamente por quê. Talvez porque eu mesmo já tenha conhecido aquele tipo de silêncio. Talvez porque certas dores, quando já passaram pela nossa casa, tornam-se mais fáceis de reconhecer quando batem à porta de outra pessoa.
Perguntei se estava tudo bem. Ele me lançou primeiro um olhar desconfiado, como quem estranha uma gentileza fora de hora. Depois começou a falar. Não contou uma história organizada; contou fragmentos. Frases soltas. Pensamentos interrompidos. Descobri, aos poucos, que havia perdido o emprego naquela mesma manhã. Tinha família. Tinha contas. E, acima de tudo, tinha medo de chegar em casa sem saber o que dizer.
Ficamos ali por uns vinte minutos. Não lhe dei dinheiro — eu mesmo não tinha muito. Também não ofereci conselhos, porque percebi rapidamente que não era disso que ele precisava. Apenas fiquei. Ouvi. Compartilhei o silêncio quando as palavras faltaram. Ofereci o café. Primeiro ele recusou. Depois aceitou.
Quando finalmente se despediu, não agradeceu. E, para ser sincero, eu também não disse nada memorável. Mas, já em casa, enquanto revivia aquela conversa aparentemente comum, percebi algo curioso: eu havia administrado recursos que não me pertenciam. Alguns minutos do meu tempo. Um pouco da minha atenção. Um pouco da minha presença. Coisas que não aparecem em extratos bancários nem entram em relatórios financeiros, mas que circulam numa economia invisível, onde os valores mais importantes não são contados em moedas.
A palavra mordomo carrega um peso que a modernidade acabou tornando leve demais. Sua origem vem do latim maior domus — o maior da casa, aquele a quem o senhor confiava a administração de seus bens durante sua ausência. Não era apenas um servo obediente. Era alguém investido de responsabilidade. Entre servir e administrar existia uma diferença fundamental: a confiança.
Por isso, ser mordomo de Deus, no sentido mais profundo da palavra, não significa apenas cumprir obrigações religiosas ou executar tarefas eclesiásticas. Significa administrar, com sabedoria e responsabilidade, aquilo que foi colocado sob seus cuidados: seus talentos, seu tempo, sua influência, sua escuta, sua presença. Tudo isso pertence ao Senhor, mas foi confiado temporariamente às suas mãos.
E talvez aí esteja um detalhe que muita gente esquece: os bens mais preciosos que carregamos raramente são os que possuem valor monetário. Heppenstall, teólogo a quem esta série deve uma referência honesta, escreveu que quem realmente experimenta o poder de Deus não consegue permanecer espectador. Não porque seja forçado a agir, mas porque a experiência genuína com o divino produz algo parecido com uma incapacidade de permanecer indiferente. É como enxergar uma luz que, depois de vista, torna impossível voltar a fingir que a escuridão é suficiente.
Entendo perfeitamente o que ele quis dizer. Não como teoria. Como experiência. Porque alguma coisa muda dentro de nós quando paramos numa calçada para ouvir um desconhecido que provavelmente nunca mais veremos. Algo se desloca quando dedicamos vinte minutos a alguém que não pode nos retribuir, promover ou recompensar.
Isso não é altruísmo calculado. Não é estratégia missionária. Não é uma tentativa de acumular méritos espirituais. É apenas a percepção súbita de que existe uma necessidade diante de nós e de que, naquele exato momento, possuímos algo capaz de atendê-la. E, às vezes, a diferença entre uma pessoa afundar e continuar caminhando é justamente alguém decidir permanecer por perto.
O ministério individual nasce nesse terreno. Ele não possui organogramas. Não depende de reuniões administrativas. Não exige relatórios de desempenho nem envelopes numerados. O ministério individual tem cheiro de café. Tem calçadas comuns. Tem encontros que não estavam na agenda. Tem interrupções que chegam sem aviso e mudam completamente o rumo de uma tarde.
Cada um de nós administra recursos que nenhuma denominação consegue organizar ou sistematizar. Eles pertencem ao encontro inesperado, à conversa improvisada, ao abraço não programado, à escuta que surge entre um compromisso e outro. São momentos que dificilmente aparecerão nos boletins da igreja ou nos relatórios ministeriais, mas que frequentemente carregam mais significado do que muitas atividades cuidadosamente planejadas.
É nesse espaço discreto — longe dos holofotes, sem testemunhas, sem aplausos — que o divino costuma aparecer com mais frequência. E é justamente ali que o verdadeiro mordomato é exercido. O homem da calçada foi embora levando um café nas mãos. Eu voltei para casa carregando algo muito mais difícil de definir. Não sei exatamente que nome dar a isso. Só sei que, toda vez que me lembro daquela tarde, a sensação continua ali — silenciosa, persistente, como uma pequena chama que o tempo ainda não conseguiu apagar.


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