"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

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MINHAS PÉROLAS

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Falo da consciência coletiva: "O Que Sobra de Nós Quando Tudo Muda?" ("O que pensamos ser o nosso 'eu' é apenas uma onda; o que realmente somos é o oceano." — Alan Watts)

 


Falo da consciência coletiva: "O Que Sobra de Nós Quando Tudo Muda?" ("O que pensamos ser o nosso 'eu' é apenas uma onda; o que realmente somos é o oceano." — Alan Watts)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

A gente passa a vida inteira pronunciando a palavra “eu” como se ela fosse pedra antiga: firme, definitiva, fincada no centro do mundo. “Eu penso.” “Eu quero.” “Eu sinto.” Tudo parece muito sólido quando sai da boca. Só que basta um instante de silêncio — daqueles que chegam sem pedir licença — para perceber que esse “eu” talvez seja menos concreto do que imaginamos. Mais névoa do que rocha. Mais correnteza do que margem.

Porque, convenhamos, você já foi tanta gente dentro da mesma pele. A criança que chorava por causa de um joelho ralado desapareceu faz tempo. O adolescente que acreditava que um coração partido era o fim do mundo também ficou pelo caminho. Depois vieram outras versões: a pessoa que sonhava alto demais, a que se decepcionou em silêncio, a que aprendeu a fingir força nos dias ruins. Seus pensamentos mudaram de endereço, seus medos trocaram de nome, e até os seus gostos — ah, esses traidores — abandonaram antigas certezas sem nem olhar para trás.

A vida foi passando como lixa em madeira bruta: desgastando excessos, revelando rachaduras, deixando marcas. E, ainda assim, sobra alguma coisa. Um eco discreto, mas persistente, que atravessa todas as mudanças e continua sussurrando baixinho: “sou eu.” Mas, quem é esse “eu”? Quem foi que atravessou a infância, suportou os abismos da juventude e agora lê estas palavras escondido atrás dos próprios olhos? Porque o corpo mudou. O rosto mudou. Até a maneira de enxergar o mundo já não é a mesma. Então o que permaneceu?

Talvez o “eu” não esteja na história que você conta para os outros. Talvez não more no nome escrito nos documentos, nem na idade que o calendário empurra ano após ano. Talvez você seja outra coisa. Algo mais silencioso.

O observador. Essa presença invisível que assiste à própria vida como quem vê chuva cair pela janela de um ônibus em movimento. Você escuta o barulho, percebe as gotas escorrendo pelo vidro, sente o balanço da estrada… mas não consegue segurar nenhuma delas. A experiência acontece diante de você o tempo inteiro: alegrias chegam, dores passam, pessoas entram e saem, versões suas nascem e morrem — e existe algo aí dentro apenas observando tudo.

Isso assusta um pouco, né? Porque antes do seu nome existir, o mundo já girava indiferente. As ruas já tinham barulho, os mares já quebravam nas pedras, alguém já chorava em algum lugar. Então, de repente, aconteceu esse pequeno milagre biológico: células se organizaram, um cérebro despertou e a consciência acendeu como luz numa casa escura.

E aí veio a estranha experiência de existir. Em algum momento da vida, todo mundo encara o próprio reflexo no espelho e tropeça na mesma pergunta: “Por que eu?” Por que nasci justamente nessa família? Nesse corpo? Nesse tempo tão cansado da humanidade? Por que estou vendo o mundo através destes olhos e não de outros?

Mas talvez a pergunta esteja torta desde o começo. Talvez não seja “por que eu?”, mas: “por que a existência está acontecendo através de mim agora?” A diferença parece pequena, mas muda tudo. Porque a gente passa os dias construindo fronteiras imaginárias. “Isso sou eu.” “Aquilo é o outro.” Criamos nomes, títulos, opiniões, feridas de estimação. Levantamos muros emocionais como quem tenta proteger um território sagrado. Só que, no fundo, talvez esse muro seja feito de papel molhado.

Imagine a consciência como um oceano imenso. Ela toca uma praia em Recife, outra em Lisboa, outra no Japão. Cada praia tem sua paisagem, seu clima, sua língua, suas dores particulares. A areia muda de cor. As ondas quebram em ritmos diferentes. Mas, o mar… o mar continua sendo o mesmo. Talvez seja assim com a gente.

Outro dia, no metrô, vi um homem sentado no canto do vagão. Devia ter uns cinquenta anos, embora o cansaço lhe acrescentasse mais vinte. Ele segurava uma mochila velha contra o peito como quem tenta impedir a própria vida de desabar. O olhar perdido, distante. E, por um segundo, sem nenhuma explicação lógica, senti aquela tristeza atravessar meu corpo também. Não era pena. Era reconhecimento.

Como se alguma parte silenciosa dentro de mim soubesse exatamente o peso que ele carregava, mesmo sem conhecer sua história. Talvez seja isso que chamamos de empatia: o instante em que o oceano reconhece a si mesmo batendo em outra margem.

Se eu fosse você, e você fosse eu, talvez o mundo deixasse de ser esse ringue interminável de egos feridos disputando razão, superioridade e aplauso. Talvez a pressa diminuísse. Talvez a arrogância perdesse força. Talvez a gente finalmente entendesse que ninguém atravessa esta vida sozinho — ainda que passe a existência inteira tentando parecer separado. Claro, isso é filosofia. Não dá pra medir em laboratório nem encaixar numa fórmula matemática. Mas nem toda verdade importante cabe numa experiência científica. Algumas apenas ressoam. E quando ressoam, a gente sente.

Porque existem ideias que não servem para serem provadas. Servem para despertar. No fim das contas, talvez a vida não seja um problema para resolver, mas uma experiência para atravessar. E atravessar exige menos controle do que presença. Menos resposta pronta e mais espanto diante do mistério.

O verdadeiro milagre talvez nem seja descobrir para onde vamos depois da morte. Talvez seja perceber que, apesar das células que morreram, dos sonhos abandonados no meio do caminho, das despedidas e do tempo que corrói tudo sem piedade, ainda existe algo intacto aí dentro. Uma presença silenciosa. Uma voz límpida que atravessa todas as suas versões e continua sussurrando, sem pressa, desde o primeiro dia: “Eu continuo aqui.”

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Olá! Como seu professor de sociologia, fico muito feliz em trabalhar esse texto com você. Ele é uma preciosidade porque toca em conceitos que estudamos como a construção da identidade, a alteridade (o reconhecimento do outro) e como a sociedade moderna muitas vezes nos fragmenta. O texto propõe que o "Eu" não é uma peça de museu estática, mas um processo contínuo e social. Para a sociologia, nós somos o resultado das nossas interações, mas o autor sugere que existe algo que observa tudo isso. Aqui estão 5 questões discursivas, simples mas profundas, para te ajudar a "mergulhar" nessas ideias:

1. A Metamorfose do "Eu" Social

O texto afirma que "você já foi tanta gente dentro da mesma pele" (criança, adolescente, sonhador, decepcionado). Do ponto de vista sociológico, como as diferentes fases da vida e os grupos sociais em que vivemos (família, escola, trabalho) moldam essas "várias versões" de nós mesmos?

2. O Reconhecimento no Outro (Alteridade)

Ao descrever a cena do homem no metrô, o autor diz que não sentiu pena, mas "reconhecimento", comparando a consciência a um oceano que bate em praias diferentes. Explique, com suas palavras, como o conceito de empatia apresentado no texto pode ajudar a reduzir os conflitos e a "arrogância" nas relações sociais hoje em dia.

3. Identidade: Rocha ou Névoa?

O autor critica a ideia de que o "Eu" é algo "firme, definitivo, fincado no centro do mundo". Relacione essa ideia ao conceito de identidade fluida (ou mundo líquido): por que na sociedade atual é tão difícil manter uma identidade única e imutável?

4. Os Muros de Papel e as Fronteiras Imaginárias

O texto menciona que criamos "muros emocionais" e títulos para nos separarmos dos outros ("Isso sou eu, aquilo é o outro"). De que maneira esses muros e categorias sociais (como classe, gênero ou nacionalidade) podem dificultar a percepção de que pertencemos a uma mesma coletividade humana?

5. A Vida como Experiência e não como Problema

No fechamento, o autor sugere que "a vida não é um problema para resolver, mas uma experiência para atravessar". Pensando na pressão que a sociedade exerce sobre os jovens para "terem sucesso" e "serem alguém", como essa mudança de pensamento (focar na presença e no mistério) poderia afetar a saúde mental e social da sua geração?

Dica do Prof:

Não procure respostas "certas" ou "erradas" como se fosse matemática. Use sua experiência de vida e o que você observa nas redes sociais e na rua para responder. O objetivo aqui é refletir!