ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (17): A face oculta dos pastores.
Ela tinha cinquenta e três anos e, até onde sabia, nunca havia duvidado de nada. Conheci-a numa tarde de sábado, depois do culto. O corredor estava cheio daquele burburinho familiar de quem acabara de cumprir uma obrigação considerada sagrada. Pequenos grupos conversavam, sorriam, trocavam cumprimentos, enquanto ela permanecia ali, um pouco à margem, segurando a Bíblia com as duas mãos. Não como quem carrega um livro, mas como quem segura algo precioso demais para deixar cair.
Conversamos sobre fé. Depois sobre dúvidas. E, por fim, sobre aquelas perguntas que ela havia começado a fazer em silêncio, depois de décadas de uma obediência igualmente silenciosa. — "Mas como posso questionar?", perguntou, baixando a voz quase até um sussurro. — "Eles dizem que esta é a única igreja verdadeira de Deus no mundo."
A frase ficou suspensa entre nós. Não era uma convicção que ela tivesse construído por investigação pessoal. Tampouco parecia resultado de uma conclusão cuidadosamente examinada. Era uma certeza recebida pronta, instalada pouco a pouco ao longo dos anos, reforçada por sermões, lições, publicações e pela solenidade de quem afirma falar em nome do próprio Céu.
Guardei aquelas palavras comigo e fui atrás da origem delas. Não precisei procurar muito. A afirmação estava registrada, com nome, data e publicação oficial. Lia-se: "Os Adventistas do Sétimo Dia não são meramente outra igreja ou denominação religiosa. Representam o plano de Deus para os últimos dias, para restauração da original obra evangélica de Jesus" (Trezza, 1972, p. 96). Mais adiante, outra declaração seguia na mesma direção: "Vós e eu não devemos hesitar nem ser tímidos em declarar que a Igreja Adventista do Sétimo Dia é a verdadeira igreja de Deus no mundo hoje" (Pierson, 1975, p. 100).
Li uma vez. Depois reli. Em seguida, fiquei alguns minutos olhando para o teto, como quem tenta enxergar algo que sempre esteve ali, mas nunca havia notado. Não porque aquelas palavras fossem novidade. Pelo contrário. Eram antigas, familiares, repetidas por gerações em escolas sabatinas, púlpitos e salas de aula. O problema é que certas frases, quando revisitadas sem o filtro do costume, revelam o que antes permanecia escondido à vista de todos.
E o que elas revelavam era uma reivindicação de exclusividade absoluta. Uma afirmação que dispensava demonstração porque se sustentava na autoridade de quem a pronunciava. Foi então que percebi algo incômodo. Talvez o roubo mais profundo não seja o do dinheiro. O dinheiro, afinal, deixa rastros. Há envelopes, registros, relatórios, extratos e números. Mesmo quando falta transparência, ainda existe algo concreto a ser investigado.
O roubo mais difícil de detectar é outro. É o roubo da imagem de Deus. Quando uma instituição se coloca como intermediária indispensável entre o ser humano e o Criador; quando sugere, de forma explícita ou velada, que a verdade está confinada aos seus limites; quando transmite a mensagem de que Deus pode ser encontrado apenas pelos caminhos que ela administra, algo muito maior está em jogo.
Porque, nesse momento, ela não está apenas organizando uma religião. Está administrando uma representação de Deus. Está definindo quais características Ele possui, quais exigências faz, quais fronteiras estabelece e, em muitos casos, quais portas devem ser atravessadas para alcançá-Lo. Em outras palavras, passa a controlar a imagem que o fiel enxerga quando pensa no Criador.
E aquela mulher do corredor, com a Bíblia apertada contra o peito e a dúvida escondida na voz, havia passado cinquenta e três anos adorando essa imagem administrada — sem jamais imaginar que poderia procurar a Fonte por conta própria. Quem conhece a história do movimento adventista sabe que suas origens estão ligadas a uma crise profunda. O chamado Grande Desapontamento de 1844 não produziu apenas frustração. Produziu revisão. Produziu reavaliação. Produziu a coragem de admitir que interpretações consideradas certas haviam falhado.
Foi justamente da dúvida que nasceu o movimento. Foi da disposição de reexaminar certezas que surgiu uma nova compreensão dos acontecimentos. Talvez por isso exista uma ironia tão marcante em sua trajetória. A comunidade que nasceu questionando gradualmente passou a desconfiar de quem questiona.
A tradição que surgiu revisando interpretações tornou-se, em muitos contextos, resistente à revisão de suas próprias interpretações. Eis uma das grandes ironias da história religiosa: aquilo que começa como movimento frequentemente termina como instituição; e aquilo que nasce da pergunta, muitas vezes, acaba se protegendo por meio das respostas.
O pastor que desvia dinheiro pode ser identificado. Há documentos. Há auditorias. Há investigações. Há, pelo menos, a possibilidade de demonstrar o ocorrido. Mas, o pastor que sequestra a imagem de Deus trabalha em território muito mais difícil de mapear. Seu instrumento não é o caixa. É a dependência. Sua ferramenta não é o cofre. É o medo. Sua matéria-prima é a consciência humana. E seu produto final é um fiel que desconhece a própria liberdade espiritual.
Um fiel que não sabe que pode se aproximar diretamente da Fonte porque jamais lhe contaram que a portaria foi encerrada naquela sexta-feira em Jerusalém, quando o véu do templo se rasgou de alto a baixo e os intermediários perderam sua função.
A mulher do corredor foi embora sem que eu respondesse à pergunta dela. Talvez porque, naquele momento, eu tivesse percebido que a resposta mais honesta também era a mais desconcertante. Sim, você pode questionar. Mais do que isso: você deve questionar. A fé que teme perguntas dificilmente confia na verdade que afirma possuir.
E o Deus que existe para além das estruturas humanas, dos regulamentos institucionais e das fronteiras denominacionais é infinitamente maior do que qualquer descrição que tentemos aprisionar em manuais ou declarações oficiais. Mais generoso. Mais acessível. Mais livre. E, sobretudo, muito menos interessado em manter pessoas dependentes do que muitos sistemas religiosos gostariam que acreditássemos. Esse Deus não precisa de porteiros.
CiFA
— Claudeci Ferreira de Andrade, da cidade onde a porta nunca esteve trancada; apenas disseram que estava.
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