ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (32): Além do Dízimo — Uma Despedida Necessária
Chega um momento em que a gente precisa parar de dizer a mesma coisa. Não porque ela tenha deixado de ser verdade. Pelo contrário. Mas, porque insistir nela mais uma vez seria correr o risco de trair a própria verdade — transformá-la em fórmula, em bordão, em ritual; exatamente naquilo que passamos tantas crônicas denunciando. Há uma ironia sutil, quase imperceptível, nesse processo: pelo excesso de repetição, alguém pode acabar se tornando o fariseu do próprio argumento. E convenhamos, seria um desfecho amargo para uma reflexão que nasceu justamente para questionar os automatismos da fé.
Por isso, esta será a última vez que falo sobre o dízimo nesta série. E quero fazê-lo com a serenidade de quem conclui uma caminhada e com a precisão que o tema merece. Há uma pergunta que nunca me abandonou. Ela me acompanha há anos, atravessando sermões, estudos bíblicos e debates intermináveis. Curiosamente, nunca ouvi uma resposta que a enfrentasse com total honestidade: se o dízimo era a expressão máxima de fidelidade, por que Jesus exigiu fidelidade justamente dos homens que dizimavam com perfeição?
A resposta está diante dos nossos olhos em Mateus 23, e sua força está justamente na simplicidade. Os fariseus davam o dízimo da hortelã, do endro e do cominho com uma precisão quase obsessiva. Pesavam as ervas, contavam as folhas, calculavam tudo. Nada escapava ao controle. Mas, enquanto mantinham os dedos ocupados com os detalhes do ritual, deixavam escorrer pelas mãos aquilo que realmente importava. E o próprio Cristo apontou o problema: justiça, misericórdia e fidelidade.
Não fidelidade ao rito. Fidelidade ao próximo. Aí está o nó que muitos preferem não desatar. É possível ser irrepreensível na forma e completamente ausente na essência. É possível cumprir todas as exigências visíveis e, ainda assim, falhar naquilo que Deus realmente procura. Pode-se pagar em dia e viver em atraso com o amor, com a compaixão e com a responsabilidade para com o outro. Quando o dízimo se transforma em fim e não em meio, ele deixa de apontar para Deus e passa a funcionar como um anestésico espiritual: oferece a sensação de dever cumprido enquanto as raízes mais profundas do egoísmo continuam crescendo silenciosamente sob a superfície.
Deus nunca precisou do dinheiro dos fariseus. Na verdade, nunca precisou do dinheiro de ninguém. O que as Escrituras revelam, página após página, é algo muito mais exigente: Deus busca corações livres. Corações desprendidos o suficiente para repartir sem transformar a generosidade numa equação. Pessoas que servem sem esperar reconhecimento. Pessoas que, diante de uma necessidade concreta, não perguntam primeiro quanto devo dar, mas o que essa pessoa precisa.
Talvez por isso eu me lembre tanto de Seu Artur cedendo um quarto sem cobrar nada de ninguém. E também de Dona Conceição, pagando o dízimo antes de comprar a cesta básica para casa — não movida pelo amor, mas pelo medo. A diferença entre os dois não aparece em relatórios financeiros, não cabe em gráficos nem em planilhas de tesouraria. Mas, cabe, inteira e sem sobras, na distinção que Jesus fez naquele pátio de Jerusalém, poucos dias antes da cruz.
E é justamente por isso que este ciclo se encerra aqui. Não porque o assunto tenha se esgotado. Assuntos importantes raramente se esgotam. Mas, porque o essencial já foi dito, e continuar repetindo as mesmas palavras seria desperdiçar o silêncio que toda boa conclusão merece.
Há outros silêncios me esperando. Outras perguntas que ainda ecoam pelos corredores das igrejas. Outras verdades que custam caro demais para serem ditas sem cuidado. Existem histórias sem nome, rostos esquecidos e feridas invisíveis que ainda não encontraram espaço nestas crônicas.
A caminhada continua. E, para continuar, é preciso leveza. Não o peso dos dez por cento, mas a liberdade de quem corre sem correntes. A liberdade de quem aprendeu que a fé não se mede por cálculos, e sim pela direção para a qual o coração se move. O horizonte, enfim, já não é o mesmo. E talvez seja exatamente isso que significa seguir adiante.
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