ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (75): Além das Evidências.
Às vezes, imagino um monge sentado no scriptorium de algum mosteiro do século XII, copiando à mão um trecho do Evangelho de Lucas. A vela ao lado já se consumiu pela metade. Os dedos doem, a nuca pesa, os olhos ardem de tanto acompanhar a tinta sobre o pergaminho. Então, em algum momento daquela longa noite de trabalho silencioso, ele para. Não porque esteja cansado, mas porque uma frase que já transcreveu centenas de vezes, de repente, se recusa a escorrer pela pena com a familiaridade de sempre.
Ele hesita. Relê a passagem. Talvez feche os olhos por um instante. Talvez faça uma oração antes de continuar. Aquele monge tinha diante de si exatamente as mesmas palavras que eu tenho agora, diante de uma tela iluminada, num quarto que nunca precisou da luz de uma vela. As mesmas evidências, os mesmos versículos, a mesma promessa atravessando os séculos. Ainda assim, ele parecia carregar aquelas palavras com um peso que eu, sinceramente, raramente sinto.
Então me pergunto: por que eu, um leitor do século XXI, tantas vezes leio com mais segurança do que um homem que dedicou a vida inteira a copiar, preservar e meditar sobre esse mesmo texto? Talvez porque hesitar exigisse tempo — e ele o tinha. O tempo lento dos mosteiros, onde os dias não eram fragmentados por notificações, feeds intermináveis ou dezenas de abas abertas disputando atenção. Talvez porque, para ele, a fé fosse uma espécie de combate travado letra por letra, linha após linha, enquanto, para mim, ela corre pela tela na mesma velocidade com que passam notícias, propagandas e distrações.
Esses pensamentos voltaram outro dia, quando assisti, de longe, a um culto transmitido pela internet. No púlpito, um pastor de camisa perfeitamente ajustada e relógio caro prometia prosperidade com a desenvoltura de quem conhece o roteiro de cor. Falava sem vacilar. Citava versículos em sequência, sem pausas, sem perguntas, sem qualquer sinal de espanto diante do próprio texto. Cada passagem parecia encaixar na outra como um argumento de venda cuidadosamente ensaiado.
Foi impossível não imaginar o velho monge diante daquela cena. Tenho a impressão de que ele teria parado diante de uma única linha para refletir, enquanto aquele pregador atravessava dezenas delas em poucos minutos, sem pestanejar. Um copiava as Escrituras como quem pisa em terra santa; o outro parecia atravessá-las na velocidade de uma apresentação comercial.
Talvez a hesitação daquele copista fosse, no fim das contas, uma forma mais sincera de fé do que a certeza inflada que transforma milagres em produto e esperança em estratégia de marketing. Afinal, quem nunca duvida dificilmente se deixa surpreender. E uma fé que já nasce convencida de tudo talvez tenha desaprendido a escutar.
Não tenho a vela daquele monge. Não conheço o silêncio espesso de seu mosteiro, nem a disciplina de uma vida inteira dedicada à mesma tarefa. Mas, ainda conservo algo que ninguém pode me tirar: a possibilidade de interromper a leitura, voltar uma linha, reler uma frase que já encontrei dezenas de vezes e permitir que ela, mais uma vez, me desinstale.
Talvez seja justamente isso que precisamos recuperar. Não uma certeza apressada, pronta para qualquer debate, mas o intervalo que a antecede. Porque, às vezes, é na pausa — e não na resposta — que Deus encontra espaço para falar.


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