ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (76): Solitários e Inabaláveis.
Marta levantou a mão durante uma reunião de membros, num auditório onde as cadeiras de madeira rangiam a cada movimento, e pronunciou uma frase que ninguém naquela sala imaginava ouvir em voz alta: — "Eu vou parar de pagar o dízimo."
Não foi uma acusação. Foi um anúncio — sereno, quase protocolar, como quem apenas comunica uma mudança de endereço. O silêncio que se instalou pareceu longo demais, daqueles que pesam sobre o ambiente e deixam todo mundo sem saber o que fazer. Alguém pigarreou. O pastor, sentado à mesa diretora, ajeitou os óculos antes de perguntar, num tom que se esforçava para soar pastoral, mas acabava revelando certa defensividade: — "Posso perguntar o motivo, irmã Marta?"
Ela explicou. Durante dois anos, servira como tesoureira voluntária e, nesse período, acompanhou de perto o destino de boa parte dos recursos arrecadados. Viu dinheiro sendo empregado em viagens administrativas, reformas de gabinete e até numa festa de aniversário institucional que custou mais do que todo o auxílio destinado a três famílias necessitadas naquele mesmo trimestre. Não estava acusando ninguém de roubo. Sua questão era outra. Simplesmente já não conseguia reconciliar a própria consciência com a forma como aquele dinheiro estava sendo administrado.
As consequências vieram sem alarde, mas vieram. Nas semanas seguintes, Marta perdeu o cargo na Escola Sabatina. As conversas nos corredores ficaram mais breves, quase protocolares. Duas amigas, antes inseparáveis, passaram a evitar sentar-se ao lado dela. Ninguém declarou, oficialmente, que ela estava sendo excluída. Nem precisava. Há coisas que nunca são ditas, mas se fazem sentir — e esse tipo de percepção, quase sempre, não costuma enganar.
Mesmo assim, ela permaneceu. Continuou frequentando os cultos, cumprimentando as pessoas com a mesma cordialidade de antes e cantando os hinos com a mesma voz serena. Não fez campanha contra ninguém, não tentou convencer outros a agir como ela nem transformou sua decisão numa bandeira. Apenas permaneceu fiel àquilo que acreditava ser o certo.
Sempre me lembro de Marta quando leio aquela frase atribuída a Heppenstall sobre a coragem moral exigida nos dias atuais, sobre o tempo em que será necessário permanecer sozinho por causa daquilo em que se crê. A frase continua verdadeira. Mas, ao olhar para Marta, percebo um detalhe que, às vezes, passa despercebido: ela nunca escolheu a solidão como demonstração de virtude. A solidão foi o preço que lhe cobraram por sustentar uma convicção que não procurou ter, mas da qual também não conseguiu abrir mão.
Existe uma diferença profunda entre buscar o isolamento como prova de pureza e aceitar o isolamento como consequência de permanecer fiel à própria consciência. Marta jamais desejou caminhar sozinha. Continuou participando das reuniões, ocupando discretamente seu lugar na terceira fileira e alimentando, sem qualquer garantia, uma esperança silenciosa: a de que, um dia, alguém voltasse simplesmente a sentar-se ao lado dela.


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