Ensaio Teológico I (2) A Sabedoria que Vem de Deus.
Há uma cena que me acompanha desde que comecei a escrever estes ensaios. Ela volta de tempos em tempos, como quem bate à porta da memória e se recusa a ir embora. Vejo um rei — o mais sábio que Israel já conheceu — sentado entre setecentas esposas e trezentas concubinas, levantando altares para deuses estrangeiros no mesmo monte onde antes havia erguido o templo dedicado ao Deus único. É impossível não pensar em Salomão. O homem que pediu sabedoria e recebeu muito mais do que havia pedido; no entanto, não conseguiu usá-la para guardar o próprio coração.
Confesso que penso nele mais vezes do que gostaria. Talvez porque enxergue, em sua história, algo da minha. Eu também, como tantos outros, já confundi conhecimento com obediência. Já imaginei que compreender a vontade de Deus fosse suficiente para vivê-la. Com o tempo, descobri que não é. Saber o caminho nunca foi o mesmo que caminhar por ele.
É justamente por isso que, com todo o respeito que tenho pelos ensinamentos bíblicos, proponho uma reflexão crítica. A ideia de que a simples leitura da Bíblia garante sabedoria precisa ser examinada com mais cuidado do que normalmente fazemos. É verdade que seus autores foram inspirados por Deus e que, por meio de seus escritos, se revela o plano divino de salvação para a humanidade. Mas, inspiração não é sinônimo de impecabilidade. Deus inspira, mas não anula a liberdade humana. Nem todo aquele que transmitiu palavras de sabedoria conseguiu vivê-las até o fim.
Basta olhar para as próprias páginas das Escrituras. Davi, chamado de homem segundo o coração de Deus, arquitetou a morte de Urias para encobrir seu adultério com Bate-Seba. Salomão, autor de Provérbios, escreveu que o temor do Senhor é o princípio da sabedoria, mas permitiu que seu coração fosse lentamente desviado pelas mulheres estrangeiras que amou mais do que à aliança que havia jurado guardar. Charles Spurgeon, pregando sobre Salomão em 1862, resumiu essa tragédia numa frase que ainda hoje me atravessa: o rei "não aproveitou a graça dada por Deus para resistir à tentação e permanecer fiel." É uma observação desconcertante, porque revela uma verdade da qual ninguém escapa: o problema nem sempre é a falta de sabedoria. Muitas vezes, é a distância entre aquilo que sabemos e aquilo que escolhemos viver.
Talvez seja exatamente aí que resida o equívoco mais frequente entre nós — os fariseus modernos de quem tratei no primeiro ensaio desta série. Alimentamos a ilusão de que decorar versículos nos torna mais sábios, de que dominar a linguagem bíblica nos aproxima automaticamente de Deus. Mas, a sabedoria das Escrituras nunca foi mera acumulação de conhecimento. Ela nasce do temor do Senhor, da reverência que molda o caráter, da obediência que brota do íntimo e se sustenta pela ação do Espírito. Não é à toa que Paulo, escrevendo aos colossenses, lembra que é Deus quem nos capacita, por meio do Espírito, a compreender e viver Sua vontade. A verdadeira sabedoria não floresce na autoconfiança da erudição religiosa, mas na dependência humilde da graça.
Martinho Lutero dizia que a Bíblia é uma carta de Deus, escrita para ensinar tudo o que precisamos saber para esta vida e para a eternidade. Concordo com ele. Mas, uma carta só transforma quem a lê quando encontra um coração disposto a obedecer. Do contrário, permanece apenas como texto admirado, estudado, citado e até defendido — sem jamais ser encarnado. Salomão conhecia a carta. Sabia interpretá-la com brilho. O que lhe faltou não foi inteligência, mas perseverança para viver aquilo que ensinava.
Por isso, chego ao fim deste segundo ensaio exatamente onde, talvez, devesse ter começado. A sabedoria que vem de Deus não é o prêmio reservado a quem acumula mais conhecimento, nem o troféu de quem cita mais versículos. Ela é fruto de um coração que teme ao Senhor no sentido mais profundo e reverente da palavra. É uma sabedoria que primeiro ilumina as próprias sombras antes de denunciar a escuridão alheia; que reconhece as quedas de Davi, de Salomão e, inevitavelmente, as minhas também. Só depois disso é que ela se torna capaz de estender a mão ao próximo, não para condená-lo, mas para caminhar com ele na mesma direção da graça.


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