ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (38): A Inversão dos Valores no Serviço Religioso.
Era uma manhã de domingo quando vi o carro. Não foi exatamente o carro que me chamou a atenção. Carros importados circulam por toda parte, e a essa altura da vida já aprendi que nem toda riqueza é suspeita, assim como nem toda simplicidade é virtude. O que me fez parar por um instante foi o contraste.
O automóvel, preto e reluzente, ocupava a vaga reservada junto à entrada lateral do templo. Sobre o painel, uma pequena identificação informava o que os olhos já suspeitavam: Pastor. Do outro lado da rua, quase em frente, um homem dobrava um pedaço de papelão para transformá-lo em assento. Eram sete e quarenta da manhã. O culto começaria dali a vinte minutos. Fiquei observando a cena por alguns segundos. O brilho da lataria refletia a luz do sol nascente. O papelão, gasto pela chuva e pelo uso, mal resistia às mãos que o dobravam.
Dois objetos. Dois mundos. Separados por uma única rua. Entrei no templo levando aquela imagem comigo. A congregação era grande. O prédio, imponente. O sistema de som parecia mais sofisticado do que muitos auditórios que já visitei. Tudo funcionava com precisão. Nada estava fora do lugar. O pastor chegou pontualmente. Não entrou pela porta reservada. Veio pelo corredor central, caminhando com a naturalidade de quem sabe que está sendo observado e, há muito tempo, aprendeu a conviver com isso. Talvez até a esperar por isso.
O sermão era bom. Bem estruturado. As pausas aconteciam nos lugares certos. As histórias surgiam no momento exato. As emoções eram conduzidas com habilidade. Havia experiência ali, sem dúvida. E havia também algo difícil de nomear. Uma sensação quase imperceptível de que tudo estava calibrado. Cada frase. Cada apelo. Cada silêncio. Tudo conduzia a congregação para um ponto específico, como um rio que sabe exatamente onde pretende desaguar. Quando a coleta chegou, ninguém pareceu surpreso. Talvez porque o sermão inteiro já estivesse caminhando naquela direção desde o início.
Saí antes do encerramento. Ao cruzar novamente a rua, vi que o homem continuava ali. O culto avançava. A necessidade também. Volta e meia me pego pensando naquela manhã. Não no carro. Nem no homem do papelão. Mas, no espaço invisível que existia entre eles. Porque é nesse espaço que nasce uma pergunta desconfortável: em que momento um chamado se transforma em carreira? Não existe uma data. Não há uma reunião oficial para isso. Ninguém acorda numa segunda-feira e decide abandonar uma vocação para abraçar uma estrutura. A mudança acontece devagar. Quase sempre em silêncio. Como uma encosta que cede milímetro por milímetro até que, um dia, o terreno já não é o mesmo, embora ninguém consiga apontar exatamente quando começou a mudar.
O chamado genuíno faz uma pergunta simples: Quem eu posso servir? A carreira religiosa costuma fazer outra: Quantas pessoas me seguem? À primeira vista, a diferença parece pequena. Mas, não é. Uma constrói pontes. A outra constrói plataformas. Uma olha para pessoas. A outra aprende a contar números. Quando a quantidade de dizimistas se torna a principal medida de sucesso ministerial — e, convenhamos, em muitos ambientes religiosos isso acontece de forma explícita ou velada — algo começa a se deslocar. O foco muda. A linguagem muda. Até as prioridades mudam.
O que antes era cuidado pastoral corre o risco de se tornar gestão de carteira. O que antes era discipulado pode acabar se parecendo com fidelização. E o líder que passa a trabalhar para ampliar sua influência pessoal já não está necessariamente expandindo o Reino de Deus. Pode estar apenas ampliando a própria estrutura. Uma espécie de franquia espiritual com terminologia sagrada. É uma crítica dura. Mas, talvez não tão dura quanto a realidade que a produz.
Ao longo da vida conheci muitos pastores íntegros. Homens e mulheres que viviam exclusivamente do ministério e, ainda assim, preservavam uma liberdade admirável. Recebiam o suficiente para servir e serviam justamente porque nunca permitiram que o suficiente se transformasse em necessidade de sempre ter mais. Esses existem. E graças a Deus existem. Sua presença impede que a crítica se transforme em caricatura. Porque o problema nunca foi o sustento. O problema é a dependência. É quando o sustento passa a definir os limites da mensagem.
Quando determinados assuntos desaparecem dos púlpitos porque podem desagradar financiadores importantes. Quando a verdade começa a ser filtrada pela conveniência. Quando a mensagem aprende a fazer concessões para garantir estabilidade. Nesse ponto, a corrupção já aconteceu. Não aquela corrupção escandalosa que estampa manchetes e provoca indignação imediata. Essa é fácil de identificar. A mais perigosa é outra. É a corrupção silenciosa. Aquela que se instala devagar, veste roupas respeitáveis e consegue parecer perfeitamente normal. Aquela que todos enxergam, mas poucos nomeiam. Porque, no fundo, ela oferece conforto para todos os envolvidos.
Naquela manhã de domingo, diante de um templo próspero e movimentado, havia dois sermões sendo pregados ao mesmo tempo. O primeiro acontecia dentro do auditório. O segundo estava sentado sobre um pedaço de papelão do lado de fora. Num lado da rua, um carro importado ocupava a vaga reservada. No outro, um homem tentava tornar o concreto um pouco menos duro. O sermão daquele dia falou longamente sobre generosidade. Mas, curiosamente, não mencionou nenhum dos dois. E talvez tenha sido justamente esse silêncio que mais falou comigo.


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