ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (64): O Véu da Fé Corrompida.
Era uma tarde ensolarada, e o calor castigava o asfalto com a insistência inconveniente de quem não foi convidado, mas fez questão de chegar antes de todo mundo. No coração da cidade, espremida entre prédios que disputavam a luz e projetavam sombras uns sobre os outros, uma multidão se acotovelava diante de uma construção que chamava a si mesma de igreja — com a mesma naturalidade com que, hoje em dia, qualquer coisa reivindica ser aquilo que talvez já tenha deixado de ser.
Os cânticos escapavam pelas paredes como se o volume pudesse substituir a convicção, como se a intensidade do som fosse capaz de preencher os espaços vazios deixados pela ausência de substância. Entrei. A primeira coisa que vi não foi um altar. Foi uma mesa. Comprida, coberta por uma toalha branca impecável, encostada na parede lateral com a discrição constrangida de quem sabe que não deveria estar ali, mas compareceu mesmo assim. Sobre ela repousavam livros de títulos dourados, revistas adornadas por rostos excessivamente sorridentes e, num dos cantos, organizados com o zelo de quem os manuseia com frequência, jogos bíblicos acondicionados em caixas coloridas. Banco Imobiliário da Salvação, pensei, sem querer. Não era o nome estampado na embalagem. Mas, convenhamos, poderia muito bem ser.
Os colportores — palavra antiga, quase aristocrática em sua origem, usada para designar aqueles que levavam literatura de porta em porta movidos por vocação e zelo missionário — transitavam entre os bancos com a desenvoltura de vendedores experientes em dia de feira. Sorriam na medida certa. Sabiam a hora de abordar e, mais importante ainda, dominavam a arte de deixar que o silêncio concluísse o serviço. Havia método na cordialidade, estratégia na simpatia.
Um deles se aproximou de mim segurando um livro. Capa dura. Título bíblico. O preço, discretamente colado na quarta capa, aparecia com a sutileza contraditória de quem tenta esconder uma tatuagem num lugar perfeitamente visível. — "É uma bênção ter esse conhecimento em casa", disse ele. Assenti com a cabeça, mais por falta de reação do que por concordância. Não soube o que responder. Ele, porém, interpretou meu gesto como sinal inequívoco de interesse e já parecia disposto a providenciar o troco antes mesmo que eu tivesse mencionado qualquer valor.
Voltei os olhos para a mesa. Os jogos bíblicos vinham equipados com fichas, dados e cartas repletas de perguntas sobre os Evangelhos. A embalagem prometia "diversão em família com valores cristãos". A etiqueta, por sua vez, informava um preço equivalente ao de um jantar para duas pessoas num restaurante razoável. Talvez fosse esse o milagre contemporâneo: transformar catequese em produto, devoção em vitrine e pertencimento em algo parcelável no cartão.
Do outro lado do salão, alguém cantava sobre graça. A palavra atravessou o ambiente e chegou até mim carregada de ironia involuntária. Graça: favor imerecido, dom gratuito, expressão máxima daquilo que não se compra nem se vende. Ainda assim, ali estava ela, ecoando entre prateleiras improvisadas, etiquetas cuidadosamente coladas e negociações conduzidas com delicadeza quase litúrgica.
Saí sem comprar nada — e isso, naquele contexto, pareceu menos uma decisão econômica e mais um discreto ato de resistência. Do lado de fora, o sol persistia em sua velha teimosia, indiferente aos conflitos humanos. Caminhei alguns passos e pensei nas mariposas.
Pensei que a chama, ao menos, tem a honestidade das coisas que não fingem ser outra coisa além do que são. Ela não promete abrigo, não vende esperança engarrafada nem disfarça seu poder de destruição sob embalagens atraentes. Apenas arde.
E talvez seja justamente aí que resida a diferença entre a luz autêntica e seus simulacros: a primeira ilumina, ainda que possa ferir; os segundos seduzem, enquanto cobram entrada.
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