ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (26): Além das Fronteiras da Babilônia.
Houve uma tarde de quinta-feira, durante um culto, em que algo dentro de mim acusou um descompasso. Não foi um trovão rasgando o céu. Não foi uma visão nem uma voz sobrenatural. Foi apenas uma frase. Pequena, simples, dita pelo líder com a tranquilidade de quem repete uma verdade indiscutível: — "Quem não está conosco está contra a obra de Deus."
A congregação concordou com a cabeça. Alguns anotaram cuidadosamente. Outros seguiram adiante como se nada tivesse acontecido. Eu, porém, permaneci em silêncio, olhando para o chão. Havia em mim uma inquietação difícil de explicar, como quem presencia uma porta sendo fechada devagar e, logo depois, trancada pelo lado de dentro.
Naquela noite, fui para casa sem conseguir nomear o que havia sentido. Era uma sensação persistente, daquelas que nos acompanham mesmo quando tentamos ignorá-las. Os meses passaram, e só muito tempo depois encontrei a palavra que traduzia aquele incômodo. A palavra era: Babilônia.
Não me refiro ao território antigo nem ao império que aparece nos livros de História. Refiro-me ao sistema. Àquela estrutura quase invisível que aprende a transformar a fé em instrumento de controle. Um sistema que mistura verdade e erro com tamanha habilidade que, depois de algum tempo, já não se consegue distinguir claramente onde um termina e o outro começa. É uma confusão silenciosa. Não chega impondo-se aos gritos; aproxima-se em sussurros. E justamente por isso se torna tão perigosa.
A igreja verdadeira — e continuo acreditando que ela existe, ainda que espalhada pelos cantos do mundo, fragmentada como um mosaico cujas peças aguardam reencontro — nunca foi definida por paredes, documentos ou instituições. Nunca foi um edifício. Nunca foi um CNPJ, um estatuto ou uma liturgia cuidadosamente engessada. Ela existia antes de tudo isso. Antes dos nomes, antes das denominações, antes das placas douradas nas fachadas e dos títulos religiosos que os homens criaram para si.
Em algum ponto da caminhada histórica, porém, alguém percebeu que uma fé organizada também pode ser uma fé controlada. E o controle, quando cria raízes, raramente se apresenta como tirania. Pelo contrário: veste-se de doutrina, fala com tom de autoridade e cita versículos com uma eloquência capaz de impressionar até os mais atentos. À primeira vista, parece sabedoria.
Mas, nem sempre é. Muitas vezes, é apenas poder. E o poder que se esconde atrás do sagrado costuma ser o mais difícil de identificar e o mais arriscado de confrontar. Porque ele não exige apenas obediência; exige também admiração. Não quer apenas seguidores; quer consciências rendidas.
Talvez seja por isso que as palavras de Jesus continuem tão provocativas. Curiosamente, Ele não pediu que seus discípulos fugissem do mundo. Pediu que não fossem do mundo. A diferença parece sutil, mas carrega um abismo de significado. Significa viver presente sem se tornar refém. Participar sem se deixar absorver. Caminhar na lama sem permitir que ela determine a direção dos passos.
Podemos estar inseridos na realidade à nossa volta sem sermos arrastados por ela. Não como peixes levados pela correnteza, sem escolha nem discernimento, mas como pescadores que conhecem as águas, compreendem seus perigos e, ainda assim, lançam suas redes com propósito.
Afinal, a diferença entre o peixe e o pescador não está na coragem. Está na consciência de onde os pés estão firmados. Por isso, não proponho uma nova denominação. Não sugiro a criação de mais um movimento, mais uma bandeira ou mais um conjunto de regras com aparência renovada. O mundo religioso já está repleto dessas tentativas. O que proponho é algo simultaneamente mais simples e mais desafiador: que cada pessoa tenha a coragem de olhar para dentro de si e fazer perguntas honestas.
A fé que você pratica o conduz à liberdade ou à dependência? O sistema religioso ao qual você pertence o aproxima do essencial ou o mantém ocupado com o acessório? A voz que você segue realmente conduz a Deus ou apenas fala em nome dEle? Essas perguntas podem ser desconfortáveis. Talvez até dolorosas. Mas, são necessárias. Porque sair da Babilônia nunca foi, em primeiro lugar, uma mudança de endereço.
É uma mudança de consciência. É um despertar. E quase sempre começa de maneira discreta. Não com grandes manifestações, nem com revelações espetaculares. Começa numa tarde comum de quinta-feira, quando uma frase aparentemente inofensiva atravessa o silêncio da alma. E, pela primeira vez, o coração decide não concordar automaticamente.
Nesse instante, a porta que parecia estar se fechando talvez revele algo inesperado: não era uma saída sendo bloqueada. Era uma prisão sendo descoberta.
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