ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (27): Entre o Joio e o Trigo.
Houve um tempo em que eu me julgava trigo. Não de maneira arrogante ou escancarada. Esse tipo de orgulho costuma ser fácil de identificar e, quando percebido, até de combater. O problema era outro. Mais silencioso. Mais sofisticado. Eu carregava uma convicção tranquila de que estava do lado certo das coisas. Pensava as ideias certas, frequentava os lugares certos, defendia as causas certas. O joio era sempre o outro: o que havia se perdido pelo caminho, o que ainda não tinha entendido, o que precisava ser corrigido. Eu observava o campo e acreditava saber exatamente onde cada planta estava enraizada.
Então veio o dia em que essa certeza começou a rachar. Não foi durante um sermão. Não aconteceu numa vigília nem em algum momento extraordinário de revelação. Foi por meio de um amigo — alguém que, durante anos, eu havia classificado silenciosamente como joio. Sem alarde, sem discursos e sem qualquer intenção de provar algo, ele fez por mim o que nenhum dos meus supostos "trigos" havia feito.
Esteve presente. Só isso. Sem julgamento. Sem versículo pronto. Sem conselhos que eu não havia pedido. Apenas presente. Quando eu precisava de companhia, ele apareceu. Quando eu precisava de escuta, ele ouviu. Quando eu precisava de humanidade, ele ofereceu humanidade.
E aquilo ficou atravessado na minha garganta por dias. Porque, às vezes, uma simples demonstração de amor derruba sistemas inteiros de classificação que passamos anos construindo. Foi então que a parábola contada por Jesus em Mateus 13 ganhou um peso diferente para mim. Um homem semeia trigo em seu campo. Durante a noite, enquanto todos dormem, um inimigo aparece e espalha joio entre a plantação. Quando os brotos começam a surgir, os servos percebem o problema e perguntam: arrancamos?
A resposta do dono continua sendo uma das mais desconcertantes das Escrituras: não. Deixem crescer juntos. Na colheita, a separação acontecerá. Não agora. Juntos. Até lá. Há uma sabedoria profundamente humilde nessa resposta. Ela parte de um reconhecimento que nem sempre gostamos de admitir: nós não enxergamos tão bem quanto imaginamos. Nem eu. Nem você. Nem qualquer outra pessoa.
Nossa tendência de classificar rapidamente costuma ser proporcional à nossa incapacidade de compreender completamente aquilo que estamos julgando. Vemos fragmentos e acreditamos conhecer a história inteira. Enxergamos comportamentos e presumimos intenções. Observamos uma estação da vida e pensamos estar avaliando a colheita completa.
Mas, não estamos. E talvez seja exatamente por isso que o Senhor não entregou a nós a tarefa final da separação. Com o tempo, percebi que a parábola não fala apenas sobre pessoas ao nosso redor. Ela fala sobre algo ainda mais desconfortável: o campo inteiro. E o campo inclui o meu próprio coração.
Foi uma descoberta dolorosa. Porque existe joio dentro de mim. Há ressentimentos que cultivei durante anos, convencido de que eram discernimento espiritual. Há julgamentos que disfarcei de zelo pela verdade. Há distâncias emocionais que chamei de santidade. Há orgulho vestido de convicção e dureza travestida de firmeza.
As ervas daninhas mais perigosas não são aquelas que se apresentam como ervas daninhas. São aquelas que aprendem a usar nomes bonitos. Crescem perto do trigo, falam a mesma linguagem, frequentam os mesmos ambientes e, por muito tempo, passam despercebidas. É justamente por isso que exigem vigilância constante. Foi então que compreendi algo que jamais havia considerado com seriedade: ser trigo não é um título conquistado de uma vez por todas. Não é um certificado espiritual nem uma posição permanente no campo. Ser trigo é uma escolha. Uma escolha renovada diariamente.
Ela acontece nos lugares invisíveis da alma, quando ninguém está olhando. Acontece nos pensamentos que ninguém ouve, nas intenções que ninguém vê e nas pequenas decisões que parecem insignificantes, mas que, pouco a pouco, definem aquilo que estamos nos tornando.
A colheita virá. Não sei quando — e, sinceramente, desconfio de quem afirma saber. Mas, uma coisa sei: naquele dia não serão nossos discursos que falarão por nós. Não serão nossos cargos, nossos títulos, nossas publicações ou os grupos dos quais participamos. A pergunta será mais profunda. O que cultivamos enquanto ninguém observava? O que cresceu dentro de nós durante os dias comuns? Que tipo de fruto nasceu no silêncio? Porque é no silêncio que o campo revela sua verdadeira natureza.
E, então, chegará o momento em que a porta da graça estará fechada. Não como uma ameaça lançada para produzir medo. Mas, como consequência natural de uma colheita que finalmente alcançou seu tempo. Por enquanto, porém, o campo continua aberto. A terra ainda recebe sementes. As raízes ainda podem buscar profundidade. As escolhas ainda podem ser revistas.
E talvez seja justamente essa a beleza e a responsabilidade da vida: todos os dias recebemos uma nova oportunidade de decidir o que estamos cultivando. Essa decisão raramente acontece diante de plateias. Quase nunca produz aplausos. Na maior parte das vezes, ela ocorre em silêncio, longe dos olhos de qualquer testemunha. Mas, é ali, no segredo do campo, que o destino da colheita começa a ser escrito.
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