Ensaio Teológico I(11) As Más Companhias e a Sabedoria Cristã
Por Claudeci Ferreira de Andrade
"Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim para chamar justos, mas pecadores" (Mc 2:17). Jesus pronunciou essas palavras depois de ser encontrado à mesa com cobradores de impostos e pessoas de má reputação. A cena, por si só, já era suficiente para causar escândalo. Os fariseus, porém, não foram diretamente a Ele. Preferiram dirigir-se aos discípulos, como quem evita confrontar o centro do problema, mas também não consegue permanecer calado diante dele. A resposta de Jesus não veio em forma de justificativa, muito menos de pedido de desculpas. Foi uma declaração de princípio. Ele não estava relativizando o pecado daqueles homens; estava oferecendo uma presença que eles dificilmente encontrariam se continuassem cercados apenas por pessoas iguais a eles. Antes de propor uma mudança de vida, Cristo ofereceu proximidade. E isso diz muito sobre a pedagogia do Reino.
É dessa cena — concreta, desconcertante e profundamente provocativa, tanto para os padrões religiosos daquele tempo quanto para muitos dos nossos — que nasce a reflexão deste ensaio.
Reconheço, sem dificuldade, que determinadas companhias podem exercer influência destrutiva sobre o caráter. A Escritura não romantiza essa realidade. Ao afirmar que "as más companhias corrompem os bons costumes" (1Co 15:33), ela faz uma advertência séria, não uma recomendação facultativa. Ainda assim, confesso que me inquieta o tom alarmista com que essa passagem, tantas vezes, é utilizada. Não raro, o cuidado legítimo transforma-se em medo permanente; o discernimento, em exclusão; e a prudência, em isolamento. Existe uma diferença significativa entre escolher com sabedoria as amizades mais íntimas e construir muros ao redor da própria fé, como se ela fosse frágil demais para resistir ao contato com o mundo real.
Montaigne parece oferecer uma chave importante para essa questão. Quando escreveu que a soberania sobre si mesmo é o maior dos bens (Ensaios, 1580), não defendia uma existência isolada, mas descrevia a liberdade interior de quem permanece senhor da própria consciência, esteja onde estiver. Essa mesma ideia ecoa, de certo modo, em Deuteronômio 30:19, quando Deus coloca diante do povo a vida e a morte e conclui: "agora escolham a vida." O livre-arbítrio não existe para nos afastar do mundo, mas para nos permitir habitá-lo sem perder o centro. A verdadeira liberdade não consiste em fugir das influências, e sim em discernir quais delas merecem ser acolhidas.
Talvez por isso eu me recorde, com frequência, de uma noite em que um amigo me convidou para acompanhá-lo a um ambiente que eu sabia não me faria bem. Preferi não ir. Durante muito tempo achei que minha decisão tivesse sido apenas prudente. Hoje, contudo, ainda me pergunto se aquela recusa nasceu realmente do discernimento ou se, em alguma medida, foi alimentada pelo medo. Também me pergunto se, naquele lugar, não havia alguém precisando encontrar, ainda que por alguns minutos, uma presença diferente, uma conversa honesta ou um gesto de acolhimento. Não tenho respostas definitivas. Mas, talvez o mais importante seja justamente não perder a capacidade de fazer essa pergunta. Afinal, ela nos obriga a examinar não apenas nossas escolhas, mas também as intenções que as sustentam.
Alexander Pope captou algo semelhante ao escrever que "errar é humano, perdoar é divino" (An Essay on Criticism, 1711). Longe de servir como desculpa para o erro, essa frase estabelece uma hierarquia moral profundamente coerente com o Evangelho: a misericórdia ocupa um lugar mais elevado do que o julgamento, sem jamais eliminar a responsabilidade. O apóstolo Paulo caminha na mesma direção ao exortar os efésios a perdoarem uns aos outros "como Deus os perdoou em Cristo" (Ef 4:32). O parâmetro do perdão, portanto, não é a nossa disposição emocional, mas o próprio agir de Deus. E essa consciência deveria produzir, antes de tudo, humildade em quem se julga apto a condenar.
O antigo Oráculo de Delfos gravou em pedra a máxima que Sócrates transformaria em método filosófico: conhece-te a ti mesmo. A sabedoria bíblica acolhe esse movimento, mas o leva ainda mais longe. Provérbios 9:10 afirma que "o temor do Senhor é o princípio da sabedoria." O autoconhecimento cristão não termina na contemplação de si mesmo; ele começa ali, mas logo aponta para Deus. Quem realmente conhece o próprio coração sabe quão vulnerável ele é ao engano. E justamente essa consciência impede que o discernimento se transforme em arrogância espiritual.
Talvez seja por isso que o caminho mais sábio não seja o do cristão que se isola para evitar qualquer possibilidade de contaminação. O caminho mais difícil — e, ao que tudo indica, mais próximo do exemplo de Cristo — é o de quem cultiva raízes profundas o suficiente para permanecer firme mesmo quando o vento sopra forte. É estar presente sem ser absorvido, disponível sem perder a identidade, compassivo sem abrir mão da verdade. Foi assim que Jesus viveu. Sentou-se à mesa com cobradores de impostos, não para aprender seus costumes, mas para revelar que havia uma forma inteiramente nova de viver. Aproximou-se sem se confundir, acolheu sem se conformar e amou sem negociar a verdade.
No fim das contas, esse caminho exige muito mais do que simples afastamento. Exige uma integridade que permanece em movimento. Uma integridade que não teme o encontro, porque sabe em quem está firmada; que não transforma prudência em medo nem convicção em arrogância. Talvez essa seja, afinal, a definição mais honesta de sabedoria cristã: viver no mundo com raízes profundas o bastante para que nenhuma influência seja mais forte do que a graça que nos sustenta.


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