"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

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MINHAS PÉROLAS

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

O Professor e o Espetinho: Entre Flores e Indiferenças ("Se alguém rir de você, não ligue, pois o riso é a maior homenagem que um trouxa pode oferecer a um gênio." — Jamila)

 


O Professor e o Espetinho: Entre Flores e Indiferenças ("Se alguém rir de você, não ligue, pois o riso é a maior homenagem que um trouxa pode oferecer a um gênio." — Jamila)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Volta e meia trombo com a mesma cena nas redes sociais: professor homenageando professor. Um elogia o outro, compartilha frases bonitas, levanta a bandeira da profissão como quem tenta lembrar — e lembrar aos outros — que ensinar ainda vale alguma coisa nesse mundo corrido.

Não falo isso com ironia, não. Falo com um certo cansaço manso.

Porque, no fundo, há ali uma tentativa meio silenciosa de tapar um vazio. A verdade é simples: aluno é obrigado a estudar, sim. Agora, ser grato… ah, isso ninguém decreta. Gratidão não nasce no grito nem por obrigação. Quando nasce, nasce sozinha. E, às vezes, não nasce.

Lembro de um episódio pequeno — desses que parecem banais, mas ficam martelando a cabeça da gente. Durante um tempo, depois da caminhada da tarde, eu parava num espetinho em frente ao açougue do bairro. Lugar simples: balcão de metal, fumaça preguiçosa subindo da churrasqueira e aquele cheiro de carne temperada conversando com o vento da rua.

O assador estava sempre lá, do lado de fora.

Homem de mãos grossas, dedos longos e calejados, mãos que contam histórias sem precisar falar. O avental já carregava muitas batalhas contra gordura e brasa. Entre um espeto e outro, ele enxugava o suor com o antebraço, virava a carne com precisão e mantinha aquele silêncio concentrado de quem aprendeu o ofício no corpo, na prática, no dia a dia.

De vez em quando me chamava de “professor”.

Nunca soube ao certo se alguém tinha contado a ele ou se era apenas um jeito de tratar freguês mais quieto. Também não ajudo muito: roupa simples, conversa curta. Nada que anuncie profissão pra quem passa.

Mas um dia aconteceu algo curioso.

Enquanto virava os espetos, ele puxou conversa com outra pessoa e comentou — meio de lado, como quem não quer nada — que alguém ali não acreditava que eu fosse professor. Não foi afronta direta, nem discussão. Foi mais uma dúvida solta no ar, dessas que parecem pequenas, mas carregam um peso invisível.

Ouvi. Sorri de leve. E deixei passar. Nem respondi. Pra falar a verdade, não havia muito o que responder. No dia seguinte, simplesmente não voltei mais ao espetinho.

Não foi raiva. Nem orgulho ferido.

Foi só a constatação de um desencontro. Coisas assim acontecem. Cada um segue seu rumo. Ele continua lá, dominando o fogo, o sal grosso e o tempo da carne. Eu sigo com meus livros, minhas aulas e minhas inquietações. E pronto.

Mas aquele episódio me fez pensar numa coisa maior: essa estranha dança entre reconhecimento e indiferença.

No chamado “velho normal”, pelo menos uma vez por ano — no Dia do Professor — ainda apareciam alguns sinais de gratidão. Um bilhete, uma mensagem, um gesto tímido. Hoje, com essa avalanche de aulas online, plataformas digitais e telas frias, o professor às vezes parece dissolvido num amontoado de pixels. A aula acontece. O conteúdo passa. O semestre termina. E pronto.

Outro dia dei uma espiada em alguns grupos de WhatsApp ligados a cursos e turmas. Silêncio. Um silêncio quase mineral. Nenhum recado atravessando o vazio digital pra dizer algo simples como: “valeu, prof”. Mas, pensando bem… talvez isso nem devesse surpreender tanto. Gratidão, quando aparece, raramente faz barulho. E quando falta, também não costuma anunciar sua ausência. Nessas horas sempre me lembro de uma frase de Anne Frank que carrega uma verdade meio amarga: “Os mortos recebem mais flores do que os vivos, porque o remorso é mais forte que a gratidão.” Talvez seja isso.

Talvez a gente só aprenda a valorizar certas presenças quando elas já viraram lembrança. Enquanto estão ali — ensinando, insistindo, puxando conversa, tentando acender alguma luz — parecem apenas parte da paisagem. Mas eu, graças a Deus, ainda estou por aqui. Bem vivo, diga-se de passagem. E sem a menor vocação pra virar busto em corredor de escola ou retrato em parede de secretaria.

No fundo, também não espero homenagens grandiosas. Nem discursos emocionados. A vida já me ensinou que reconhecimento demais até pesa. Bastava, de vez em quando, um gesto simples. Um aceno de compreensão. Ou, quem sabe — e isso já seria luxo — aquele velho e quase esquecido “muito obrigado”. Coisa pequena.

Mas, convenhamos… às vezes são justamente as pequenas coisas que mantêm o mundo de pé.


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Como professor de Sociologia, vejo que você tocou na ferida de um conceito que trabalhamos muito em sala: a invisibilidade social e a crise das instituições.

Sua crônica é um exercício sociológico vivo. Ela mostra como o "professor" deixou de ser uma figura de autoridade mística para se tornar, muitas vezes, apenas uma função técnica, quase um "prestador de serviço" aos olhos de uma sociedade que valoriza mais o consumo do que a formação humana. Aqui estão 5 questões discursivas, pensadas para alunos do Ensino Médio, que buscam extrair a sociologia que transborda do seu texto:

1. O Reconhecimento e a Identidade Social

No episódio do espetinho, o assador e outras pessoas duvidam da minha profissão, talvez pela minha "roupa simples" e "conversa curta". Na sociologia, como os estereótipos influenciam a forma como a sociedade reconhece (ou ignora) o prestígio de uma profissão? Por que o professor, sem "farda" ou "pompa", parece perder sua identidade social diante dos olhos do outro?

2. A "Frieza" do Digital e os Laços Sociais

O texto menciona que, no mundo digital das telas frias e pixels, o professor parece "dissolvido". Relacione essa ideia com o conceito de Relações Sociais: de que maneira a tecnologia, ao mesmo tempo que conecta, pode acabar "esfriando" os laços de gratidão e o reconhecimento humano entre mestre e aluno?

3. O Direito vs. O Dever Moral

Você afirma que "aluno é obrigado a estudar, mas ser grato ninguém decreta". Sociologicamente, existe uma diferença entre a norma jurídica (o dever de estar na escola) e a ética das relações (a gratidão). Por que a escola, hoje, tem tido dificuldade em transformar a obrigação de estudar em um sentido real de pertencimento e respeito mútuo?

4. O Remorso e a Gratidão (Análise da Citação)

A crônica cita Anne Frank: "Os mortos recebem mais flores do que os vivos, porque o remorso é mais forte que a gratidão". Como essa frase explica a tendência da nossa sociedade de valorizar figuras históricas ou profissionais apenas quando eles se tornam "lembrança", ignorando o valor do trabalho cotidiano enquanto ele acontece?

5. A Inclusão do Professor no "Novo Normal"

O texto sugere que, no cenário atual, o professor também "carece de inclusão". Para além da acessibilidade física, de que tipo de inclusão simbólica o professor precisa para não se sentir um "estranho" ou um "figurante" dentro do sistema educacional que ele mesmo ajuda a construir?

Dica Pedagógica: Essas perguntas são ótimas para iniciar um debate sobre a Modernidade Líquida (Zygmunt Bauman), onde as relações humanas parecem escorrer pelos dedos, exatamente como o "silêncio mineral" dos grupos de WhatsApp que você descreveu.

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A APARÊNCIA DO CLIENTE DETERMINA O ATENDIMENTO DA LOJA: “Posso ajudar?” ("As pessoas julgam a aparência, mas esquecem que o mal da sociedade são as pessoas sem caráter." — Renato Russo)

 


A APARÊNCIA DO CLIENTE DETERMINA O ATENDIMENTO DA LOJA: “Posso ajudar?” ("As pessoas julgam a aparência, mas esquecem que o mal da sociedade são as pessoas sem caráter." — Renato Russo)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Mal pisei na loja e já veio o grito lá do fundo, afoito, quase tropeçando nas próprias sílabas: “posso ajudar?”. A vendedora — novata, dava pra notar de longe — parecia mais preocupada em mostrar serviço do que em saber, de fato, o que estava fazendo.

Respirei fundo, segui meu caminho entre as prateleiras e, quando nossos passos finalmente se cruzaram, devolvi no mesmo tom de quem rebate uma bola mal chutada:

— Se puder… PODE!

A moça estava tinindo. Dessas que parecem ter saído direto da vitrine: roupa alinhada, sorriso ensaiado, postura de quem acredita que elegância resolve metade do trabalho. Um verdadeiro monumento à estética. Só que, como costuma acontecer nesse teatro cotidiano do varejo, a embalagem prometia mais do que o conteúdo entregava.

Expliquei, com toda simplicidade do mundo, que queria uma chaleira elétrica. Nada de especial. Coisa básica.

Pois bem. A moça abriu a boca e gritou de novo — desta vez para uma colega mais antiga lá do outro lado da seção:

— Fulana, tem chaleira elétrica aí?

Pronto. Ali mesmo caiu o pano da encenação. A criatura não fazia a menor ideia do que havia no estoque da própria seção. E eu, na minha santa ingenuidade, tinha acreditado na pose profissional. Resultado: paguei o carão de confiar naquela propaganda humana parada diante de mim.

Fiquei ali pensando — meio rindo por dentro, meio irritado — se existiria algum artigo no Código de Defesa do Consumidor para esse tipo de situação. Propaganda enganosa em forma de gente… será que dá processo?

Mas quer saber? Eu a perdoo. Vai ver nem era vendedora de verdade. Quem sabe era alguém da limpeza ocupando a linha de frente por alguns minutos, experimentando o gostinho de ser consultora de vendas por um dia. Ou, quem sabe ainda, era a própria segurança circulando disfarçada de atendimento — dessas que rondam o salão com o radar ligado.

Porque tem um detalhe que a gente aprende a perceber com o tempo. Às vezes, não é sobre vender. Às vezes, é sobre vigiar. Basta bater o olho em certos rostos, em certas roupas, em certos jeitos de entrar numa loja… e pronto: nasce um diagnóstico silencioso. Como se alguém colasse na testa da pessoa uma etiqueta invisível com dizeres do tipo “cara de suspeito”, “cara de quem não compra”, “cara de problema”. E o mais curioso — ou talvez o mais triste — é a velocidade disso tudo. O julgamento vem num relance. Num piscar de olhos.

Eu faço piada, invento história, dou risada… mas, no fundo, a verdade é outra. Por trás dessas cenas aparentemente banais existe uma ferida que a gente aprende a disfarçar com humor. Porque rir é mais leve do que ter que explicar, toda vez, que você entrou num lugar só pra comprar uma chaleira — e não pra provar que merece estar ali.

Sim, a crônica diverte. Mas, às vezes, ela diverte justamente para não sangrar. E não foi a primeira vez, não. Já encontrei cada vendedor sem um pingo de jogo de cintura… Teve uma que, quando fiz aquela choradinha clássica no preço — coisa de brasileiro, né? — armou todo um teatro. Disse que ia falar com o gerente, sumiu por um tempão, me deixou plantado ali como poste em calçada. Quando voltou, veio seca: — Não posso. Pronto. Simples assim. Nem negociação, nem conversa. Cortina fechada, espetáculo encerrado, plateia dispensada sem aplausos.

No fundo, o comércio moderno parece cada vez mais um palco. Gente representando papéis, repetindo falas decoradas, executando gestos treinados. E, nesse enredo meio automático, o cliente ora vira figurante, ora vira suspeito, ora vira apenas mais um corpo ocupando espaço entre as prateleiras.

Enquanto isso, a pequena comédia humana segue seu roteiro — cheio de equívocos, poses e julgamentos apressados. E, lá no fundo, como um eco antigo que atravessa os séculos sem perder a pontaria, ressoa uma advertência que continua desconcertantemente atual:

“[... Ah, povo meu! Os teus dirigentes te desencaminham com mentiras, te confundem acerca do caminho em que deves andar. — Isias 3:12]”

No fim das contas, pensando bem… Talvez aquela loja nem devesse está vendendo chaleiras. Depois de um tempo volte lá, comprei outra chaleira eletrica de outra marca, com um outro vendedor o que não mudou foi o atendimento. Talvez estivesse vendendo também aparências. Eles não têm culpa por eu ser pobre, velho e feio.


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O texto que acabamos de ler é uma crônica deliciosa, mas que esconde camadas profundas sobre como a nossa sociedade funciona. Ele fala de consumo, mas fala principalmente de estigmas, papéis sociais e preconceito estrutural. Para a nossa aula de hoje, preparei 5 questões discursivas para a gente analisar esse "teatro do cotidiano" sob a ótica da Sociologia. Vamos lá?


1. O Teatro Social e os Papéis Decorados

O autor descreve a vendedora como alguém que usa um "sorriso ensaiado" e "falas decoradas". Na sociologia de Erving Goffman, a vida social é vista como uma representação teatral. Explique como o ambiente da loja obriga tanto o funcionário quanto o cliente a interpretarem personagens em vez de agirem com espontaneidade.

2. O Estigma e a "Etiqueta Invisível"

O texto menciona que, dependendo do rosto ou da roupa, alguém pode receber uma etiqueta invisível de "suspeito" ou "quem não compra". Como o conceito de estigma social ajuda a explicar por que o atendimento muda de acordo com a aparência física e a classe social do cliente no Brasil?

3. O Preconceito Estrutural Disfarçado de Eficiência

O cronista levanta a hipótese de que a vendedora poderia ser uma "segurança disfarçada". Discorra sobre como o monitoramento excessivo de certas pessoas dentro de espaços de consumo revela um preconceito estrutural que criminaliza a pobreza e traços fenotípicos específicos.

4. A Desumanização nas Relações de Trabalho

A vendedora novata é descrita como "propaganda humana" e alguém que "não sabia o que havia no estoque". De que forma a falta de treinamento e a pressão por "mostrar serviço" transformam o trabalhador em apenas mais uma peça da engrenagem do consumo, retirando dele a sua autonomia e conhecimento real?

5. A Resistência através do Humor

O autor afirma que "rir é mais leve do que ter que explicar, toda vez, que você entrou num lugar só pra comprar uma chaleira". Reflita sobre essa frase: por que, em sociedades desiguais como a nossa, o humor é frequentemente usado por grupos marginalizados como uma estratégia de sobrevivência ou uma forma de "não sangrar" diante das microagressões do dia a dia?

Dica do Prof:

Galera, ao responderem, tentem conectar o texto com a frase final do autor: "Eles não têm culpa por eu ser pobre, velho e feio". Será que é "culpa" ou será que é um sistema que ensina as pessoas a valorizarem apenas quem tem um determinado perfil estético e financeiro? Usem o senso crítico!

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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

LIVRE-ARBÍTRIO SÓ COM VACINA: O Organismo, o Medo e o Teatro dos Répteis ("Todos têm a liberdade de escolher o próprio caminho e decidir como será." — The Ancient Magus Bride)

 


"ÍNDIOS" CRISTÃOS: O Ciclo do Sagrado e o Teatro das Aparências ("Haja ou não deuses, deles somos servos." — Fernando Pessoa)

 


domingo, 19 de fevereiro de 2023

QUEM BONS CONSELHOS DÁ, RECEBE. ("Por trás de todo bom conselheiro existe lágrimas a serem derramadas " — Enrico Vaz Mariano)