ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (16): Quem São os Ladrões de Deus?
A reunião de prestação de contas estava marcada para as sete da noite. Às oito e meia, o pastor ainda não tinha aparecido. Às nove, alguém resolveu ligar. Às nove e quinze, um diácono tomou a palavra e anunciou, com aquela voz cuidadosamente treinada para suavizar constrangimentos, que o pastor havia sido retido por compromissos inadiáveis na sede regional.
A reunião foi remarcada. Depois, remarcada outra vez. Mais tarde, simplesmente desapareceu das conversas, dos avisos e da memória oficial da igreja. Os envelopes, porém, continuaram circulando todo sábado, pontuais como sempre. Nunca soubemos para onde o dinheiro ia. E, olhando para trás, percebo que o mais perturbador nem era a falta de resposta. Era a falta de pergunta. Ninguém perguntava. Ou melhor: quase ninguém se permitia perguntar.
Muitos haviam sido educados a acreditar que questionar o destino das ofertas era, de algum modo, questionar o próprio Deus. No vocabulário silencioso daquele ambiente, transparência soava como desconfiança, e desconfiança era tratada como falta de fé.
Foi anos depois, revisitando as Escrituras sem as lentes do costume, que encontrei uma das passagens mais desconcertantes do Novo Testamento — e, paradoxalmente, uma das mais honestas. Escrevendo aos coríntios, Paulo não escolheu palavras suaves nem procurou abrigo em eufemismos religiosos. Disse simplesmente: "A outras congregações roubei, por aceitar provisões, a fim de ministrar a vós" (2 Co 11:8).
Quando li aquilo pela primeira vez, voltei ao texto. Depois li de novo. E mais uma vez. Paulo — o apóstolo, o missionário, o teólogo, o plantador de igrejas — utilizou a palavra "roubei" para descrever o fato de ter recebido sustento de algumas congregações enquanto servia a outras. Não era uma confissão teatral nem uma demonstração de culpa. Era honestidade crua. Daquelas que dispensam maquiagem teológica. Paulo não escondeu o peso da expressão atrás de frases piedosas. Chamou a coisa pelo nome que julgou adequado e seguiu adiante.
Talvez seja justamente isso que torne o texto tão desconfortável. A sinceridade de Paulo me inquietou mais do que muitas denúncias inflamadas feitas em púlpitos. Porque a crítica não vinha de fora. Não era um opositor atacando a religião. Era alguém de dentro examinando o próprio sistema com uma coragem que, convenhamos, raramente se vê hoje.
Malaquias acusou o povo de roubar a Deus ao reter os dízimos. Mas, quem confronta aqueles que recebem esses recursos e os redirecionam sem transparência? Quem questiona quando o dinheiro muda de destino sem prestação de contas, sem consulta e sem qualquer explicação àqueles que contribuíram de boa-fé? Essa não é uma pergunta retórica. É uma pergunta prática. E continua esperando resposta.
Ao longo dos anos, vi congregações pequenas lutando para sobreviver. Teto com goteiras. Banheiros precisando de reparos. Cadeiras quebradas. Contas atrasadas. Ainda assim, os envelopes chegavam. Os membros contribuíam com fidelidade admirável, enquanto parte dos recursos seguia para projetos distantes que nunca conheceram, construções que jamais visitaram e eventos para os quais sequer foram convidados.
E toda vez que alguém ensaiava uma pergunta, a resposta parecia pronta antes mesmo da dúvida terminar de nascer. Malaquias 3:10 surgia no telão como sentença definitiva — como se a obrigação de entregar fosse absoluta, mas o direito de saber tivesse sido abolido.
A verdade é que ninguém se torna ladrão de uma hora para outra. Primeiro aprende que o silêncio raramente gera resistência. Depois aprende que a confiança dos fiéis funciona como proteção. Mais tarde descobre que poucas coisas blindam tanto quanto a linguagem religiosa. E, quando percebe, já não precisa esconder nada. Porque o pior tipo de roubo não é aquele que acontece na escuridão. Não é o que se esconde atrás de portas fechadas. É o que acontece sob os holofotes. À vista de todos. Com versículo na ponta da língua, discurso santo no púlpito e um envelope estendido na direção de quem acredita que está servindo a Deus.
CiFA
— Claudeci Ferreira de Andrade, da cidade onde a fé não teme perguntas e a transparência não deveria temer respostas.


Nenhum comentário:
Postar um comentário