ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (24): A Luz da Aurora na Senda dos Justos.
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Era pouco depois das cinco da manhã quando acordei sem saber exatamente por quê. O corpo despertou antes da vontade — daquele jeito estranho que, vez ou outra, nos visita, quando algo lá dentro insiste em nos tirar da inércia. Levantei-me e fui até a janela. O céu ainda parecia indeciso, suspenso entre a noite que se despedia e o dia que ensaiava chegar. No horizonte, uma fina faixa de luz surgia tímida, quase vacilante, como quem pede licença antes de entrar.
Fiquei observando aquela cena por um tempo impossível de medir. Foi nesse intervalo silencioso — nem escuro nem claro, nem dormindo nem completamente desperto — que uma pergunta antiga voltou a me acompanhar: o que significa, de fato, comunicar a fé? Não transmiti-la como quem entrega uma encomenda. Não impô-la como quem finca uma placa à beira da estrada. Mas, comunicá-la em seu sentido mais profundo, mais humano e mais original. A palavra vem de communis: tornar comum, partilhar, dividir aquilo que, de alguma forma, pertence a todos.
Enquanto observava a aurora avançar, pensei nos comunicadores que cruzaram meu caminho ao longo da vida. Alguns falavam alto, exibiam certezas inabaláveis e pareciam ter resposta para tudo — até mesmo para perguntas que ninguém havia feito. Terminavam cada conversa exatamente como haviam começado: intactos, impermeáveis, sem que nenhuma dúvida lhes arranhasse a superfície. Confesso que esses nunca me disseram muita coisa. Talvez porque uma fé que não carrega marcas de luta, nem vestígios de questionamento, se pareça mais com ornamento do que com convicção.
Os que realmente me marcaram eram diferentes. Falavam menos e ouviam mais. Havia neles uma atenção quase palpável, dessas que fazem a gente se sentir verdadeiramente visto. E quando finalmente diziam alguma coisa, não soava como uma ordem nem como uma sentença definitiva. Era mais um gesto de quem aponta uma direção e diz, com simplicidade: olha, eu passei por ali, e valeu a pena.
Talvez seja justamente isso que Provérbios chama de senda dos justos. Não uma avenida iluminada por holofotes nem uma estrada livre de pedras e desvios. É uma trilha que vai clareando aos poucos, passo após passo. Como a luz daquela manhã diante dos meus olhos. Ela não chegou inteira nem de uma só vez. Foi crescendo devagar, quase sem ser notada, até que, de repente, eu já conseguia distinguir as árvores do quintal, os pássaros pousados nos galhos e as gotas de orvalho repousando sobre as folhas.
A espiritualidade autêntica mora exatamente aí. Não na chegada, mas no processo de clarear. Não na posse absoluta das respostas, mas na coragem de continuar caminhando quando a luz ainda é insuficiente para revelar toda a paisagem. Afinal, a fé raramente ilumina o caminho inteiro; quase sempre ela mostra apenas o próximo passo.
Por isso, gosto de pensar no comunicador da fé — ou no facilitador, como prefiro chamá-lo — não como alguém que carrega um grande farol para iluminar a jornada dos outros. Não. Ele carrega, quando muito, um simples fósforo. E o risca com cuidado, perto de quem ainda atravessa a escuridão.
Porque cada alma precisa acender a própria chama. Esse é o ponto. Sempre foi. Quando finalmente me afastei da janela, o sol já dominava o céu. A manhã havia chegado por completo, sem que eu percebesse o instante exato em que a aurora se transformou em dia. E talvez seja assim com quase tudo o que realmente importa. As mudanças mais profundas raramente fazem alarde. Elas acontecem em silêncio, enquanto nossa atenção repousa em outra coisa. Ou, quem sabe, enquanto estamos apenas vivendo o momento, plenamente presentes, permitindo que a luz faça, aos poucos, o seu trabalho.
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