ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (60): A Anarquia Religiosa.
"A ignorância, a cobiça e a má-fé também elegem seus representantes políticos." — Carlos Drummond de Andrade. E também elegem seus pastores. Havia uma mulher a quem vou chamar de Dona Eunice. Tinha sessenta e poucos anos. Morava sozinha desde a morte do marido e carregava consigo aquele tipo particular de solidão que só conhece quem perdeu a pessoa que dava ritmo aos dias, organizava os horários, preenchia os silêncios e, de algum modo, ajudava o mundo a fazer sentido. A casa continuava a mesma, mas já não era lar do mesmo jeito.
Foi nesse intervalo entre a saudade e a necessidade de pertencimento que surgiu o pastor da nova igreja do bairro. A congregação havia sido inaugurada três meses antes numa loja comercial de esquina, identificada por uma faixa de lona esticada às pressas e um sistema de som alugado. O pastor começou a visitá-la com frequência. Para Dona Eunice, aquelas visitas tinham cheiro de cuidado. Ela as recebeu como quem reencontra abrigo depois de muito tempo exposta ao frio.
Era um homem jovem. Tinha desenvoltura. Tinha o sorriso cuidadosamente ajustado para inspirar confiança. Dominava, sobretudo, aquele tipo de linguagem que mistura intimidade e autoridade na medida exata em que os mais vulneráveis costumam confundir influência com afeto, direção com proteção.
Nas primeiras semanas, tudo parecia desinteressado. As visitas eram gratuitas, os conselhos vinham acompanhados de versículos e as orações eram generosas. Depois vieram os pedidos — discretos, graduais, sempre revestidos de vocabulário bíblico. Uma oferta especial para cobrir os custos do ministério. Uma corrente de oração que requeria semente de fé. Um projeto de expansão que precisava de parceiros comprometidos.
Dona Eunice contribuiu. Depois contribuiu de novo. E mais uma vez. Ao longo de um ano, os valores se acumularam até representarem uma parcela significativa da sua aposentadoria. Não foi tudo de uma vez. Quase nunca é. O esvaziamento costuma acontecer aos poucos, moeda após moeda, confiança após confiança. Então, um dia, a loja comercial fechou. O pastor havia se mudado para outra cidade, levando consigo o sistema de som alugado e o fundo de caixa da congregação.
Dona Eunice ficou. Ficou sem a comunidade que acreditava ter encontrado. Ficou sem parte do dinheiro que jamais recuperaria. E ficou, sobretudo, com uma dúvida cruel: teria sido apenas ingênua ou teria cometido algum pecado oculto que justificasse o que lhe acontecera? Porque, não raro, quem sofre o abuso acaba herdando também a culpa.
Soube dessa história por meio de um familiar dela. Nunca descobri se Dona Eunice encontrou outra comunidade. Nunca soube se conseguiu dar nome ao que viveu. Talvez tenha chamado de decepção. Talvez de provação. Talvez nem tenha encontrado palavras. Há dores que adoecem justamente porque permanecem sem nome.
A Constituição Brasileira garante a liberdade religiosa — e faz isso com razão. Não há, nem deveria haver, lei que impeça pessoas de se reunirem em nome da fé que professam. A liberdade religiosa é uma conquista civilizatória concreta, comprada ao preço de perseguições, intolerâncias, sangue derramado e séculos de aprendizado histórico. Mas liberdade nunca significou ausência de consequências.
Quando a liberdade religiosa passa a funcionar como cobertura legal para aquilo que, na prática, é a extração sistemática de recursos de pessoas vulneráveis — mediada por linguagem sagrada, sustentada por autoridade pastoral autoproclamada e impulsionada pela promessa de que a doação produz retorno divino garantido — o que está em jogo já não é o exercício saudável da liberdade. É abuso protegido por ela.
Drummond falava sobre política. Ainda assim, sua observação atravessa o campo religioso com precisão quase desconfortável: a ignorância elege pastores, a cobiça os sustenta e a má-fé os protege sob o manto respeitável da liberdade constitucional. É aqui que a distinção construída ao longo de toda esta série encontra sua expressão mais dolorosa. Gilberto pregava sem cobrar. Benedito anunciava sua mensagem nas praças. O eletricista da garagem devolvia aquilo que lhe ofereciam. Nenhum deles transformou a liberdade religiosa em instrumento de extração.
O pastor da loja comercial transformou. E a mesma lei que protege Gilberto e Benedito — corretamente — também protegeu o pastor da loja comercial. Não porque a lei seja injusta, mas porque ela não consegue distinguir vocação de vaidade, serviço de negócio, fé de produto. Essa distinção não pode ser terceirizada para o Estado. Ela precisa ser exercida por cada comunidade, por cada fiel, por cada pessoa que decide onde deposita sua confiança, sua escuta e seu dinheiro.
E, depois de sessenta crônicas, talvez seja essa uma das lições mais difíceis desta série: boa intenção, sozinha, não basta. É preciso discernimento ativo. A pergunta não é apenas: esse líder parece sincero? As perguntas são outras. Para onde flui o recurso? Quem presta contas? O que acontece quando alguém faz perguntas difíceis? Como reage a liderança quando é contrariada? Existe transparência ou apenas exigência de submissão?
Dona Eunice nunca perguntou. Ou talvez tenha perguntado. E tenha recebido versículo como resposta. A anarquia religiosa não nasce do excesso de liberdade. Nasce da ausência de responsabilidade. Da estrutura que não presta contas. Da comunidade que desaprendeu a questionar. Do líder que confunde autoridade com imunidade. Do fiel que confunde vulnerabilidade com fé. E o preço dessa ausência não é abstrato. Tem rosto. Tem sessenta e poucos anos. Tem uma aposentadoria que desapareceu junto com o sistema de som alugado. Tem uma mesa posta para uma pessoa só. Tem orações interrompidas pela desconfiança. Tem vergonha de admitir que acreditou.
A anarquia religiosa não deixa apenas prejuízos financeiros. Ela sequestra a confiança, embaralha a imagem de Deus e faz vítimas perguntarem se o erro estava nelas, quando, muitas vezes, o erro estava justamente naqueles que aprenderam a transformar o sagrado em oportunidade. E talvez seja por isso que discernimento também seja uma forma de cuidado. Porque fé sem vigilância pode virar ingenuidade. E liberdade sem responsabilidade pode se transformar no álibi perfeito para que os mais frágeis paguem a conta.


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