Ensaio Teológico III(4) A Busca pela Aprovação Divina e Humana
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Houve um domingo em que precisei fazer uma escolha daquelas que parecem pequenas por fora, mas mudam alguma coisa por dentro. Um amigo muito próximo — de quem, hoje reconheço, eu dependia emocionalmente mais do que gostaria de admitir — pediu que eu encobrisse uma atitude que eu sabia ser errada. Não era um crime, nem algo que escandalizasse os olhos do mundo. Ainda assim, bastava para inquietar minha consciência. Durante toda a semana, procurei uma saída que preservasse a amizade sem trair aquilo em que eu acreditava. Ensaiei justificativas, imaginei respostas diplomáticas, tentei construir uma ponte onde, na verdade, havia um abismo. Queria agradar aos dois lados. Mas, chegou a hora em que já não era possível adiar a decisão. Escolhi dizer a verdade. O preço veio logo em seguida: meu amigo se afastou, ferido, e levou meses para voltar a falar comigo. Confesso que chorei mais pela perda daquela amizade do que alguma vez imaginei chorar por uma questão de consciência. Foi nesse silêncio doloroso que comecei a compreender, não apenas com a razão, mas com a própria pele, o sentido das palavras de Paulo: quando fazemos da aprovação humana o nosso maior critério, a devoção a Deus vai sendo sufocada quase sem que percebamos.
Pensando bem, essa talvez seja uma das perguntas mais profundas da vida espiritual: afinal, para quem vivemos? A busca por aprovação acompanha o ser humano desde cedo. Queremos ser aceitos pela família, admirados pelos amigos, respeitados no trabalho, reconhecidos pela comunidade. Há algo profundamente humano nesse desejo de pertencimento. Ralph Waldo Emerson advertia sobre o perigo de moldarmos nossa identidade apenas para corresponder às expectativas alheias. Para ele, a autenticidade era uma forma de coragem num mundo que insiste em transformar pessoas em cópias umas das outras. Concordo com essa percepção. Não são poucos os que acabam perdendo a própria voz porque passam a viver em função dos aplausos. Paulo, porém, vai ainda mais longe. Ao escrever aos gálatas, ele não coloca a aprovação de Deus apenas no topo de uma lista de prioridades; faz dela o critério capaz de julgar todas as demais. Foi justamente esse discernimento que me faltou naquela semana. Eu tentava conciliar o inconciliável, até perceber que, naquele caso, agradar ao meu amigo significaria ferir a minha própria consciência.
Ao mesmo tempo, aprendi que seria simplista condenar toda busca por aprovação humana como se ela fosse, por si só, um desvio espiritual. Nem toda aprovação é idolatria. Existe uma diferença profunda entre o desejo saudável de pertencimento e a necessidade doentia de validação. O primeiro nos aproxima das pessoas, fortalece os vínculos, alimenta a amizade, a comunhão e o afeto. O segundo nos escraviza. Passamos a viver em função do olhar dos outros, ajustando nossas convicções conforme a plateia muda. É aí que deixamos de ser quem somos. A questão, portanto, não é simplesmente querer ser aceito, mas discernir o motivo desse desejo. Vale a pena perguntar, vez ou outra: estou buscando essa aprovação porque ela fortalece meus relacionamentos ou porque tenho medo das consequências de permanecer fiel àquilo que considero verdadeiro? Essa pergunta, embora desconfortável, costuma revelar muito mais do que imaginamos.
As Escrituras oferecem exemplos inspiradores de pessoas que conseguiram, ao mesmo tempo, desfrutar da aprovação de Deus e do respeito dos homens. José, no Egito, e Daniel, na Babilônia, são frequentemente lembrados por essa admirável combinação. Contudo, talvez nos esqueçamos de um detalhe importante: eles são exceções, não a regra. A experiência comum é bem menos elegante. Na maior parte das vezes, fidelidade e aceitação caminham por estradas diferentes. A maioria de nós não vive histórias grandiosas como as deles. Vivemos dilemas discretos, quase invisíveis, como aquele domingo que mudou minha maneira de compreender a fé. Escolhemos um lado e sofremos pela perda do outro. E talvez seja justamente aí que a maturidade espiritual comece a florescer. Não na ausência do conflito, mas na disposição de atravessá-lo sem negociar aquilo que sustenta nossa consciência.
Hoje, quando me lembro daquele amigo, ainda sinto um traço de saudade. Algumas perdas deixam marcas que o tempo não apaga completamente. Mas, junto com essa lembrança, há uma paz serena que também permaneceu. Não porque a dor tenha desaparecido, mas porque compreendi que certas fidelidades custam caro mesmo. Buscar a Deus acima de tudo nunca foi uma promessa de relações sem conflitos ou de escolhas sem lágrimas. O Evangelho jamais fez esse tipo de oferta. O que ele oferece é algo diferente: a coragem para permanecer de pé quando a verdade cobra um preço, e a paz que nasce da certeza de que nenhuma aprovação humana, por mais desejável que seja, consegue substituir a tranquilidade de uma consciência reconciliada com Deus.
Hoje entendo que viver para Deus não significa desprezar as pessoas, muito menos tornar-se indiferente ao afeto ou ao reconhecimento humano. Significa apenas colocar cada amor no seu devido lugar. Quando isso acontece, continuamos valorizando os amigos, cultivando os relacionamentos e celebrando o carinho daqueles que caminham conosco. A diferença é que deixamos de depender da aprovação deles para saber quem somos. E essa liberdade — silenciosa, madura e profundamente espiritual — talvez seja uma das formas mais belas de paz que alguém pode experimentar.



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