ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (18): A Responsabilidade da Busca pela Verdade.
Ele perdeu o emprego numa quinta-feira de manhã. Não o emprego secular — esse continuou intacto. O que perdeu foi algo que levara vinte e dois anos para construir dentro de uma estrutura religiosa: a confiança dos líderes, o título que carregava e o lugar que ocupava à mesa das decisões. Tudo lhe foi retirado numa reunião que durou pouco mais de quarenta minutos.
Do outro lado da mesa comprida, três líderes. Deste lado, apenas ele. A ata registrou uma única acusação. Ele havia feito perguntas. Não perguntas agressivas. Não perguntas de quem desejava destruir ou causar divisão. Eram perguntas de quem havia lido, pesquisado, comparado fontes e encontrado diferenças entre aquilo que a instituição ensinava e aquilo que os textos originais pareciam afirmar. Movido por respeito, preparou um documento interno. Nada de ataques. Nada de acusações. Apenas referências, argumentos e um pedido sincero de diálogo.
O documento circulou. Chegou a pessoas que, aparentemente, não deveriam vê-lo. E a resposta veio rápida. Não uma resposta aos argumentos. Não uma resposta às perguntas. Mas, uma resposta ao questionador. Porque sistemas fechados costumam reagir da mesma forma quando são confrontados por dentro: não eliminam a dúvida; eliminam quem ousou expressá-la.
Encontrei-o algumas semanas depois. Era uma tarde comum de semana. Ele estava sentado sozinho num banco de praça, observando o movimento sem realmente vê-lo. Havia em seu rosto aquela expressão difícil de descrever, mas fácil de reconhecer: a de quem saiu derrotado de uma guerra que jamais desejou travar.
Ficamos em silêncio por alguns minutos. Então ele falou. "O pior", disse, depois de um suspiro longo, "não foi perder o cargo. Foi perceber que nunca tive permissão de pensar." Confesso que aquela frase me acompanhou durante dias. Algumas palavras passam pelos ouvidos. Outras se instalam na consciência. Aquelas ficaram. Porque existe uma ironia profunda em toda instituição que afirma possuir a verdade de forma absoluta. Ao reivindicar exclusividade sobre ela, acaba diminuindo aquilo que diz defender.
A verdade não teme investigação. Não se sente ameaçada por perguntas. Não precisa de guarda-costas. Quando uma ideia só sobrevive cercada por mecanismos de proteção, talvez ela não esteja sendo preservada pela força de seus argumentos, mas pela fragilidade deles. A verdade que não suporta questionamentos deixa de ser verdade e se transforma em decreto. E decretos exigem obediência. A verdade, ao contrário, convida à compreensão. Talvez seja por isso que algumas instituições não formem pensadores, mas executores. Não incentivem discernimento, mas conformidade. Não cultivem uma fé amadurecida, e sim uma dependência cuidadosamente administrada.
A diferença parece pequena no começo. Mas, com o passar dos anos, produz consequências gigantescas. A busca pela verdade é uma responsabilidade pessoal e intransferível. Ninguém pode realizá-la em nosso lugar. Nenhum pastor. Nenhuma denominação. Nenhum manual aprovado por comissão. Nenhum púlpito, por mais respeitado que seja. Cada ser humano carrega dentro de si a capacidade — e também o dever — de examinar, refletir, confrontar ideias, revisar conclusões e seguir aprendendo.
Impedir esse processo não é proteção espiritual. É controle administrativo revestido de linguagem sagrada. O homem sentado naquele banco de praça havia feito exatamente o que a fé mais genuína exige: foi intelectualmente honesto diante de Deus. Recusou-se a fingir que não via.
Recusou-se a silenciar perguntas legítimas. Recusou-se a sacrificar a consciência em nome da conveniência. E acabou sendo punido por isso. Não porque tivesse encontrado todas as respostas.
Mas porque ousou formular as perguntas certas.
Perguntas sempre foram perigosas para sistemas que dependem de certezas absolutas. Afinal, respostas podem ser decoradas. Perguntas abrem portas. E portas abertas são difíceis de controlar. O curioso é que ele não perdeu a fé. Pelo menos não a fé verdadeira. O que perdeu foi a ilusão. E existe um abismo entre uma coisa e outra. A ilusão precisa de proteção constante. A fé não. A ilusão teme a luz. A fé cresce nela. A ilusão exige silêncio. A fé aprende a conviver com perguntas. Por isso, a fé que sobrevive ao exame, à dúvida e à investigação honesta é a única que realmente possui valor. Todo o resto é apenas uma administração sofisticada do medo.
CiFA
— Claudeci Ferreira de Andrade, da cidade onde perguntas não são ameaça; são o primeiro passo de quem leva a verdade a sério.


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