ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (70): A Dualidade da Igreja Visível.
Conheci o Rodrigo numa célula de estudo bíblico que se reunia às quartas-feiras numa sala dos fundos da igreja do bairro. Ele era diácono — cargo eleito, nome registrado em ata, chave do depósito de material de limpeza pendurada no cinto como um discreto símbolo de confiança institucional. Sabia citar versículos com a precisão de quem manuseia ferramentas de trabalho, e quase sempre os utilizava da mesma forma: para sustentar argumentos ou encerrá-los de vez. Estava em todos os cultos, aparecia em todas as listas de presença, surgia em todas as fotografias dos eventos da igreja. Era, sob qualquer critério administrativo, impossível ignorá-lo. Nunca entendi exatamente no que ele acreditava. Às vezes, para ser sincero, tinha a impressão de que ele próprio também não sabia.
Conheci Dona Conceição naquela mesma época, embora por caminhos bem diferentes. Ela morava no mesmo quarteirão da igreja, mas raramente cruzava sua porta. Havia sido batizada décadas antes, em outra cidade e em outra denominação, tão distante no tempo que os registros já não existiam. Para os arquivos e sistemas eclesiásticos, era como se não estivesse em lugar nenhum. Não possuía matrícula, carteirinha, histórico de frequência nem assento nas reuniões de membros. Administrativamente, era invisível. Mas, rezava todos os dias.
Eu sabia disso porque passava diante de sua janela nas primeiras horas da manhã. Quase sempre a encontrava ali, sentada em silêncio, os olhos fechados e as mãos entrelaçadas. Não havia plateia, não havia testemunhas, não havia qualquer motivo para encenação. Era uma concentração tão serena e profunda que parecia dispensar explicações.
Essa tensão entre aparência e essência está longe de ser novidade. Agostinho já a percebia no século IV, quando observava que a Igreja visível e a Igreja invisível raramente coincidem de forma perfeita. Séculos depois, Calvino organizaria essa distinção com maior rigor teológico, mas a intuição fundamental já estava lá: a instituição é o mapa, não o território. E, como acontece com todo mapa, sua utilidade é inegável. Ele orienta, organiza e ajuda a não nos perdermos. Ainda assim, permanece apenas uma representação. Há quem conheça profundamente o território sem jamais ter consultado o mapa. E há quem memorize cada detalhe do mapa sem nunca ter dado um único passo além das margens desenhadas.
O Rodrigo conhecia cada corredor do templo. Sabia onde ficavam as salas, os armários, os documentos e as chaves. Conhecia os horários de todos os cultos, o funcionamento de cada comissão e os procedimentos corretos para cada votação. Quando surgia alguma dúvida burocrática, era a ele que recorriam. Pelos critérios visíveis, era um membro exemplar.
Dona Conceição, por sua vez, provavelmente não saberia localizar a sala de reuniões. Nunca participou de uma eleição interna. Nunca levantou a mão para aprovar uma ata nem assinou qualquer documento eclesiástico.
E não, não estou afirmando que o Rodrigo fosse hipócrita ou desonesto. A alma humana é mais complexa do que os julgamentos apressados permitem enxergar. Talvez sua relação com a fé possuísse profundidades que escapavam completamente ao meu olhar. O que digo é outra coisa: havia entre os dois uma diferença que nenhum formulário conseguiria registrar. As listas de membros, os relatórios, as assinaturas e as estatísticas cumpriam sua função, mas não alcançavam aquilo que realmente importava. Eram instrumentos necessários — e, ao mesmo tempo, insuficientes.
Talvez esse seja um dos paradoxos mais antigos da experiência religiosa. A Igreja visível tem sua razão de existir. Ela organiza, preserva, ensina e reúne. Mas, sua finalidade nunca foi servir a si mesma. Ela existe para servir à invisível — essa comunhão silenciosa que não cabe inteiramente em atas, números ou cadastros.
Quando a ordem se inverte, algo essencial se perde. O Rodrigo ainda carrega a chave do depósito. E, ao que tudo indica, Dona Conceição continua rezando todas as manhãs, antes mesmo que a cidade desperte — num lugar onde nenhum registro alcança e onde, talvez, a fé seja vista com mais clareza do que em qualquer lista de membros.


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