ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (13): O Tempo e a Mensagem Esquecida.
Ele tinha setenta e três anos e nunca havia faltado a um culto de sábado. Conheci-o numa tarde comum de semana. Estava sentado à mesa da cozinha, com uma Bíblia aberta diante de si e uma xícara de chá que já havia esfriado há muito tempo. Parecia nem notar. Com aquele orgulho discreto de quem acredita estar mostrando um tesouro, puxou uma velha caixa de sapatos e a colocou sobre a mesa. Dentro dela havia décadas de recibos de dízimo, cuidadosamente organizados por ano. Os papéis amarelados pelo tempo pareciam relíquias de uma vida inteira dedicada à fidelidade religiosa. Então ele sorriu e disse, quase como quem recita uma confissão de fé: "Nunca deixei de trazer ao tesouro". Malaquias 3:10 lhe saía dos lábios com a naturalidade de quem pronuncia o próprio nome.
Enquanto observava aquela coleção de comprovantes, não consegui evitar um pensamento: alguém precisava contar a ele o que aconteceu no dia em que o sol se escureceu. Porque naquele instante singular da história — quando o céu se fechou em pleno dia, a terra estremeceu e o véu do templo foi rasgado de alto a baixo (Lc 23:45) — não terminou apenas uma vida. Terminou uma era. Algo muito maior do que uma execução estava acontecendo ali. O sistema inteiro de acesso a Deus, construído ao longo de séculos por meio de sacerdotes, sacrifícios, rituais, tesourarias e mediações humanas, chegava ao seu ponto de encerramento. O caminho foi aberto de uma vez por todas. Sem intermediários. Sem barreiras. Sem envelopes. Sem recibos.
E vale a pena notar um detalhe que os evangelistas registraram com cuidado: o véu não se desgastou, não se abriu lentamente nem escorregou dos suportes. Ele rasgou. E rasgou de cima para baixo. Não foi um gesto humano nascido da revolta dos homens. Não foi alguém embaixo puxando o tecido. O movimento começou do alto. A iniciativa partiu de Deus. O rasgo foi uma declaração silenciosa, porém definitiva: aquilo que antes separava já não separava mais.
Malaquias não poderia saber disso. Como poderia? Ele escreveu entre 430 e 420 a.C., num contexto completamente diferente. Falava a uma comunidade específica, recém-saída do exílio, tentando reconstruir a vida religiosa e social que havia sido abandonada durante o cativeiro. Sua mensagem respondia a uma necessidade concreta e imediata. Era um remédio para uma enfermidade daquele momento. Não uma prescrição eterna destinada a atravessar intacta todos os séculos. Além disso, o próprio Deus que Malaquias anunciava já havia deixado pistas de que nenhum sistema material seria permanente. Pela boca de Isaías, declarou: "O céu é o meu trono, e a terra o escabelo dos meus pés. Que casa me haveis de fazer?" (Is 66:1).
A pergunta continua ecoando. Que casa? Que tesouro? Que endereço fixo poderia conter Aquele que não cabe nem mesmo nos limites do universo? Por isso, a mensagem econômica de Malaquias — e uso essa expressão sem ironia e sem desrespeito — cumpriu uma função histórica específica. Serviu ao seu propósito e encontrou seu limite quando o véu foi rasgado. O que atravessou os séculos não foi a campanha de arrecadação. O que permaneceu vivo foi a direção para a qual o profeta apontava. Sua mensagem mais duradoura não estava na tesouraria, mas na esperança. Não estava nos depósitos, mas na promessa de um Elias que viria.
E quando esse Elias chegou, veio apontando para Jesus. Não para cofres. Não para arrecadações. Não para estruturas religiosas. Apontou para Cristo. Foi então que o templo mudou de endereço. Já não estava concentrado em pedras, muros ou repartições sagradas. Passou a habitar o coração humano. Um santuário sem portas de acesso, sem horário comercial, sem cobrança de manutenção e sem necessidade de comprovantes arquivados numa caixa.
O homem da caixa de sapatos me ouviu sem interromper. Permaneceu em silêncio por alguns instantes. Depois voltou os olhos para aqueles recibos envelhecidos. Havia algo em sua expressão que não consegui nomear naquele momento. Não era raiva. Também não era arrependimento. Talvez fosse a mistura estranha de lucidez e surpresa que invade alguém quando percebe, ao mesmo tempo tarde demais e cedo o suficiente, que passou anos guardando as coisas certas na caixa errada.
Então ele fechou a tampa devagar. Sem pressa. Sem discurso. Sem defesa. Apenas fechou.
E, sobre a mesa, o chá continuava frio. Como se o tempo inteiro estivesse esperando aquele momento para dizer alguma coisa.
CiFA
— Claudeci Ferreira de Andrade, cidade de chegada para quem finalmente entendeu que o véu rasgou — e não precisa ser remendado.
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