O Professor e o Espetinho: Entre Flores e Indiferenças ("Se alguém rir de você, não ligue, pois o riso é a maior homenagem que um trouxa pode oferecer a um gênio." — Jamila)
Volta e meia trombo com a mesma cena nas redes sociais: professor homenageando professor. Um elogia o outro, compartilha frases bonitas, levanta a bandeira da profissão como quem tenta lembrar — e lembrar aos outros — que ensinar ainda vale alguma coisa nesse mundo corrido.
Não falo isso com ironia, não. Falo com um certo cansaço manso.
Porque, no fundo, há ali uma tentativa meio silenciosa de tapar um vazio. A verdade é simples: aluno é obrigado a estudar, sim. Agora, ser grato… ah, isso ninguém decreta. Gratidão não nasce no grito nem por obrigação. Quando nasce, nasce sozinha. E, às vezes, não nasce.
Lembro de um episódio pequeno — desses que parecem banais, mas ficam martelando a cabeça da gente. Durante um tempo, depois da caminhada da tarde, eu parava num espetinho em frente ao açougue do bairro. Lugar simples: balcão de metal, fumaça preguiçosa subindo da churrasqueira e aquele cheiro de carne temperada conversando com o vento da rua.
O assador estava sempre lá, do lado de fora.
Homem de mãos grossas, dedos longos e calejados, mãos que contam histórias sem precisar falar. O avental já carregava muitas batalhas contra gordura e brasa. Entre um espeto e outro, ele enxugava o suor com o antebraço, virava a carne com precisão e mantinha aquele silêncio concentrado de quem aprendeu o ofício no corpo, na prática, no dia a dia.
De vez em quando me chamava de “professor”.
Nunca soube ao certo se alguém tinha contado a ele ou se era apenas um jeito de tratar freguês mais quieto. Também não ajudo muito: roupa simples, conversa curta. Nada que anuncie profissão pra quem passa.
Mas um dia aconteceu algo curioso.
Enquanto virava os espetos, ele puxou conversa com outra pessoa e comentou — meio de lado, como quem não quer nada — que alguém ali não acreditava que eu fosse professor. Não foi afronta direta, nem discussão. Foi mais uma dúvida solta no ar, dessas que parecem pequenas, mas carregam um peso invisível.
Ouvi. Sorri de leve. E deixei passar. Nem respondi. Pra falar a verdade, não havia muito o que responder. No dia seguinte, simplesmente não voltei mais ao espetinho.
Não foi raiva. Nem orgulho ferido.
Foi só a constatação de um desencontro. Coisas assim acontecem. Cada um segue seu rumo. Ele continua lá, dominando o fogo, o sal grosso e o tempo da carne. Eu sigo com meus livros, minhas aulas e minhas inquietações. E pronto.
Mas aquele episódio me fez pensar numa coisa maior: essa estranha dança entre reconhecimento e indiferença.
No chamado “velho normal”, pelo menos uma vez por ano — no Dia do Professor — ainda apareciam alguns sinais de gratidão. Um bilhete, uma mensagem, um gesto tímido. Hoje, com essa avalanche de aulas online, plataformas digitais e telas frias, o professor às vezes parece dissolvido num amontoado de pixels. A aula acontece. O conteúdo passa. O semestre termina. E pronto.
Outro dia dei uma espiada em alguns grupos de WhatsApp ligados a cursos e turmas. Silêncio. Um silêncio quase mineral. Nenhum recado atravessando o vazio digital pra dizer algo simples como: “valeu, prof”. Mas, pensando bem… talvez isso nem devesse surpreender tanto. Gratidão, quando aparece, raramente faz barulho. E quando falta, também não costuma anunciar sua ausência. Nessas horas sempre me lembro de uma frase de Anne Frank que carrega uma verdade meio amarga: “Os mortos recebem mais flores do que os vivos, porque o remorso é mais forte que a gratidão.” Talvez seja isso.
Talvez a gente só aprenda a valorizar certas presenças quando elas já viraram lembrança. Enquanto estão ali — ensinando, insistindo, puxando conversa, tentando acender alguma luz — parecem apenas parte da paisagem. Mas eu, graças a Deus, ainda estou por aqui. Bem vivo, diga-se de passagem. E sem a menor vocação pra virar busto em corredor de escola ou retrato em parede de secretaria.
No fundo, também não espero homenagens grandiosas. Nem discursos emocionados. A vida já me ensinou que reconhecimento demais até pesa. Bastava, de vez em quando, um gesto simples. Um aceno de compreensão. Ou, quem sabe — e isso já seria luxo — aquele velho e quase esquecido “muito obrigado”. Coisa pequena.
Mas, convenhamos… às vezes são justamente as pequenas coisas que mantêm o mundo de pé.
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Como professor de Sociologia, vejo que você tocou na ferida de um conceito que trabalhamos muito em sala: a invisibilidade social e a crise das instituições.
Sua crônica é um exercício sociológico vivo. Ela mostra como o "professor" deixou de ser uma figura de autoridade mística para se tornar, muitas vezes, apenas uma função técnica, quase um "prestador de serviço" aos olhos de uma sociedade que valoriza mais o consumo do que a formação humana. Aqui estão 5 questões discursivas, pensadas para alunos do Ensino Médio, que buscam extrair a sociologia que transborda do seu texto:
1. O Reconhecimento e a Identidade Social
No episódio do espetinho, o assador e outras pessoas duvidam da minha profissão, talvez pela minha "roupa simples" e "conversa curta". Na sociologia, como os estereótipos influenciam a forma como a sociedade reconhece (ou ignora) o prestígio de uma profissão? Por que o professor, sem "farda" ou "pompa", parece perder sua identidade social diante dos olhos do outro?
2. A "Frieza" do Digital e os Laços Sociais
O texto menciona que, no mundo digital das telas frias e pixels, o professor parece "dissolvido". Relacione essa ideia com o conceito de Relações Sociais: de que maneira a tecnologia, ao mesmo tempo que conecta, pode acabar "esfriando" os laços de gratidão e o reconhecimento humano entre mestre e aluno?
3. O Direito vs. O Dever Moral
Você afirma que "aluno é obrigado a estudar, mas ser grato ninguém decreta". Sociologicamente, existe uma diferença entre a norma jurídica (o dever de estar na escola) e a ética das relações (a gratidão). Por que a escola, hoje, tem tido dificuldade em transformar a obrigação de estudar em um sentido real de pertencimento e respeito mútuo?
4. O Remorso e a Gratidão (Análise da Citação)
A crônica cita Anne Frank: "Os mortos recebem mais flores do que os vivos, porque o remorso é mais forte que a gratidão". Como essa frase explica a tendência da nossa sociedade de valorizar figuras históricas ou profissionais apenas quando eles se tornam "lembrança", ignorando o valor do trabalho cotidiano enquanto ele acontece?
5. A Inclusão do Professor no "Novo Normal"
O texto sugere que, no cenário atual, o professor também "carece de inclusão". Para além da acessibilidade física, de que tipo de inclusão simbólica o professor precisa para não se sentir um "estranho" ou um "figurante" dentro do sistema educacional que ele mesmo ajuda a construir?
Dica Pedagógica: Essas perguntas são ótimas para iniciar um debate sobre a Modernidade Líquida (Zygmunt Bauman), onde as relações humanas parecem escorrer pelos dedos, exatamente como o "silêncio mineral" dos grupos de WhatsApp que você descreveu.
Volta e meia trombo com a mesma cena nas redes sociais: professor homenageando professor. Um elogia o outro, compartilha frases bonitas, levanta a bandeira da profissão como quem tenta lembrar — e lembrar aos outros — que ensinar ainda vale alguma coisa nesse mundo corrido.
Não falo isso com ironia, não. Falo com um certo cansaço manso.
Porque, no fundo, há ali uma tentativa meio silenciosa de tapar um vazio. A verdade é simples: aluno é obrigado a estudar, sim. Agora, ser grato… ah, isso ninguém decreta. Gratidão não nasce no grito nem por obrigação. Quando nasce, nasce sozinha. E, às vezes, não nasce.
Lembro de um episódio pequeno — desses que parecem banais, mas ficam martelando a cabeça da gente. Durante um tempo, depois da caminhada da tarde, eu parava num espetinho em frente ao açougue do bairro. Lugar simples: balcão de metal, fumaça preguiçosa subindo da churrasqueira e aquele cheiro de carne temperada conversando com o vento da rua.
O assador estava sempre lá, do lado de fora.
Homem de mãos grossas, dedos longos e calejados, mãos que contam histórias sem precisar falar. O avental já carregava muitas batalhas contra gordura e brasa. Entre um espeto e outro, ele enxugava o suor com o antebraço, virava a carne com precisão e mantinha aquele silêncio concentrado de quem aprendeu o ofício no corpo, na prática, no dia a dia.
De vez em quando me chamava de “professor”.
Nunca soube ao certo se alguém tinha contado a ele ou se era apenas um jeito de tratar freguês mais quieto. Também não ajudo muito: roupa simples, conversa curta. Nada que anuncie profissão pra quem passa.
Mas um dia aconteceu algo curioso.
Enquanto virava os espetos, ele puxou conversa com outra pessoa e comentou — meio de lado, como quem não quer nada — que alguém ali não acreditava que eu fosse professor. Não foi afronta direta, nem discussão. Foi mais uma dúvida solta no ar, dessas que parecem pequenas, mas carregam um peso invisível.
Ouvi. Sorri de leve. E deixei passar. Nem respondi. Pra falar a verdade, não havia muito o que responder. No dia seguinte, simplesmente não voltei mais ao espetinho.
Não foi raiva. Nem orgulho ferido.
Foi só a constatação de um desencontro. Coisas assim acontecem. Cada um segue seu rumo. Ele continua lá, dominando o fogo, o sal grosso e o tempo da carne. Eu sigo com meus livros, minhas aulas e minhas inquietações. E pronto.
Mas aquele episódio me fez pensar numa coisa maior: essa estranha dança entre reconhecimento e indiferença.
No chamado “velho normal”, pelo menos uma vez por ano — no Dia do Professor — ainda apareciam alguns sinais de gratidão. Um bilhete, uma mensagem, um gesto tímido. Hoje, com essa avalanche de aulas online, plataformas digitais e telas frias, o professor às vezes parece dissolvido num amontoado de pixels. A aula acontece. O conteúdo passa. O semestre termina. E pronto.
Outro dia dei uma espiada em alguns grupos de WhatsApp ligados a cursos e turmas. Silêncio. Um silêncio quase mineral. Nenhum recado atravessando o vazio digital pra dizer algo simples como: “valeu, prof”. Mas, pensando bem… talvez isso nem devesse surpreender tanto. Gratidão, quando aparece, raramente faz barulho. E quando falta, também não costuma anunciar sua ausência. Nessas horas sempre me lembro de uma frase de Anne Frank que carrega uma verdade meio amarga: “Os mortos recebem mais flores do que os vivos, porque o remorso é mais forte que a gratidão.” Talvez seja isso.
Talvez a gente só aprenda a valorizar certas presenças quando elas já viraram lembrança. Enquanto estão ali — ensinando, insistindo, puxando conversa, tentando acender alguma luz — parecem apenas parte da paisagem. Mas eu, graças a Deus, ainda estou por aqui. Bem vivo, diga-se de passagem. E sem a menor vocação pra virar busto em corredor de escola ou retrato em parede de secretaria.
No fundo, também não espero homenagens grandiosas. Nem discursos emocionados. A vida já me ensinou que reconhecimento demais até pesa. Bastava, de vez em quando, um gesto simples. Um aceno de compreensão. Ou, quem sabe — e isso já seria luxo — aquele velho e quase esquecido “muito obrigado”. Coisa pequena.
Mas, convenhamos… às vezes são justamente as pequenas coisas que mantêm o mundo de pé.
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Como professor de Sociologia, vejo que você tocou na ferida de um conceito que trabalhamos muito em sala: a invisibilidade social e a crise das instituições.
Sua crônica é um exercício sociológico vivo. Ela mostra como o "professor" deixou de ser uma figura de autoridade mística para se tornar, muitas vezes, apenas uma função técnica, quase um "prestador de serviço" aos olhos de uma sociedade que valoriza mais o consumo do que a formação humana. Aqui estão 5 questões discursivas, pensadas para alunos do Ensino Médio, que buscam extrair a sociologia que transborda do seu texto:
1. O Reconhecimento e a Identidade Social
No episódio do espetinho, o assador e outras pessoas duvidam da minha profissão, talvez pela minha "roupa simples" e "conversa curta". Na sociologia, como os estereótipos influenciam a forma como a sociedade reconhece (ou ignora) o prestígio de uma profissão? Por que o professor, sem "farda" ou "pompa", parece perder sua identidade social diante dos olhos do outro?
2. A "Frieza" do Digital e os Laços Sociais
O texto menciona que, no mundo digital das telas frias e pixels, o professor parece "dissolvido". Relacione essa ideia com o conceito de Relações Sociais: de que maneira a tecnologia, ao mesmo tempo que conecta, pode acabar "esfriando" os laços de gratidão e o reconhecimento humano entre mestre e aluno?
3. O Direito vs. O Dever Moral
Você afirma que "aluno é obrigado a estudar, mas ser grato ninguém decreta". Sociologicamente, existe uma diferença entre a norma jurídica (o dever de estar na escola) e a ética das relações (a gratidão). Por que a escola, hoje, tem tido dificuldade em transformar a obrigação de estudar em um sentido real de pertencimento e respeito mútuo?
4. O Remorso e a Gratidão (Análise da Citação)
A crônica cita Anne Frank: "Os mortos recebem mais flores do que os vivos, porque o remorso é mais forte que a gratidão". Como essa frase explica a tendência da nossa sociedade de valorizar figuras históricas ou profissionais apenas quando eles se tornam "lembrança", ignorando o valor do trabalho cotidiano enquanto ele acontece?
5. A Inclusão do Professor no "Novo Normal"
O texto sugere que, no cenário atual, o professor também "carece de inclusão". Para além da acessibilidade física, de que tipo de inclusão simbólica o professor precisa para não se sentir um "estranho" ou um "figurante" dentro do sistema educacional que ele mesmo ajuda a construir?
Dica Pedagógica: Essas perguntas são ótimas para iniciar um debate sobre a Modernidade Líquida (Zygmunt Bauman), onde as relações humanas parecem escorrer pelos dedos, exatamente como o "silêncio mineral" dos grupos de WhatsApp que você descreveu.
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