"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

quarta-feira, 19 de julho de 2023

ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (77): A Necessidade do Discernimento: Palavras Falsas e Verdadeiras.

 


ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (77): A Necessidade do Discernimento: Palavras Falsas e Verdadeiras.

O folheto estava sobre a mesa da cozinha quando cheguei. Minha mãe o havia trazido de uma reunião de grupo pequeno. Era uma folha comum, impressa sem qualquer destaque gráfico além de uma frase em negrito que me fez interromper até o impulso de servir um café. "Eu, Jesus, provi cem por cento para meus servos e exijo dez por cento para as despesas do Templo."

Li uma vez. Depois outra. Quanto mais relia, mais estranha a frase parecia. Não havia referência bíblica. Nenhum capítulo, nenhum versículo, nenhuma nota de rodapé que a ligasse a qualquer passagem dos Evangelhos. Era apenas uma afirmação em primeira pessoa, atribuída diretamente a Jesus, como se Ele tivesse ditado aquelas palavras a um secretário administrativo do primeiro século.

Perguntei à minha mãe de onde aquilo tinha surgido. Ela não soube responder com precisão. Apenas disse: — "É uma coisa que circula". Com a naturalidade de quem nunca havia parado para perguntar quem escreveu aquela frase, quando ela apareceu ou, principalmente, com que autoridade alguém resolveu colocá-la na boca de Cristo.

Aquilo me inquietou. Fui conferir por conta própria. Abri os Evangelhos que tinha em casa — um exemplar já gasto pelo tempo e outro na versão digital. Procurei pela expressão "cem por cento". Procurei pelas referências ao "Templo" nas falas de Jesus. O que encontrei foi bem diferente do que o folheto afirmava. Encontrei Jesus expulsando os vendilhões do Templo, não estabelecendo contribuições para mantê-lo. Encontrei o Mestre elogiando a viúva que ofertou duas pequenas moedas, tudo o que possuía, sem mencionar qualquer percentual obrigatório. Encontrei Jesus dizendo ao jovem rico que vendesse tudo o que tinha e repartisse com os pobres, não que separasse dez por cento de seus bens.

A frase do folheto, porém, simplesmente não estava em lugar nenhum. Alguém a escreveu. Talvez movido por boas intenções. Talvez não. Mas, isso, no fim das contas, pouco muda o problema. A frase foi colocada entre aspas, redigida na primeira pessoa, como se fosse uma citação literal de alguém que viveu há dois mil anos e que jamais deixou um único texto escrito de próprio punho. Esse tipo de distorção é especialmente perigoso porque não nega Jesus de forma explícita; faz algo ainda mais sutil. É uma espécie de ventriloquia religiosa: coloca palavras na boca de Cristo para fazê-Lo defender aquilo que interessa a quem fala em Seu nome.

Foi impossível não me lembrar das palavras do profeta Miqueias, um texto que trago na memória há muitos anos: praticar a justiça, amar a bondade e andar humildemente com Deus. Não há ali cláusulas sobre percentuais. Não há planilhas, metas financeiras nem despesas de templo transformadas em mandamento divino. Há, antes de tudo, um chamado para uma vida marcada pela justiça, pela misericórdia e pela humildade.

Guardei aquele folheto numa gaveta. A mesma onde costumo guardar outras coisas que não quero esquecer — não porque mereçam ser repetidas, mas porque servem de lembrete de como uma mentira, quando revestida de linguagem religiosa, pode adquirir uma aparência enganosa de verdade.

Desde então, tomei uma decisão. Da próxima vez que alguém colocar palavras na boca de Jesus, pretendo fazer uma pergunta simples, diante de quem for preciso: onde está escrito isso?

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