Ensaio Teológico I(10) O cristão e as más influências: um apelo à ponderação e ao equilíbrio
Por Claudeci Ferreira de Andrade
"Se tenho que errar, que seja exercendo a misericórdia". Deixo essa frase aqui, despida de qualquer citação, porque ela precisa existir antes de qualquer argumento. Ela não é apenas a abertura deste ensaio; é sua espinha dorsal. É, ao mesmo tempo, tese, método e conclusão. Tudo o que vem depois não passa de uma tentativa de desdobrar aquilo que ela já anuncia com simplicidade: entre a dureza do julgamento e o risco da compaixão, prefiro correr o risco de amar.
Havia um homem na periferia da comunidade de fé onde congregava que todos evitavam com uma naturalidade quase ensaiada. Bebia demais. Falava palavrões sem cerimônia. Suas amizades eram vistas com desconfiança, e sua reputação chegava antes dele. Toda vez que aparecia na porta da igreja, instalava-se um daqueles silêncios constrangedores que dispensam palavras, mas dizem muito: você não pertence aqui. Confesso que, por um tempo, também participei desse silêncio. Só anos depois compreendi o que, naquela época, me escapava. Eu imaginava estar protegendo a igreja das más influências; na verdade, estava apenas me protegendo do desconforto de olhar para um ser humano por inteiro, com suas feridas, contradições e possibilidades.
É claro que a preocupação com as influências que nos cercam não é infundada. A Escritura adverte, sem rodeios, que "as más companhias corrompem os bons costumes" (1Co 15:33), e seria ingenuidade fingir que o ambiente não exerce influência sobre o caráter. Ninguém atravessa a vida completamente imune às pessoas com quem convive. O problema começa quando o discernimento, que deveria proteger, cede lugar ao rigorismo, que apenas condena. Entre essas duas posturas existe uma distância enorme — e é justamente nesse espaço que a fé cristã revela sua maturidade ou denuncia sua fragilidade.
Talvez Davi seja um dos exemplos mais honestos que as Escrituras nos oferecem. O mesmo homem que escreveu "afastarei dos meus olhos toda coisa vil" (Sl 101:3) foi também aquele que enviou Urias para a morte na tentativa de encobrir o próprio adultério (2Sm 11). É impossível colocar esses dois episódios lado a lado sem sentir o peso da contradição humana. E talvez seja exatamente esse peso que nos impeça de cultivar qualquer sensação de superioridade moral. Afinal, quem conhece a própria história aprende que ninguém permanece, por mérito próprio, do lado seguro da linha que separa o justo do pecador.
Cristo tornou essa verdade ainda mais evidente no episódio da mulher surpreendida em adultério (Jo 8:1-11). Enquanto todos preparavam as pedras, Ele se abaixou e escreveu algo no chão. O que escreveu, ninguém sabe. O silêncio do texto, curiosamente, fala mais do que muitas explicações. O fato é que, quando levantou a voz, as pedras já pesavam mais na consciência dos acusadores do que nas mãos deles. Um a um, foram embora. A misericórdia não ignorou o pecado, mas também não permitiu que ele anulasse a dignidade da pessoa.
O mesmo Cristo, quando enfrentou a tentação no deserto, não respondeu ao adversário com indignação teatral nem com uma demonstração de força. Respondeu com a Palavra — precisa, sóbria, suficiente (Lc 4:1-13). Não havia arrogância em sua postura, tampouco medo do confronto. Havia discernimento. E talvez seja justamente esse o modelo que tantas vezes esquecemos. O cristão não é chamado a erguer muros para se proteger das más influências, mas a criar raízes profundas o bastante para permanecer firme em meio a elas. Jesus nunca confundiu santidade com isolamento. Pelo contrário: foi justamente porque permaneceu santo que pôde sentar-se à mesa com aqueles de quem todos mantinham distância.
Santo Agostinho compreendeu isso como poucos. Antes de se tornar um dos maiores pensadores da tradição cristã, conheceu de perto o peso das próprias escolhas e das influências que o afastaram de Deus. Por isso escreveu, nas Confissões, que o coração humano permanece inquieto até repousar no Senhor. Sua transformação não começou quando alguém o condenou, mas quando foi alcançado por uma misericórdia que enxergou nele mais do que seus fracassos. Só depois de experimentar essa graça foi capaz de oferecê-la aos outros.
Não por acaso, a tradição cristã preservou ao longo dos séculos uma máxima cuja autoria permanece incerta, mas cuja sabedoria atravessa gerações: in necessariis unitas, in dubiis libertas, in omnibus caritas — nas coisas necessárias, unidade; nas duvidosas, liberdade; em todas, caridade. Poucas frases expressam tão bem o equilíbrio de que a fé necessita. Ela rejeita tanto o relativismo, que dissolve toda convicção, quanto o fanatismo, que transforma convicções em armas. Entre esses extremos existe um caminho estreito, exigente e, muitas vezes, desconfortável. É justamente ali que o discípulo de Cristo é chamado a caminhar.
Por isso, o cristão diante das más influências não é convidado a construir uma distância confortável, mas a cultivar profundidade. Profundidade de caráter, de fé e de comunhão com Deus. Raízes profundas sustentam a presença sem submissão, o contato sem contaminação, a compaixão sem conivência e a firmeza sem arrogância. Não é um equilíbrio fácil. Aliás, talvez seja uma arte que ninguém domine completamente. E, curiosamente, quem acredita já dominá-la costuma estar mais perto do erro do que imagina.
Volto, então, ao ponto de partida, porque algumas verdades merecem ser repetidas. Se tenho que errar, que seja exercendo a misericórdia. Afinal, desse lado do erro ainda existe espaço para o arrependimento, para o reencontro e para a graça. E, quem sabe, também para encontrar alguém que, como eu e você, ainda está aprendendo a caminhar.


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