ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (40): A Empresa da Fé e o Dom que Ela Não Pode Comprar
Conheci um homem que foi reprovado no concurso da denominação. Não por falta de fé. Não por falta de conhecimento. Tampouco por falta de vocação. Foi reprovado porque não tinha padrinho — aquela figura quase invisível que, dentro de muitas estruturas religiosas, costuma aparecer com nomes mais elegantes: respaldo ministerial, indicação pastoral, recomendação da liderança. A embalagem muda. O conteúdo, nem tanto. No fim das contas, funciona como em qualquer sistema de poder humano: quem você conhece pesa mais do que aquilo que você sabe, e às vezes, pesa até mais do que aquilo que você é.
O nome dele era Benedito. Pregava onde surgisse uma oportunidade. Em praças, funerais, aniversários de família, visitas a enfermos, encontros improvisados em quintais. Não possuía microfone sem fio, púlpito iluminado nem cartão de apresentação. Tinha apenas uma Bíblia tão usada que a lombada já havia sido remendada com fita adesiva mais de uma vez. E tinha voz. Uma voz dessas que não precisa de amplificação porque nasce da convicção e não do volume.
A denominação não o quis. Benedito continuou pregando. A denominação continuou realizando concursos. A vida seguiu seu curso, como dois trilhos paralelos que percorrem a mesma paisagem sem jamais se encontrar. Há algo profundamente inquietante — e, ao mesmo tempo, revelador — no instante em que uma instituição religiosa percebe que precisa de um departamento de recursos humanos para administrar seus pregadores.
A partir daí surgem formulários, avaliações, planos de carreira, critérios de promoção, metas institucionais, aposentadorias, benefícios e estruturas cada vez mais sofisticadas. Vista de perto, cada peça parece razoável. Afinal, quem não defenderia organização? Quem seria contra garantir sustento digno a quem dedica a vida ao serviço religioso?
O problema não está em cada peça isoladamente. O problema aparece quando observamos o quebra-cabeça completo. Porque, nesse momento, algo sutil acontece: o dom começa a ser tratado como cargo. A vocação passa a funcionar como profissão. E a mensagem, pouco a pouco, assume a lógica de um produto que precisa ser distribuído, supervisionado e controlado.
Sem perceber, a fé adota a gramática da empresa. Quando a pregação se submete a processos seletivos, ela herda também os defeitos dos próprios processos humanos. Favoritismo. Nepotismo. Influência. Redes de relacionamento. Portas que se abrem para alguns e permanecem fechadas para outros. E o mais curioso é que aquilo que costuma ficar do lado de fora raramente é a incompetência. Muitas vezes é a autenticidade. Porque autenticidade não apresenta currículo. Não coleciona certificados de influência. Não sabe responder às perguntas certas da comissão examinadora.
Autenticidade costuma chegar com a roupa amassada da experiência, com as marcas da caminhada e com histórias que não cabem nos formulários. Ela dificilmente impressiona quem está procurando desempenho institucional. A empresa da fé — e essa expressão não é exagero retórico, mas uma descrição funcional — opera segundo uma lógica que Jesus frequentemente contrariou. Quando escolheu os discípulos, não abriu seleção pública. Não exigiu certificações. Não formou bancas examinadoras. Não pediu cartas de recomendação. Enviou os doze sem sacolas. Enviou os setenta sem dinheiro.
Chamou pescadores sem prestígio acadêmico, cobradores de impostos malvistos pela sociedade, mulheres sem reconhecimento jurídico e estrangeiros que jamais passariam pelos filtros de pertencimento religioso da época. O critério do Evangelho nunca coube em formulários. Talvez por isso seja tão difícil administrá-lo. E talvez por isso as estruturas religiosas acabem criando critérios próprios. Não necessariamente porque sejam más, mas porque os critérios originais são livres demais para caber em sistemas de controle.
O Reino de Deus sempre teve o hábito desconcertante de florescer onde os organogramas não conseguem enxergar. Benedito morreu alguns anos atrás. Não houve homenagem em revista oficial. Não apareceu em relatórios ministeriais. Seu nome não foi lembrado em congressos nem registrado em atas administrativas. Afinal, ele nunca foi ordenado. Nunca recebeu credencial. Nunca ocupou cargo. Nunca entrou na folha de pagamento. Mas, eu estive em seu velório. E a sala estava cheia. Cheia de gente simples. Homens e mulheres que ele havia consolado durante o luto. Famílias que ele visitou quando a doença bateu à porta. Pessoas que encontraram companhia quando a solidão parecia definitiva. Gente que recebeu uma palavra no momento exato em que a vida estava desmoronando. Nenhum deles falava sobre títulos. Falavam sobre presença. Sobre cuidado. Sobre alguém que apareceu quando ninguém mais apareceu.
E, olhando para aquela sala lotada, tive a impressão de que existiam credenciais que jamais seriam emitidas por uma instituição. O dom da pregação não precisa de um departamento de recursos humanos para existir. Precisa de alguém disposto a carregá-lo com inteireza. Precisa de alguém que tenha coragem de exercê-lo nos lugares onde não há palco, nem câmera, nem aplauso. Precisa de alguém que compreenda que o valor de uma mensagem não depende da estrutura que a legitima, mas da verdade que a sustenta.
Benedito entendeu isso. Talvez por isso tenha continuado pregando quando a instituição lhe fechou as portas. Talvez por isso sua influência tenha sobrevivido ao seu próprio nome. Porque existem coisas que a empresa da fé consegue administrar. Mas, existem dons que ela jamais conseguirá comprar. E graças a Deus por isso.


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