É na Sua Sombra que Mora Minha Luz? O Diabo criou a competição! (“Ninguém pode construir sua própria segurança sobre a infelicidade dos outros.” — Mahatma Gandhi)
Tinha um jogo decisivo naquela noite. Diante da TV, Sentei na minha poltrona de sempre — aquela que já conhece minhas superstições, meus palavrões abafados e minhas esperanças inúteis — com o coração apertado do jeito que só o futebol consegue fazer. Porque o futebol, convenhamos, é uma espécie de religião emocional: faz adulto rezar, faz incrédulo prometer mudança de vida e transforma noventa minutos em eternidade.
Quando o juiz apitou o fim da partida, o estádio explodiu. Meu time ganhou, e eu aqui também com os braços erguidos para o céu; lá, gente chorando, desconhecidos se abraçando como irmãos sobreviventes de uma guerra. Do outro, silêncio, cabeça baixa, mãos no rosto e aquele olhar perdido de quem acabou de assistir ao próprio sonho escapar pelo ralo. Era o mesmo gramado, o mesmo suor, o mesmo barulho ensurdecedor — mas sentimentos separados por um abismo sentimental.
E foi ali, observando aquela catarse coletiva, que uma pergunta me atravessou como faca fria: Será que é na sua incapacidade que mora a minha luz? A frase ficou dias martelando dentro de mim. Dessas ideias inconvenientes que não batem na porta — arrombam. Primeiro queimam no peito, depois começam a bagunçar os móveis da consciência.
Porque, olhando bem, existe mesmo uma lógica cruel sustentando boa parte do mundo. No esporte, um time só levanta a taça porque outro desabou de joelhos no campo. No trabalho, quantas promoções não nascem justamente do erro do colega? O sujeito vacila numa entrega, você resolve o problema, e pronto: segunda-feira aparece sorridente na reunião enquanto ele evita contato visual perto da máquina de café. No mercado, na política, nas relações pessoais… quase sempre há alguém brilhando exatamente no espaço onde outro fracassou.
É duro admitir isso. Mas fingir que essa engrenagem não existe também é uma forma elegante de ingenuidade. Só que existe uma armadilha silenciosa nesse pensamento — e ela não faz barulho quando chega. Ela corrói aos poucos.
Lembro de dois homens numa empresa onde trabalhei anos atrás. O primeiro era estrategista da própria ambição. Não precisava derrubar ninguém explicitamente; bastava esperar. Tinha a paciência fria dos que observam o tropeço alheio como pescador esperando o peixe fisgar o anzol. Quando alguém errava, lá estava ele: impecável, eficiente, pronto para ocupar o espaço vazio. Cresceu rápido. Ganhou sala maior, bônus gordo e aqueles elogios corporativos que parecem abraço, mas têm cheiro de cálculo.
O segundo era o oposto. Perdia tempo — segundo a lógica da empresa — ensinando novato, compartilhando atalhos, dividindo experiência e ajudando o time inteiro a funcionar melhor. Enquanto um subia sozinho, o outro fazia questão de puxar gente junto. Demorou mais para ser reconhecido, é verdade. O mundo quase nunca recompensa imediatamente quem constrói pontes em vez de escadas.
Mas o tempo… ah, o tempo tem uma ironia fina. Décadas depois, o primeiro ainda era lembrado pelo cargo. O segundo, pela humanidade. E existe uma diferença brutal entre as duas coisas. Cargo tem prazo de validade. Respeito não. O crachá acaba esquecido numa gaveta qualquer. Já a memória que alguém deixa nos outros continua circulando por aí, silenciosa, mesmo depois que as luzes da sala se apagam.
Desde então, essa pergunta me acompanha como sombra comprida no fim da tarde: será que a vida é mesmo um jogo de soma zero, em que meu brilho depende necessariamente da escuridão alheia? Será que só existimos plenamente quando alguém perde espaço para nós? Ou será que inventaram essa lógica porque ela justifica melhor nossa fome de vencer? Não tenho resposta pronta. Desconfio, inclusive, de quem tem.
Mas aprendi uma coisa assistindo àquele jogo. O time campeão merecia comemorar. Vitória também é suor, disciplina e coragem. Só que, passado o barulho, os nomes que permaneceram vivos na memória da torcida — dos dois lados — não foram apenas os vencedores. Foram os que jogaram com alma. Os que honraram a camisa até o último minuto, mesmo quando a derrota já rondava o campo como urubu em céu de seca. Porque existe uma dignidade rara em não abandonar a própria essência nem quando o placar desaba.
A competição tem seu valor satânico, claro. É ela que nos arranca da acomodação, como vento forte empurrando moinho velho. O problema se agrava quando a gente passa a viver esperando o tropeço do outro para se sentir inteiro. Isso amarga. A pessoa já não celebra conquistas; celebra quedas. Já não admira talentos; torce por fracassos. E, sem perceber, transforma a própria felicidade numa dependência triste da ruína alheia.
Talvez, no fim das contas, a luz mais bonita não seja aquela que nasce quando o rival apaga.
Talvez seja aquela que continua brilhando mesmo quando o outro também acende a própria chama.
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Olá, pessoal! Como professor de Sociologia, fico muito entusiasmado com textos que nos fazem olhar para além do óbvio. Esta crônica é um "prato cheio" para discutirmos como a nossa sociedade se organiza e como nós, indivíduos, nos relacionamos uns com os outros em um sistema que muitas vezes parece priorizar o conflito e a competição sobre a cooperação. Na Sociologia, analisamos fenômenos como a meritocracia, a competição social e a solidariedade. O texto nos convida a pensar se o sucesso é algo individual ou se ele sempre depende do fracasso de alguém — o que chamamos de "jogo de soma zero". Aqui estão 5 questões discursivas pensadas para o nosso nível de Ensino Médio, para ajudar vocês a conectarem esse texto com os conceitos da nossa disciplina:
1. A Sociedade da Competição e o "Jogo de Soma Zero"
O autor questiona se a vida é um "jogo de soma zero", onde para alguém ganhar, outro obrigatoriamente tem que perder. Relacione essa ideia com o conceito de Capitalismo e Competição Social. Como a estrutura do nosso mercado de trabalho incentiva a ideia de que "o brilho de um depende da escuridão do outro"?
2. Solidariedade Mecânica e Orgânica
Émile Durkheim, um dos pais da Sociologia, falava sobre como a sociedade se mantém unida através da solidariedade. No texto, vemos dois tipos de profissionais: um que sobe sozinho e outro que "puxa gente junto". De que maneira a atitude do segundo profissional fortalece a coesão social e os laços de cooperação dentro de um grupo ou empresa?
3. Meritocracia e Desigualdade
O texto menciona que "o mundo quase nunca recompensa imediatamente quem constrói pontes em vez de escadas". Reflita sobre o conceito de Meritocracia: em uma sociedade que valoriza apenas o vencedor final (o placar do jogo), o que acontece com os valores humanos e éticos daqueles que não "chegam ao topo", mas que jogaram com alma e honraram sua essência?
4. A Espetacularização da Vitória e o Consumo
O futebol é descrito como uma "religião emocional" e uma "catarse coletiva". Como a indústria cultural e os meios de comunicação transformam a vitória e a derrota em mercadorias emocionais? Por que a nossa sociedade parece ter tanta "fome de vencer" a qualquer custo, como sugere o autor?
5. Ética e Reconhecimento Social
O cronista diferencia o "cargo" do "respeito", afirmando que o cargo tem prazo de validade, mas o respeito não. Do ponto de vista sociológico, como o reconhecimento social (a forma como somos lembrados pela comunidade) constrói a nossa identidade de forma mais profunda do que os títulos hierárquicos ou o poder econômico?
Dica do Prof:
Ao responder, não fiquem apenas no "eu acho". Tentem observar como essas situações aparecem na escola, nos esportes que vocês praticam ou até no que vocês veem nas redes sociais. A Sociologia é o exercício de olhar para o que todo mundo vê, mas pensar o que ninguém pensou!
Bom trabalho!
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