ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (68): O Algodãozinho Divino e a Sinfonia do Silêncio.
Era domingo. O sol brilhava com aquela tranquilidade de quem não precisa impressionar ninguém. A cidade parecia ter firmado um pacto silencioso para desacelerar: janelas abertas, passos preguiçosos pelas calçadas, o aroma do café recém-passado misturado ao cheiro da grama ainda úmida da madrugada. Dolce far niente, diriam os italianos — essa arte refinada de não fazer nada sem sentir culpa por isso.
Mas, então o microfone foi ligado. Da igreja da esquina — um prédio que, em outra encarnação imobiliária, funcionou como loja de colchões e que, pensando bem, continua oferecendo algum tipo de conforto, apenas em versão espiritual — irrompeu um volume sonoro que não convida, não sugere e muito menos pede licença. Ele simplesmente chega. As caixas de som instaladas na fachada despejavam a voz do pastor sobre a vizinhança com uma imparcialidade admirável: não importava se alguém queria ouvir ou não. Todos ouviriam. Tratava-se, ao que tudo indicava, de um serviço comunitário prestado sem a inconveniência de consultar a própria comunidade.
Os moradores da região conhecem bem essa liturgia involuntária. O senhor do apartamento em frente fecha a janela com o gesto resignado de quem já percorreu todas as etapas da indignação e agora habita apenas a exaustão. A moça do segundo andar coloca os fones de ouvido não para ouvir alguma coisa, mas para deixar de ouvir outra. Há alguns anos, um corretor de imóveis me confidenciou, sem qualquer sombra de ironia, que imóveis localizados num raio de duzentos metros de certas igrejas costumam valer cerca de doze por cento menos. O mercado imobiliário, afinal, é menos otimista que os fiéis: ele não acredita em milagres acústicos.
Foi justamente entre um amém coletivo e o versículo seguinte, amplificado com entusiasmo missionário, que uma imagem surgiu na minha cabeça. E, desde então, nunca mais foi embora. Imaginei Deus. Não o Deus austero dos julgamentos e das trombetas finais, mas o Deus paciente, aquele que suporta muito em nome do amor. Vi-o sentado em algum canto do cosmos, observando a cena lá embaixo com a expressão de quem reconhece a sinceridade da intenção, mas sente que certos limites foram ultrapassados há algum tempo.
Então, sem repreensões, sem raios e sem discursos, Ele estenderia a mão até uma pequena mesa celestial, pegaria dois chumaços de algodão e os acomodaria cuidadosamente nos ouvidos. Divinos. Celestiais. Absolutamente indispensáveis.
Porque, se existe uma lição que aqueles alto-falantes insistem em ensinar domingo após domingo, é que barulho e oração não são a mesma coisa — por mais que o volume tente, desesperadamente, convencer o mundo do contrário. O som pode ocupar o espaço inteiro, atravessar paredes e dominar quarteirões. A oração, porém, costuma seguir outro caminho. Quase sempre ela chega em voz baixa, sem amplificadores, sem eco e sem plateia. Como o próprio silêncio, não precisa gritar para ser ouvida.


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