ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (66): Ressignificando a Igreja de Jesus: Além da Religião Institucionalizada.
Foi numa quinta-feira à noite, durante um daqueles debates em salas de reunião improvisadas, com cadeiras dobráveis desalinhadas e um ventilador antigo disputando atenção com quem tentava falar, que alguém lançou a frase sobre a mesa como quem baixa a carta definitiva do jogo: — "Jesus fundou a Igreja. Está escrito."
Fiquei em silêncio. Não por falta de resposta. Resposta havia. O problema é que eu sabia como essas coisas costumam acontecer: resposta vira argumento, argumento vira disputa, e disputa, quase sempre, acaba sendo o avesso daquilo que Jesus parecia propor. Há conversas que iluminam; outras apenas levantam poeira. E eu não tinha certeza de que aquela noite suportaria mais uma tempestade.
Ainda assim, a frase foi comigo para casa. Ela se acomodou no banco do passageiro, atravessou o trajeto e permaneceu ali, inquieta, ocupando espaço na mente como uma música que se recusa a terminar. Fui dormir pensando nela. Acordei pensando nela.
"Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja." A frase é de Mateus, capítulo dezesseis. Conheço essas palavras de cor desde a adolescência. Mas, decorar não é compreender. Repetir não é, necessariamente, enxergar. E o que continua me perseguindo, anos depois, é uma pergunta que parece simples apenas à primeira vista: afinal, o que é a pedra?
Pedro — Petros em grego, Kepha em aramaico — significa pedra. Mas, pedra em que sentido? Pedra como nome próprio ou pedra como fundamento? Pedra como indivíduo ou como símbolo? A Igreja Católica leu pessoa. Muitos reformadores leram fé: a confissão que Pedro acabara de fazer, não o homem que a pronunciou. E pensar que dois milênios de tradição institucional tenham sido erguidos sobre uma ambiguidade de quatro letras provoca em mim algo difícil de nomear. Não chega a ser ceticismo. É vertigem. A sensação de olhar para baixo e perceber que aquilo que parecia chão talvez fosse uma pergunta.
Porque, se a pedra é a fé, e não Pedro, então o que Jesus fundou talvez não tenha sido uma estrutura delimitada por hierarquias rígidas, cargos bem definidos e endereço fixo. Talvez fosse outra coisa. Algo mais orgânico, mais poroso, menos domesticável. Algo parecido com o vento que Nicodemos não conseguia rastrear: você não o controla, não o aprisiona nem determina seu percurso; apenas percebe seus efeitos quando ele passa.
"Ide e ensinai todas as nações" — esse mandamento eu também conheço. Mas, ensinai o quê, exatamente? Um conjunto fechado de fórmulas? Uma doutrina sistematizada, organizada em capítulos e subtítulos? Ou aquilo que Jesus passou cerca de três anos demonstrando na prática: que é possível sentar-se à mesa com quem ninguém quer por perto; tocar quem a religião declarou impuro; enxergar quem a sociedade tornou invisível; perdoar antes mesmo que o pedido de perdão seja pronunciado? Talvez o ensino mais profundo nunca tenha sido apenas uma exposição de ideias, mas uma maneira de habitar o mundo.
Não estou dizendo que instituições sejam inúteis. Seria simplista demais. Instituições preservam memórias, organizam comunidades, sustentam práticas coletivas e oferecem abrigo a muita gente. O que estou dizendo é que existe uma distância considerável entre o homem que caminhava pelas margens do lago da Galileia chamando pescadores pelo nome e a imagem que, em determinados momentos da história, foi associada a estruturas de poder com patrimônio, jurisprudência e até política externa. Entre uma coisa e outra, há um percurso longo demais para ser ignorado — e complexo demais para ser reduzido a slogans.
Quando tudo terminou naquela noite, as cadeiras continuaram vazias, e o ventilador persistiu em seu ruído insistente, como se quisesse lembrar que nem todo barulho produz esclarecimento. A pergunta, porém, ficou. E talvez permaneça. Porque algumas perguntas não existem para serem encerradas com respostas rápidas. Elas existem para impedir que a fé endureça, para nos lembrar de que convicção não é sinônimo de arrogância e de que seguir Jesus talvez tenha menos a ver com defender estruturas e mais a ver com discernir, continuamente, onde ele ainda está passando.
Naquela sala de cadeiras dobráveis, o ventilador continuou fazendo barulho depois que todos foram embora. A pergunta também.


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