ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (28): Os Amadores de Cristo.
Conheci um homem que nunca pregou um sermão. Não tinha microfone, não tinha púlpito, não possuía aquela voz capaz de encher um auditório. Trabalhava de madrugada em um mercado de bairro, repondo prateleiras enquanto o restante da cidade dormia. Nos fins de semana, visitava um lar de idosos numa rua sem importância aparente, numa cidade que ninguém escolhe conhecer por turismo. Levava frutas. Às vezes, levava apenas seu tempo — e talvez não exista oferta mais preciosa do que essa.
Nunca o ouvi citar uma passagem bíblica em voz alta. Nunca o vi disputar atenção nem buscar destaque. Ainda assim, havia nele algo que só consegui compreender muitos anos depois: ele não parlamentava com o mal. Não negociava princípios. Não fazia cálculos sobre o custo de cada boa ação antes de praticá-la. Quando havia algo certo a ser feito, simplesmente fazia. E fazia com aquela simplicidade desconcertante de quem não espera reconhecimento porque jamais considerou o reconhecimento uma recompensa necessária.
É isso que chamo de amador de Cristo. E vale a pena parar um instante nessa palavra, porque ela carrega uma profundidade que quase sempre passa despercebida. Amador não é um elogio menor; pelo contrário, talvez seja uma das descrições mais nobres da fé vivida em sua essência. O amador não age por ofício, não serve por salário e não encontra sua identidade em títulos ou posições. Ele age por amor — e, no fim das contas, o amor é a única motivação capaz de permanecer de pé quando todas as outras razões desmoronam. O amador continua servindo quando não há plateia, quando as câmeras estão desligadas e quando ninguém está por perto para registrar, comentar ou aplaudir.
Esses homens e mulheres existem por toda parte. Aliás, talvez estejam mais próximos do que imaginamos. Quase sempre passam despercebidos justamente porque não constroem ao redor de si uma vitrine. Não fazem da bondade um espetáculo. Estão na enfermaria segurando uma mão cansada. Estão na escola pública ouvindo um aluno que ninguém mais ouviu. Estão na fila do banco ajudando uma senhora a preencher um formulário. Estão presentes em conversas silenciosas que jamais aparecerão em qualquer registro, mas que mudaram o rumo de alguém para sempre.
A espiritualidade que carregam não se parece com um hino perfeitamente ensaiado. Ela tem a forma de um gesto repetido sem alarde, dia após dia, ano após ano, até que o gesto se transforme em hábito, o hábito se torne caráter e o caráter, por fim, vire testemunho.
Não estou falando de pessoas perfeitas. Também não estou descrevendo santos de vitral. Estou falando de gente comum que, em algum momento da caminhada, fez uma escolha silenciosa, porém definitiva: a escolha de não ceder. Não parlamentar. Não se dobrar.
O homem do mercado já morreu. Pouca gente compareceu ao velório. Nenhum jornal publicou uma nota. Nenhuma homenagem foi organizada. Para a maioria das pessoas, sua partida passou quase despercebida.
Mas, a verdade é que ele continua presente. Está presente nas pessoas espalhadas pela cidade que ainda carregam algo do que receberam dele: um gesto de bondade, uma palavra dita na hora certa, um conselho que evitou uma queda, uma presença que acolheu sem exigir nada em troca. De alguma forma, ele continua vivendo nos frutos que deixou pelo caminho.
Isso é luz. Não a luz que aparece nas fotografias, nem a que busca os holofotes. É a outra. A luz discreta que permanece quando os aplausos cessam, quando a memória das imagens se apaga e quando ninguém mais está olhando. E talvez seja justamente por isso que ela dure tanto. Porque, no fim, é essa — e somente essa — a luz que realmente ilumina.


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