ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (46): A Responsabilidade dos Talentos.
Conheci um homem que desenhava como quem respira — com uma naturalidade de cair o queixo. Vou chamá-lo de Reinaldo. O cara tinha aquela habilidade rara de capturar a alma de um rosto em três ou quatro traços. Sabe aquele dom que bate no olho da gente e a gente saca na hora, antes mesmo de achar a palavra certa para elogiar? Pois é. Nos anos em que frequentamos a mesma congregação, vira e mexe alguém pedia um quebra-galho: um esboço, um cartaz, uma ilustração para o boletim do culto. E o Reinaldo fazia. Com maestria. Sem cobrar um tostão.
Mas, tinha um "porém" que me cortava o coração: ele nunca dava um passo além do que lhe pediam. E não era por falta de oportunidade, não. Era por medo. Ou, quem sabe, por conta de uma teologia meio torta que ele internalizou com o tempo. Aquela velha história, dita nas entrelinhas, de que o talento individual tem que andar de rédea curta na estrutura da igreja; de que ter iniciativa sem carimbo da liderança é puro orgulho; de que servir é só responder quando chamam, nunca agir por conta própria.
O Reinaldo vivia na sala de espera da vida, aguardando o chamado. E se ninguém chamava, ele cruzava os braços. Para garantir o pão de cada dia, virou contador. Não por amor aos números, mas porque o terno de contador era um porto seguro. Afinal, contador tem tabela de honorários, tem CRC, tem manual de funções. Já a arte do desenho? Essa era um salto sem rede de proteção.
Nos últimos anos em que convivemos, seus lápis quase não viam a cor do papel. Mas, o fogo ainda estava lá, escondido sob as cinzas. Lembro que uma vez, por puro acaso, flagrei um esboço que ele rabiscou na margem de um folheto enquanto o culto não começava. Rapaz, era de tirar o fôlego. Quando ele percebeu que eu olhava, engoliu em seco, dobrou o papel num segundo e enfiou no bolso.
Nós nunca tocamos no assunto. Sabe, a parábola que Jesus conta em Mateus 25 dá um nó no estômago da gente justamente porque o servo que enterrou o talento não agiu por maldade. Ele não roubou o senhor, não gastou o dinheiro em farra. Muito pelo contrário! Guardou a moeda com um cuidado cirúrgico, na intenção genuína de devolver cada centavo intacto.
E, no fim das contas, acabou condenado. Por quê? Porque talento não é relíquia de museu para ser preservada; é semente para ser jogada na terra, arriscada, multiplicada. É para entrar na roda, entrar em movimento — mesmo que não haja garantia de retorno, mesmo sem tapinha nas costas da liderança, mesmo sem o guarda-chuva de uma estrutura que valide o passo antes de o pé tocar o chão.
"Sobre o pouco foste fiel, sobre o muito te colocarei" — essa promessa é um xeque-mate. Ela pressupõe que o pouco foi gasto, gasto até o caroço, e não trancado a sete chaves. Exige pele em risco. Exige exposição. O servo fiel teve que dar a cara a tapa com o que recebeu, sabendo, sim, que o tiro poderia sair pela culatra.
O Reinaldo nunca se permitiu errar. E, ironicamente, por isso mesmo nunca se permitiu acertar. Existe uma névoa cinzenta e espessa que insiste em cobrir os talentos enterrados. Não é falta de conhecimento, não se engane. É o excesso de zelo, é o eterno "ainda não é a hora certa", é o "quando Deus quiser, Ele vai abrir as portas" usado como desculpa muleta para quem tem preguiça de bater em qualquer porta.
Essa fumaça tem um cheiro azedo de religião mal digerida. Tem o toque áspero de uma espiritualidade que confunde humildade com paralisia, submissão com inércia, e a sagrada espera em Deus com a pura e simples fuga da responsabilidade.
Deus nos entregou as chaves do "pouco" para que fôssemos fiéis — e fidelidade não combina com imobilidade. Fidelidade é verbo de ação, é movimento. É tomar decisões. É bancar o risco de usar o que recebemos da melhor forma possível, sem ficar implorando por uma autorização externa para dar o primeiro passo.
O tempo passou e perdi o contato com o Reinaldo. Mas, olha, vira e mexe eu ainda me pego pensando naquele esboço dobrado, sumindo dentro do bolso da calça dele. Fico aqui matutando no que teria brotado daquelas mãos se alguém — ou ele mesmo — tivesse lhe soprado no ouvido, numa tarde qualquer de domingo, que o dom não é um tesouro para ficar trancado no cofre.
Que o servo bom de verdade não é o que devolve o talento sem nenhum arranhão. É o que volta para o Senhor com as mãos calosas, calejadas pelo risco, pelo erro e pelo aprendizado de quem gastou a vida usando o que tinha, em vez de passar os dias esperando que alguém lhe desse ordens. O talento que a gente enterra não gera frutos. Apodrece na escuridão.
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