ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (59): A Facilidade de Inventar uma Nova Crença.
Antes de tudo, preciso fazer uma confissão: esta crônica me incomoda. E incomoda justamente porque toca numa tensão que atravessa toda esta série. Durante cinquenta e oito textos, defendi o ministério leigo. Defendi Gilberto, que anunciava o Evangelho nos bairros periféricos sem diploma pendurado na parede. Defendi Benedito, que pregava nas praças sem crachá no peito. Defendi o eletricista da garagem, que ensinava sem precisar da aprovação de uma mesa pastoral. Defendi a Sociedade Espiritual de Cristo, que se reúne sem exigências institucionais, sem CNPJ, sem faixa de lona estampando um nome pomposo.
E agora preciso dizer algo que, à primeira vista, parece contradizer tudo isso. Só parece. Porque, na verdade, trata-se da distinção que esta série inteira vinha construindo nas entrelinhas, ainda que sem jamais formulá-la de maneira explícita.
Tenho um amigo — vou chamá-lo de Rogério — que se converteu há alguns anos. E, pelo menos no começo, sua conversão parecia genuína. Havia nele alguma mudança difícil de descrever, mas impossível de ignorar. As pessoas ao redor percebiam aquilo sem conseguir dar nome ao que viam. Rogério começou a ler a Bíblia com a avidez de quem acaba de descobrir um continente escondido nos mapas antigos.
Seis meses depois, ele tinha uma igreja. Não uma reunião entre amigos. Não um grupo de estudo. Não uma roda de conversa improvisada na cozinha do fundo do quintal. Uma igreja. Com nome escolhido por ele, com ele ocupando o púlpito como pastor e com envelopes de oferta circulando entre os presentes. Pouco depois, passou a cobrar uma entrada sugerida, afinal, era preciso "cobrir os custos".
Perguntei o que o havia levado a fundar uma denominação em tão pouco tempo. Ele respondeu que tinha recebido uma visão. E não, não estou descartando visões. O que questiono é a convicção de Rogério de que essa visão o dispensava de tudo o mais: do aprofundamento paciente, da escuta humilde, da sujeição a pessoas mais experientes, do silêncio pedagógico que precede o ensino responsável. Como se o entusiasmo pudesse substituir a maturidade.
Há uma linha que esta série nunca desenhou com nitidez suficiente. Talvez tenha chegado a hora de traçá-la. Gilberto não cobrava. Não tinha seu nome acima da porta. Nem fazia questão de ser chamado de pastor. Quando alguém perguntava quem ele era, respondia, sem cerimônia, que era técnico de enfermagem. Benedito pregava nas praças porque era ali que as pessoas estavam — não porque a praça fosse seu palco. O eletricista da garagem devolvia o dinheiro que tentavam lhe oferecer.
Rogério abriu uma igreja em seis meses e começou a cobrar entrada. A diferença não está na ordenação. Não está no diploma de teologia. Nem sequer reside, exclusivamente, no conhecimento das Escrituras — embora o conhecimento sincero e responsável nos poupe de muitos tropeços. A diferença está no motivo e na direção do fluxo. Quem serve de forma genuína derrama de si mesmo: tempo, presença, escuta, conhecimento, recursos. Serve sem erguer estruturas destinadas a colocá-lo no centro da cena. Seu movimento é centrífugo: sai de si em direção ao outro.
Já quem inventa uma crença movido pela ambição ou pela vaidade espiritual — às vezes, sem perceber o que o habita — constrói mecanismos que convergem para si. Torna-se referência obrigatória. Faz com que os recursos, a atenção, o reconhecimento e o poder corram em sua direção como rios desaguando sempre no mesmo mar. É a mesma distinção que Paulo estabeleceu ao abrir mão do sustento ministerial. Não porque receber apoio fosse, em si, algo errado, mas porque, naquele contexto específico, isso poderia sugerir que o Evangelho era um produto e ele, seu vendedor.
O problema das crenças novas, erguidas sem raiz, não é a novidade. O próprio Evangelho foi, em seu tempo, escandalosamente novo. O problema é a ausência de "kenose": esse esvaziamento voluntário, esse serviço desinteressado, essa liderança que aponta para além de si mesma em vez de funcionar como espelho que exige contemplação constante.
Um pastor ungido numa noite, que inaugura uma igreja na semana seguinte e já estabelece uma entrada sugerida, não está anunciando o Evangelho. Está, isso sim, testando um modelo de negócio revestido de linguagem sagrada. E então surge a pergunta inevitável: que mensagem estamos transmitindo às gerações futuras? Que qualquer insight espiritual pode ser monetizado? Que uma experiência pessoal com o divino equivale, automaticamente, à autoridade pública sobre a vida dos outros? Que a urgência da mensagem justifica saltar todas as etapas de amadurecimento que tornam essa mesma mensagem digna de confiança?
Gilberto levou anos pregando antes que alguém soubesse seu nome. Rogério estampou o próprio nome na faixa em seis meses. Eis a diferença. Não é a distância entre o leigo e o ordenado. É a distância entre vocação e vaidade. E talvez o mais desconfortável seja admitir que essa fronteira não atravessa apenas igrejas, denominações ou movimentos religiosos. Ela corta o coração humano. Passa por mim. Passa por você e passa por quem lê esta série.
Porque, antes de apontarmos essa distinção nos outros, somos chamados a discerni-la dentro de nós mesmos — naquele lugar silencioso onde só a consciência e Deus conhecem os verdadeiros motivos pelos quais fazemos o que fazemos.
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