"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

quinta-feira, 29 de julho de 2010

GATO POR LEBRE: O Despertar Tardio (ou a Conveniência do Momento?)


Crônica

GATO POR LEBRE: O Despertar Tardio (ou a Conveniência do Momento?)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

De repente — assim, sem aviso prévio, como quem acorda sobressaltado no meio da madrugada — a classe política brasileira resolveu redescobrir um velho conhecido da educação: a tal da progressão escolar automática. Virou manchete, assunto de debate, combustível de discursos inflamados. Agora, dizem, é hora de enterrá-la com solenidade, quase como quem participa de um funeral cívico para um erro histórico recém-descoberto. Mas a pergunta, teimosa, continua batendo à porta: por que só agora?

A progressão continuada não caiu do céu ontem. Ela atravessou décadas de políticas educacionais e ganhou força sobretudo nos anos 1990, embalada por uma promessa sedutora: reduzir a evasão escolar e democratizar o acesso à educação. No papel, parecia um avanço civilizatório. Na prática… bem, a realidade foi menos elegante.

O país passou a conviver com um paradoxo difícil de engolir: alunos avançam de série, mas muitos chegam ao final do ensino fundamental tropeçando no básico — leitura, interpretação, matemática elementar. E o próprio IDEB repete, ano após ano, o mesmo recado incômodo: avançamos pouco onde deveríamos avançar muito. Ou seja, o problema nunca esteve escondido. Só foi, digamos assim, convenientemente ignorado.

Porque, quando a politicagem pega o volante, a estrada costuma escurecer. Na penumbra da ignorância — cultivada, tolerada ou simplesmente deixada correr solta — fica bem mais fácil conduzir multidões sem muita resistência. Nessas horas, o velho ditado cai como uma luva: “de noite todos os gatos são pardos”. E foi nessas sombras que passamos anos comprando gato por lebre educacional, enquanto relatórios se empilhavam no Ministério da Educação e especialistas alertavam, aqui e ali, para a fragilidade do aprendizado real nas salas de aula. Agora, de repente, descobriram o problema.

Permita-me uma hipótese menos inocente: a escola perdeu autoridade simbólica diante do adolescente. O aluno percebe quando o jogo está armado. Quando entende que passará de ano quase por inércia, o esforço perde o sentido. O desafio evapora — e, com ele, vai embora também o respeito pela própria ideia de estudar.

Enquanto isso, lá no alto das estruturas burocráticas, técnicos altamente titulados produzem diretrizes sofisticadas, cheias de boas intenções, gráficos elegantes e linguagem técnica. Tudo muito organizado no papel. Bonito de ver. Só tem um detalhe: educação não acontece em planilhas. Ela acontece no chão da escola. Naquele instante quase invisível em que um professor tenta, contra todas as probabilidades, ensinar alguém a pensar.

Porque, no fundo, o verdadeiro nó da questão nunca foi apenas reprovar ou promover alunos. O problema sempre foi outro — mais profundo, mais exigente: ensinar o estudante a aprender por conta própria. Sem isso, qualquer política educacional vira maquiagem estatística, dessas que até enganam na foto, mas não resistem à luz do dia.

E aqui aparece um ponto ainda mais espinhoso. Parte dos próprios profissionais da educação — que deveriam ser os primeiros a questionar essas engrenagens — acabou se acomodando. Não por falta de inteligência, mas por excesso de prudência social. Criticar certas políticas virou quase uma heresia pedagógica. Entre preservar a reputação e enfrentar o debate, muita gente preferiu o caminho mais silencioso. O silêncio confortável.

Assim nasceu uma curiosa coreografia institucional. Ontem defendia-se a progressão automática como símbolo de modernidade educacional. Hoje, muitos dos mesmos especialistas começam a recuar discretamente, como quem troca de música numa festa sem admitir que a anterior estava desafinada. Ninguém gosta de admitir erro em público. Só que educação é um terreno onde erros não custam apenas argumentos. Custam gerações.

Quando tentamos medir todos os alunos pela mesma régua burocrática, acabamos esmagando justamente aquilo que deveria florescer: o esforço individual, a curiosidade intelectual, o prazer de descobrir. O “comum”, quando vira regra absoluta, costuma virar também inimigo da excelência.

No fundo — e aqui está o ponto que pouca gente gosta de dizer em voz alta — a disputa educacional brasileira nunca foi apenas pedagógica. Ela é também política. E, em certo sentido, simbólica. Disputam-se números. Disputam-se discursos. Mas, sobretudo, disputam-se mentes. Porque uma sociedade que desaprende a pensar se torna, inevitavelmente, mais fácil de conduzir.

Talvez seja por isso que esse súbito despertar político cause tanto estranhamento. Não sabemos se estamos diante de uma correção sincera de rota ou apenas de mais uma reconfiguração estratégica do discurso. O que sabemos, isso sim, é outra coisa. A escola brasileira precisa recuperar algo que nenhuma lei, decreto ou reforma curricular consegue fabricar artificialmente: o sentido do aprendizado. Sem isso, qualquer reforma será apenas mais um ato nesse velho teatro educacional onde todos falam em nome dos estudantes — mas poucos, pouquíssimos, realmente escutam o que acontece dentro da sala de aula.

E assim seguimos, assistindo à cortina subir e descer sobre novas promessas salvadoras. Só que agora já não dá mais para assistir em silêncio. A inquietação ficou grande demais pra caber na resignação. Não pra descobrir se estamos indo da brasa para o espeto. Mas pra decidir, de uma vez por todas, quem continua alimentando o fogo.


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Como professor de Sociologia, fico muito empolgado quando escrevo um texto que cutuca a ferida das nossas instituições. A escola não é uma bolha; ela reflete as disputas de poder, as desigualdades e as intenções de quem comanda o país. O texto que acabamos de ler é um prato cheio para pensarmos em Educação e Controle Social. Preparei 5 questões discursivas para a gente refletir sobre como a política molda o que acontece dentro da sala de aula.


1. O "Uso Político" da Educação

O texto sugere que a manutenção de uma educação frágil facilita a condução de "multidões sem muita resistência". De que forma a falta de uma educação de qualidade pode ser vista como uma ferramenta de controle social e dominação política?

2. O Papel da Meritocracia e do Estímulo

O autor afirma que, ao perceber que passará de ano "por inércia", o aluno perde o sentido do esforço. Do ponto de vista sociológico, como a ausência de desafios e de critérios de avaliação reais pode afetar a construção da identidade do jovem e sua visão sobre a importância do conhecimento na sociedade?

3. Burocracia vs. Chão da Escola

Existe uma crítica no texto aos "técnicos altamente titulados" que planejam a educação em planilhas, longe da realidade das salas de aula. Explique por que o distanciamento entre quem formula as leis (a elite burocrática) e quem as executa (professores e alunos) pode gerar o que o autor chama de "maquiagem estatística".

4. A Conformidade dos Profissionais

O texto menciona que muitos profissionais da educação se acomodaram por "prudência social" ou medo de "heresia pedagógica". Como as pressões sociais e o medo do cancelamento ou da crítica podem silenciar o debate democrático e impedir melhorias reais nas instituições de ensino?

5. A Escola como Campo de Disputa

Segundo o trecho: "a disputa educacional brasileira nunca foi apenas pedagógica. Ela é também política". Relacione essa afirmação com a ideia de que a escola é um espaço onde se "disputam mentes". Qual é a importância de uma sociedade que "aprende a pensar" para a manutenção da democracia?

Dica do Prof:

Para responder a essas questões, não foque apenas em "certo ou errado". Pense em como as estruturas da sociedade (governo, leis, cultura) influenciam a vida das pessoas. Use exemplos do seu dia a dia na escola para enriquecer seus argumentos!

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sábado, 24 de julho de 2010

OS LESADOS, NÃO DENUNCIANTES (Cursos a distância física e ideológica, indústrias de diploma fáceis, faturando alto.)

Crônica

OS LESADOS, NÃO DENUNCIANTES (Cursos a distância física e ideológica, indústrias de diploma fáceis, faturando alto.)

sábado, 24 de julho de 2010
Claudeci Ferreira de Andrade
        Ouvi pelo rádio sobre uma grande quantidade de cursos a distância que são verdadeiras indústrias de diplomas fáceis, faturando alto. Já na internet, descobri estes dizeres: “SUPLETIVO A DISTÂNCIA SEM FREQUENTAR SALA DE AULA, CERTIFICADO RECONHECIDO EM TODO TERRITÓRIO NACIONAL E VÁLIDO PARA: FACULDADE, CONCURSOS PÚBLICOS, CURSOS TÉCNICOS E PRINCIPALMENTE PARA O MERCADO DE TRABALHO, COM PUBLICAÇÃO EM DIÁRIO OFICIAL , PAGAMENTO FACILITADO . (0**14) 9621.5895.” E contrastei com (http://g1.globo.com/goias/noticia/2016/03/video-mostra-prisao-de-suspeitos-de-vender-diplomas-de-ensino-medio.html) - Acessado em 05/03/2016.
        As pessoas honestas consigo mesmas, estudam de fato. Estas, sim, podem denunciar, reclamar e se sentir injustiçadas com a máfia da educação. Os moderninhos como favorecidos pela falcatrua do sistema educacional paralelo, eles devem não ser muito questionadores. Toda facilidade do sistema educacional oficial proposto, tem em vista "ajudar" as pessoas, e não apenas satisfazer–lhes a vaidade de se anunciar graduados. Como podemos levar os supostos beneficiados a se denunciar e aceitar sua criminalidade, enquanto tem outro tipo que se soma a esses: os compradores? Frequentam paulatinamente o colégio, mas são fracos, e são parceiros! Assim, acabam forçando o fim a justificar os meios.
        Ser conivente com os que escolheram o atalho não atrapalha efetivamente os intelectuais e estudiosos honestos, cumpridores de currículo escolar. Disputar vaga em um concurso é como uma tempestade no mar, coloca em prova a nau. Seja qual for sua situação, garanta-se, lembrando-se também: os diplomas não fazem prova de conhecimento efetivo!
        Eu pertenço à esta terceira classe, fiz verdadeiramente bons cursos, nunca comprei um diploma, mas não denuncio os praticantes, só falo de milagres, deixo os santos no anonimato, prefiro tratar os fracos com mansidão e humildade, estes são os sinais reveladores de minha coerência, fui o primeiro colocado com a nota 9,7 no concurso público da educação estadual, 1998, para esta região, na área de Língua Portuguesa. E o terceiro na educação municipal de Senador Canedo, 2002. Desisti de trabalhar na educação pública municipal de Caldazinha, pois já trabalhara pela manhã e fazia faculdade à tarde, 1998, ali, também, houvera passado em terceiro lugar. Devemos ter todas as boas qualidades: amor, paciência, humildade, bondade, longanimidade; além de conhecimento academicamente sistematizado. Quem sabe, eles resolvem estudar arduamente mesmo depois de ter comprado, no mercado negro, seu diploma! Se você acha que estou dizendo isso tudo ao me exaltar por exaltar, interpretou mal minha crônica! Sabe quais sentimentos ocupam a minha mente? São os mesmos de quem bateu em um bêbado! E quando fracassei tive os piores, seriam, os de quem apanhou de um bêbado!
         Para não deixar em branco aos de "nível avançado", fiquei sabendo que os mestrados e doutorados do Paraguai devem passar pelo teste de equivalência nas universidades daqui. Êta, indústria...! https://extra.globo.com/extra-mobile/fabrica-de-diplomas-escola-com-capacidade-para-100-alunos-teve-12-mil-matriculados-num-ano-23116701.html
Claudeko
Publicado no Recanto das Letras em 23/06/2010
Código do texto: T2337064

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (autoria de Claudeci Ferreira de Andrade,http://claudeko-claudeko.blogspot.com). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

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segunda-feira, 5 de julho de 2010

EU EM VOCÊ NO AMANHÃ (O outro lado da pirataria)


Pensamento

EU EM VOCÊ NO AMANHÃ (O outro lado da pirataria)

Claudeci Ferreira de Andrade

          Sou Multipresente através de meus leitores, e quem quiser me copie, favorecendo assim minha expansibilidade. E mais ainda, serei eterno se vocês tirarem meus personagens do texto, vivendo-os. Eles são "pirateados" da vida real E, outras vezes, plagiado da imaginação, esta que ninguém pode impedir voar sobre nossa cabeça, então venha, se a lei da gravidade lhe permitir, e faça ninho.
          Quem vem de cima é sempre o maior! Um benefício barato nunca vale a boa interpretação, por outro lado, a má interpretação é geralmente irresponsável. Leis perfeitas não deixam brechas! Ninguém rouba minhas  ideias na fonte, só depois de expressadas! O ladrão sabe não são dele e se condena, depois me devolve em prestigio moral: remissão natural. "O que dá o prestígio verdadeiro ao artista são os seus imitadores."(Igor Stravinsky). 
          Porém, "O Alheio chora ao seu dono". Que diabo é "Domínio Público"? 
           "O domínio público representa o fim dos direitos patrimoniais do autor sobre a obra intelectual. As obras que ingressam no domínio público passam a “pertencer” à coletividade, podendo ser livremente utilizadas. Uma obra intelectual pode ingressar no domínio público na ocorrência de uma das seguintes hipóteses: (i) decurso do tempo, (ii) o falecimento do autor sem deixar herdeiros ou (iii) ser a obra de autoria desconhecida. Quanto ao decurso do tempo, é necessário que o autor, ou o coautor, no caso de coautoria, tenha falecido há mais de 70 anos. Isso significa dizer que somente após 70 anos da morte do autor ou do último dos coautores é que a obra intelectual pode ser considerada de domínio público. A Lei 9.610/98 prevê uma forma específica para a contagem do prazo de 70 anos para que uma obra intelectual integre o domínio público: o prazo somente começa a fluir a partir de janeiro do ano subsequente ao falecimento do autor. Por exemplo, se um autor morreu em agosto de 2013, o início do prazo se deu a partir de janeiro de 2014. Nessa linha de raciocínio, somente a partir de janeiro de 2084 é que a sua obra ingressará ao domínio público." https://www.meudireitoautoral.com/quando-uma-obra-vira-dominio-publico/
           Quem divulgar textos vinculados a autor Desconhecido é no mínimo um golpista: destrói o que não pode possuir, nega o incompreensível, insulta o invejável. Eu abomino os ladrões de alma!
Claudeko
Publicado no Recanto das Letras em 05/07/2010
Código do texto: T2360356

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (autoria de Claudeci Ferreira de Andrade,http://claudeko-claudeko.blogspot.com). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

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domingo, 4 de julho de 2010

O Teatro do Absurdo: Moral, Merenda e Outras Mentiras (Um alunado que condena seu professor a um grande sentimento de culpa é um colegiado fútil.)








Crônica

O Teatro do Absurdo: Moral, Merenda e Outras Mentiras (Um alunado que condena seu professor a um grande sentimento de culpa é um colegiado fútil.)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há dias — e não são poucos — em que a sala de aula parece palco improvisado de alguma peça esquecida de Samuel Beckett. Carteiras tortas, vozes cruzadas, um burburinho que cresce sem roteiro. E, no meio disso tudo, o professor ali, tentando salvar o fio da aula como quem segura um balde furado.

De repente, lá do fundo, alguém solta, com a naturalidade de quem atira uma pedrinha num lago parado: — “Põe moral, professor!” A frase atravessa a sala e fica pairando no ar, como se fosse simples, quase evidente. Mas não é. Nunca foi.

Porque moral — essa palavra dita com tanta facilidade — não sai do bolso do professor como um giz novo. Não é ferramenta pedagógica, muito menos item do plano de aula. Moral não se distribui em sala como merenda. Ela nasce antes, muito antes: naquele território silencioso das primeiras conversas em casa, nos limites que alguém um dia precisou dizer com afeto ou firmeza. E, ainda assim, lá está ela sendo cobrada como se fosse conteúdo curricular.

Confesso: às vezes fico olhando para o menino que gritou e tentando imaginar o caminho que o trouxe até ali. Talvez venha de uma casa onde todo mundo fala alto para ser ouvido. Talvez ninguém tenha tempo de escutar ninguém. Talvez ele tenha aprendido cedo que provocar é um jeito de existir. Porque, convenhamos, por trás de muita bravata mora só um adolescente tentando descobrir onde cabe no mundo.

Mesmo assim, a cena não deixa de ser curiosa. O sujeito pede moral enquanto atravessa a sala sem pedir licença, visita carteiras alheias, mata minutos da aula como quem passeia por um corredor invisível. Pode ser que nem perceba a contradição. Ou, quem sabe, perceba — e use isso como estratégia. Porque a acusação, muitas vezes, funciona como uma pequena cortina de fumaça.

Ao apontar o dedo pro professor, o aluno ganha alguns segundos de protagonismo. A sala prende o fôlego, o eixo da atenção muda de lugar e o mestre, que estava ensinando, de repente se vê tendo que defender a própria autoridade. É um jogo antigo. Antigo e repetido.

Nessa hora, a sala vira um curioso laboratório moral improvisado. Uns riem. Outros observam em silêncio. E sempre tem aquele que, pela primeira vez, começa a se perguntar se o professor realmente “tem moral”. O curioso é que a moral verdadeira raramente levanta a voz. Ela age mais como a gravidade: invisível, constante, sustentando tudo sem pedir aplauso.

A escola, aliás, vive cercada dessas ironias discretas. Distribuem-se livros que às vezes continuam fechados nas mochilas. Bicicletas que poderiam encurtar caminhos acabam esquecidas nos quintais. Projetos surgem, recursos chegam, mas algo — esse ingrediente invisível chamado sentido — nem sempre vem junto no pacote.

E os estudantes, claro, são filhos desse mundo meio desencontrado. Alguns chegam carregando pressa. Outros, cansaço. Outros ainda trazem só aquela sensação vaga de que a escola é um lugar onde se está… mas nem sempre um lugar onde se pertence.

Quando toca o sinal do lanche, então, a cena muda de figura. Cadeiras raspam no chão, portas batem, o corredor vira correnteza. Em poucos segundos, a sala esvazia. O professor fica ali por um instante olhando para o quadro — como ator que terminou a fala enquanto o público já saiu para o intervalo. Não é derrota. Não. É só a realidade sem maquiagem.

E ainda tem os episódios de fé amplificada por alto-falante improvisado. Sempre aparece um aluno que transforma o celular em púlpito portátil e resolve oferecer à turma inteira um louvor involuntário. Se alguém pede pra baixar o volume, pronto: a reação vem rápida, quase dramática — como se o professor tivesse interrompido um culto no meio da praça. E assim seguimos. Entre equívocos, tentativas, tropeços e pequenas colisões de mundos.

Talvez o maior equívoco da educação seja imaginar que todos entram na sala vindos do mesmo ponto de partida. Não entram. Cada estudante traz uma história invisível — algumas tecidas com cuidado, outras costuradas com ausência. O professor, com as ferramentas que tem, tenta organizar esse mosaico. Paciência. Exemplo. E uma esperança meio teimosa que insiste em não morrer.

Por isso, quando alguém grita “põe moral, professor”, talvez esteja pedindo algo que nem sabe nomear. Talvez peça limite. Talvez peça atenção. Talvez esteja só testando até onde o mundo vai.

Quanto a mim, continuo achando que moral não se transfere como objeto de mão em mão. Moral se mostra. Devagar. No cotidiano. Como quem acende uma luz pequena numa sala escura. E sempre me volta à memória uma observação de Friedrich Nietzsche que parece ter sido escrita pensando em salas de aula: “Os leitores extraem dos livros, consoante o seu carácter, a exemplo da abelha ou da aranha que, do suco das flores retiram, uma o mel, a outra o seu veneno.” Com alunos acontece algo parecido. Alguns encontram no encontro com o professor um caminho. Outros encontram apenas um adversário.

E assim seguimos — professores e estudantes — nesse estranho teatro da educação, todos em cena, tentando descobrir, entre erros e acertos, qual papel realmente nos cabe representar.


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Olá! Como seu professor de Sociologia, fico muito feliz em ver como essa crônica toca em pontos centrais da nossa disciplina: socialização, autoridade, instituições e a construção do indivíduo. O texto é um prato cheio para analisarmos como a escola não é apenas um lugar de "aprender matéria", mas um espaço de conflitos simbólicos. Preparei 5 questões discursivas, com uma linguagem direta, para pensarmos juntos sobre essas ideias:

1. Onde nasce a moral?

De acordo com o texto, a moral não é algo que o professor "tira do bolso" ou distribui como merenda. Explique, com suas palavras, qual é a origem da moral segundo o autor e por que ele afirma que ela não pode ser simplesmente "transferida" para o aluno dentro da sala de aula.

2. A "Cortina de Fumaça" e o Conflito

O autor sugere que, quando um aluno grita "põe moral, professor!", ele pode estar usando uma estratégia de "cortina de fumaça". O que ele quer dizer com isso? Como esse comportamento altera a dinâmica de autoridade entre quem ensina e quem aprende?

3. O Papel das Instituições (Família vs. Escola)

Na Sociologia, estudamos que a família é o primeiro grupo socializador e a escola o segundo. Como o texto descreve o choque entre esses dois mundos quando o professor se depara com alunos que trazem "histórias invisíveis" e comportamentos que desafiam as regras escolares?

4. A Ironia dos Recursos Públicos

A crônica menciona livros que ficam fechados e bicicletas esquecidas nos quintais, sugerindo que "sentido" não vem no pacote dos recursos materiais. Na sua visão, por que apenas oferecer o material (o objeto) não é suficiente para garantir que o aluno se sinta parte do processo educativo?

5. A Metáfora da Abelha e da Aranha

O texto encerra com uma citação de Nietzsche sobre como cada um retira algo diferente da mesma flor (mel ou veneno). Relacione essa ideia com o cotidiano escolar: por que, em uma mesma sala de aula e com o mesmo professor, alguns alunos encontram um "caminho" e outros encontram um "adversário"?

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